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criancas raspam mandioca no engenho dos andrade

Reportagem de Anita Martins para o daquinarede.com.br

(26 de novembro de 2011)

Foi trabalhando, suando e fazendo calos nas mãos que 23 estudantes do 5°   ano  da Escola Estadual Paulo Fontes, de Santo Antônio de Lisboa, aprenderam como se faz farinha em um engenho movido por boi. A aula prática foi realizada no Engenho dos Andrade, no Caminho dos Açores, com a orientação dos proprietários Cláudio e Maria de Lurdes Andrade (Dinha) e a coordenadora do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, Gabriella Pieroni, do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro).

“Hoje, pela primeira vez aqui, vamos colocar vocês para fazer os trabalhos que nós fazíamos quando éramos crianças. Vamos passar para vocês o que chamamos de cultura imaterial, que é aquela transmitida oralmente de geração para geração”, começou Cláudio, reunindo os alunos em uma roda na sombra assim que chegaram da caminhada do colégio até ali. “É um túnel do tempo”, complementou Gabriella.

Em seguida, Cláudio prometeu sortear uma camiseta entre aqueles que se comportassem. O pedido foi uma ordem. A garotada colaborou do começo ao fim. A primeira tarefa foi preparar o andaime (caminho) para o boi. Os pedaços de bagaço de cana de açúcar foram sendo passados de mão em mão até serem posicionados no lugar certo.

Em seguida, a criançada sentou em esteiras no chão para raspar mandioca. Cláudio contou que, antigamente, para passar o tempo de serviço mais rapidamente, os trabalhadores faziam um jogo chamado capote. A brincadeira consistia em raspar apenas metade de uma raiz e passar a outra metade para o colega ao lado, que não podia deixar acumular mandiocas, senão perdia. Os estudantes não pensaram duas vezes e também jogaram capote.

Pâmela Pereira Militão raspa mandioca no engenho de farinha dos Andrade. Foto: Anita Martins

Uma das mais esforçadas foi Pâmela Pereira Militão, de 11 anos, que já tinha feito isso anteriormente na casa de vizinhos que possuem um engenho, na Barreira. “É muito legal isso aqui. É que nem raspar cenoura”, comentou. E, assim que um amigo perguntou quem podia terminar a mandioca dele porque estava cansado, Pâmela de prontificou de imediato. “Eu, eu, dá aqui.”

Em seguida, começou a lavagem das mandiocas raspadas, ao mesmo tempo em que alguns meninos foram passar graxa na roda do engenho. Wagner Lopes, de 10 anos, participou de quase todas as atividades e não parava de perguntar se tinha mais alguma coisa para fazer. “Por mim, eu morava aqui. Fazia farinha, comia, tudo certo”, disse, encantado.

Mas o momento de êxtase foi quando o boi entrou para fazer a roda girar e ralar a mandioca. Sob o aviso de Cláudio de que precisavam ter cuidado, pois esse momento oferecia risco à integridade física deles, os alunos ficaram juntos em um canto. Com os olhos arregalados, observaram Cláudio posicionar o animal e fazê-lo começar a andar.

Até colocar a mandioca para ralar, as crianças colocaram, sem que Cláudio desgrudasse os olhos delas, para não se machucarem. Como essa era a função mais perigosa, já que envolvia chegar perto do boi e por a raiz no ralador, onde um irmão de Cláudio perdeu a ponta do dedo, os estudantes fizeram fila para participar.

Após a saída do boi, os pequenos ainda encheram os tipitis (balaios) de massa de farinha. Cláudio os levou para a prensa, onde precisam ficar cerca de cinco horas para que a água saia da massa. E foi nessa etapa que aula acabou. “Mas, quando vocês estiverem fazendo a outra parte, até a farinha ficar pronta mesmo, podem ligar lá na escola que eu trago eles aqui”, afirmou a professora Shirley Maria Matos, apoiada pelos pupilos.

O encontro foi, então, encerrado com um café tarde cheio de delícias feitas de farinha – biju e cuscuz – e outros produtos do campo – geléias e sucos orgânicos – e com o sorteio de não uma, mas duas camisetas. As crianças ajudaram a arrumar a mesa e a lavar a louça depois. Todos saíram de lá satisfeitos.

“Superou as minhas expectativas e me levou de volta à infância. Acho que esse é o tipo de coisa que eles nunca mais vão esquecer”, disse Shirley. “O grupo foi ótimo mesmo. Não são todos assim. Alguns estudantes, principalmente aqueles criados em apartamento, sem contato com a natureza, têm dificuldade de entrosamento e participação. Acham o lugar sujo e feio. Ficam com nojo de fazer as coisas. Mas esse pessoal embarcou mesmo na história”, avaliou Dinha.

Crianças põem a mesa de café no engenho dos Andrade

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