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Archive for setembro \26\UTC 2013

Areais da Ribanceira: 200 anos de resistência da agricultura e pesca artesanal foi o tema da Feira da Mandioca este ano

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No último fim de semana ocorreu a 10ª Feira da Mandioca de Imbituba, organizada pela comunidade dos Areais da Ribanceira através da ACORDI (Associação Comunitária Rural de Imbituba). O engenho de farinha da ACORDI é um dos espaços que forma o Mapa dos Engenhos de Farinha Artesanais da Grande Florianópolis, publicação do CEPAGRO que terá sua 2a edição ampliada lançada no próximo mês. A Acordi, juntamente com os Pontos de Cultura “Engenhos de Farinha” (Cepagro), de Florianópolis e  “Engenho do Sertão” (Associação Boimamão) de Bombinhas podem ser considerados os movimentos mais representativos do estado na preservação dos espaços e saberes tradicionais os engenhos de farinha de mandioca. Estas iniciativas se complementam nos focos e regiões geográficas de atuação pela manutenção do complexo histórico-cultural que envolve a produção familiar da “farinha polvilhada” e derivados.

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A Acordi este ano comemorou a 10a edição da Feira da mandioca em grande estilo, reforçando seu foco combativo através da realização curso  “Afirmação de Direitos dos Povos e Comunidades Tradicionais: a aplicação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT)” e do lançamento do fascículo do Projeto Nova Cartografia Social, sobre os Areais da Ribanceira – seus direitos, conflitos e costumes. As atividades fazem parte do projeto “Comunidades tradicionais dos Areais da Ribanceira (SC): luta pelo reconhecimento, acesso à justiça e construção de direitos”,  que pretende promover a assessoria antropológica e jurídica para cerca de mil famílias da Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira. O curso e projeto são apoiados pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos.

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É por estas e por outras que o Engenho da Acordi é considerado dentro da REDE DOS ENGENHOS um símbolo de organização comunitária local com avançada discussão sobre o tema de apelo nacional que é o reconhecimento das populações tradicionais que tem seus modos de vida ligados à (agri) cultura da mandioca, discussão é apoiada e reconhecida localmente por pesquisadores e gestores públicos.

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Repassamos abaixo o relato dos colegas da comissão organizadora da 10a Feira da Mandioca de Imbituba, ocorrida no últimos dias 21 e 22 de setembro de 2013:

“Areais da Ribanceira: 200 anos de resistência da agricultura e pesca artesanal

A realização da um evento como a Feira Mandioca de Imbituba é sempre um grande desafio, principalmente, para uma entidade como a ACORDI, que dispõe de pouco recurso. E, se dedica, desde a sua fundação, ao reconhecimento e manutenção da comunidade de agricultores e pescadores do território tradicional dos Areais da Ribanceira. Como resultado deste trabalho, nesta edição da Feira, lançamos o Fascículo do Projeto Nova Cartografia Social, sobre os Areais. Este documento enfatiza nossos Direitos, Conflitos e Costumes.

Além disso, foi oferecido um curso, em parceria com a UFSC e apoio do PNUD e FBDH, sobre direitos dos povos e comunidades tradicionais. Promovemos a apresentação de grupos folclóricos, de teatro e outros artistas regionais. Também disponibilizamos espaço para os artesões exporem seus trabalhos. E, com o apoio da paróquia Nossa Senhora foi rezada a missa campal.

Para darmos melhor atendimento e segurança aos participantes da feira, desde o início do ano, trabalhamos na sua infraestrutura. Como também nos dedicamos a produção dos quitutes e pratos típicos da mandioca, sempre tão procurados no evento.

Com o tema, Areais da Ribanceira: 200 anos de resistência da agricultura e pesca artesanal, realizamos a 10ª Feira da Mandioca de Imbituba.

Um agradecimento especial a todos que compareceram!

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Engenhos de Farinha e Rede Ecovida no II Fórum dos Pontos de Cultura de Santa Catarina

fotos Pontão Ganesha e Sandra Alves

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Dar mais vida à “Cultura Viva” em Santa Catarina, foi a intenção primordial dos quase trinta coletivos culturais do estado que se reuniram no CIC (Centro Integrado de Cultura) na última terça e quarta-feira para o Fórum dos Ponto de Cultura de Santa Catarina.

O inovador conceito de gestão compartilhada entre estado e sociedade civil inaugurado pelo Programa Cultura Viva através da promoção do trabalho em rede foi discutido e reaceso durante este evento que foi considerado uma grande conquista após um período de desarticulação e desamparo vivido pelos pontos de cultura do estado de santa catarina no último ano.

Durante os dois dias do Fórum muitas  questões foram esclarecidas e demandas construídas coletivamente. Os textos que foram redigidos à muitas mãos e projetados no telão do cinema do CIC vão se transformar em proposições e monções para a III Conferência Nacional de Cultura, marco histórico no processo de democratização  e participação da sociedade civil nas políticas públicas para a cultura.

Nos quesitos da “economia criativa” e “economia da cultura” estas proposições reuniram em uma teia positiva, demandas de trabalho da Rede dos Engenhos Artesanais da Grande Florianópolis (Cepagro), da Rede Ecovida de Agroecologia (Cepagro) e da Rede dos Pontos de Cultura, à exemplo da proposta de criação de programas específicos pelo MinC que priorizem nas compras institucionais e licitações públicas produtos e serviços da economia solidária de referência cultural.

No evento, foram também eleitos representantes e delegados para o Fórum Nacional dos Pontos de Cultura que deverá ser realizado em Natal em 2014.

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Apresentação do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha abre mostra artístico cultural

Uma farta mesa de alimentos agroecológicos e tradicionais receitas derivadas da mandioca se tornou a apresentação artístico cultural mais inusitada da programação noturna do Fórum. Muito mais que uma mesa de café, o Ponto de Cultura Engenhos de farinha abriu a noite de terça-feira e encerrou o evento na quarta-feira com suas já conhecidas degustações políticas de alimentos.

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Comer e falar da comida: a centralidade do alimento para sociedade posta à mesa

A intervenção literalmente “pegou o público pelo estômago”. Além de colorir olhares, espalhar aromas e atiçar paladares, também foi colocado na mesa, na apresentação de cada um dos produtos servidos, suas dimensões  simbólicas, que vão desde o valor histórico-cultural dos alimentos às  lutas pela mudança na atual cadeia de produção e consumo  levantadas pela REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA e pelo CEPAGRO ao longo das últimas décadas no estado de Santa Catarina.

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Sendo assim, as pautas da Rede dos Engenhos Artesanais de Farinha da grande Florianópolis, o trabalho do Box 721 de agroecológicos na Ceasa e demais conquistas do Núcleo Litoral Catarinense da Rede Ecovida estiveram presentes na mesa posta tornando os cafés dos ponteiros ainda mais rico.

 O total da obra apresentada mescla o trabalho dos agricultores, que desde à colheita ao processamento dos produtos aplicam sua arte agrícola permeada de saberes tradicionais aos conhecimentos gastronômicos acrescentados pelos ecochefs Fabiano Gregório e Phillipe Belletini, do Convivium Mata Atlântica-Slow Food, profissionais militantes na defesa da agroecologia. Estas degustações vêm se tornando vivências de educação alimentar e consumo consciente além de pontos de encontro entre produtores,cozinheiros e consumidores.

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Cepagro e Banda da Lapa coordenam a programação cultural

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A programação cultural do encontro ficou a cargo dos Pontos de Cultura “Engenhos de Farinha” e “Educação Musical Popular “, que abriram e fecharam as apresentações. Após o primeiro café-degustação, a noite de terça-feira seguiu à altura com o boi-de-mamão contemporâneo do grupo Arreda Boi da Barra da Lagoa, que apresentou seus novos bonecos modelados das réplicas feitas em argila por Franklin Cascaes. 1239833_421862917926035_1264426809_n

O Coral GiraCoro, do Ponto de Cultura TOCA  chegou como sempre em cortejo pelo local invadindo o Hall do MIS (Museu da Imagem e do Som) com suas vozes, cores e alegrias. O grupo apresentou seu repertório que é fruto de uma competente pesquisa do universo tradicional e popular das canções que narram histórias e modos de vida da cultura brasileira.1235936_421863071259353_1703450524_n

Muito aguardada, a centenária Banda da Lapa do Ribeirão da Ilha encerrou a noite com uma comovente execução musical, que contemplou desde “dobrados” da Banda do Zé Pereira e melodias que contam a ilha à clássicos instrumentais enriquecidos com arranjos próprios pelos naipes de sopros. A mostra artística do evento deixou evidente para a FCC (Fundação Cultural Catarinense), que gestiona o programa e para o  público presente que os Pontos de Cultura da ilha merecem toda a atenção, pois além da utilidade pública prestada na formação cidadã estão entre os grupos mais atuantes e virtuosos da cidade nos resultados artísticos expressados.

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Nos últimos dias 24 e 25, as Farinhadas de Angelina e Santo Antônio de Lisboa reuniram iniciativas que promovem o alimento local agroecológico na Grande Florianópolis 

reportagem  Carú Dionísio

textos Carú Dionísio e Gabriella Pieroni

fotos  Sandra Alves

 

A engrenagem do engenho de Angelina, movida à roda d´água ressalta a peculiaridade da produção de farinha na encosta da serra

A engrenagem do engenho de Angelina, movida à roda d´água ressalta a peculiaridade da produção de farinha na encosta da serra

“Quando aprendi a andar, já estava moendo cana”. A recordação de mais de 60 anos atrás vem à tona enquanto Seo Celso Gelsleuchter cuida do ponto da torra da farinha de mandioca que está sendo feita no engenho a roda d’água de sua familia, em Angelina (SC). Entre uma conferida e outra no fogo a lenha, ele apalpa, cheira, olha e experimenta a massa que já foi prensada e cevada (ralada e afinada), e agora é torrada num tacho de cobre aquecido. O ponto da torra é um delicado cálculo em que as variáveis cheiro, cor, textura, sabor e temperatura têm que ser cuidadosamente verificadas para que a farinha nao fique “xoxa” – muito mole, devido à presenca de umidade – nem queimada, o que lhe deixa com sabor amargo.

Dona Ilma, visinha do sítio chegou cedo para ajudar na etapa de raspagem, sempre associada ao trabalho feminino

Dona Ilma, visinha do sítio chegou cedo para ajudar na etapa de raspagem, sempre associada ao trabalho feminino

Cada forneiro tem seu método de encontrar este limiar entre o torrado demais ou de menos. “Para quem tem dente, é só mastigar um pouquinho. Estralou, tá torradinha”, explica Seo Celso, que também se guia pelo aroma e vai acompanhando a mudança da temperatura da farinha. “Quando ela fica quente sem aumentar o fogo é porque a umidade já foi”, completa. A certificação final é pela alteração da cor da farinha, que ganha um tom amarelado conforme avança a torra. Este cálculo se repete inúmeras vezes durante a produção dos cerca de 120kg de farinha resultantes da colheita de 400kg de aipim feita para esta Farinhada.

Celso e sua esposa, Catarina, produzem durante todo o ano farinha de mandioca e melado de cana no engenho da propriedade, onde também cultivam peras e criam abelhas, tudo com manejo agroecológico. No último sábado 24 de agosto, porém, o engenho se abriu para cerca de 80 visitantes, que vieram participar da Farinhada de Angelina, promovida com o apoio do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha/Cepagro.“Na véspera eu até pensei que não queria mais fazer, pois não tava tudo pronto. Sempre me organizo mas não consigo deixar tudo certo. Mas achei que as pessoas gostaram, então valeu a pena”, conta D. Catarina, enquanto ensaca e pesa a farinha recém-saída do forno. Há  três anos o “Sítio Recanto da Amizade” vem recebendo eventos como este. Em  2011 sediou a edição catarinense do Dia da Terra Madre, onde comunidades de 148 países comemoram simultâneamente o alimento bom,limpo e justo, motivados por uma campanha do movimento Slow Food. “São oportunidades para celebrar e lembrar a importância da agricultura familiar, das matérias primas locais e dos saberes e sabores tradicionais ligados ao patrimônio agroalimentar, conforme explicou a coordenadora do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha Gabriella Pieroni.

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A paixão pelo convívio com as pessoas e a articulação com a Rede Ecovida e o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha são as principais motivações de D. Catarina para continuar organizando eventos, visitas de grupos escolares e oficinas no sítio. “Desde a hora em que falo ‘vou fazer’ eu já começo a organizar, mesmo que nao saiba a data”, revela. Para ela, o estímulo ao turismo rural é uma alternativa interessante para Angelina, município em que a agricultura convencional e a fumicultura ainda constituem a principal fonte de renda das dezenas de localidades rurais como Coqueiros, onde ela vive.

Catarina Gelsleuchter, professora aposentada, mãe, agricultora e articuladora da REDE DOS ENGENHOS já foi até apara a Itália em evento de agroecologia

Catarina Gelsleuchter, professora aposentada, mãe, agricultora e articuladora da REDE DOS ENGENHOS já foi até apara a Itália em evento de agroecologia

Referência em Agroecologia

A propriedade de 25 hectares recebeu pela 2ª. vez o certificado de conformidade orgânica da Rede Ecovida no começo deste ano. O trabalho cotidiano do casal fez com que o Recanto da Amizade se tornasse uma referência em manejo agroecológico na região, fato ressaltado pelo prefeito de Angelina, que esteve presente ao evento. “Precisamos trabalhar para levar este exemplo para outras propiedades”, disse.  Cumprindo um de seus objetivos, a Farinhada constituiu, portanto, uma oportunidade para que outras famílias pudessem conhecer mais sobre o cultivo orgânico de alimentos.

O engenho da família recebe além de eventos, visitantes e educandos

O engenho da família recebe além de eventos, visitantes e educandos

Uma delas é a do professor de matemática Valdir Barbaresco, que acabou de se mudar com a esposa e o filho para Angelina. Eles viviam em Rondonópolis (MT), onde sao comuns as pulverizações de agrotóxicos com aviões sobre enormes áreas cultivadas com soja e algodão. O diagnóstico de dois tumores malignos na tireóide – problema que segundo Valdir é comum na região – seguido da perda de movimentos e estatura do professor fez com que ele optasse, há quatro anos, por uma mudança radical na alimentação: a família buscaria consumir somente alimentos orgânicos. Se possível, cultivados por eles mesmos, por isso compraram um sítio na localidade de Alto Mato Grosso, em Angelina. Para complementar a ainda pequena produção própria, eles também continuaram procurando feiras e mercados de alimentos orgânicos. Foi assim que encontraram a Feira de Orgânicos da Lagoa da Conceicão, em Florianópolis. Através do coordenador da feira, Glaico José Sell, agricultor da REDE ECOVIDA eles conheceram a extensionista social e nutricionista Ramona Muhlbach (Epagri – Angelina), que os levou até o evento no sítio dos Gelsleuchter. “A gente achou que estava sozinho, que todo mundo aquí plantava com veneno”, conta Valdir.

Chefs d Slow Food interagem com os produtos locais e agroecológicos do BOX 721 (REDE ECOVIDA)

Chefs d Slow Food interagem com os produtos locais e agroecológicos do BOX 721 (REDE ECOVIDA)

Os irmãos Nelson e Benjamin Hames, da localidade de Rio Fortuna (Angelina) também vieram participar da Farinhada buscando mais informacões sobre agroecologia. Enquanto Benjamin ainda depende da fumicultura para sobreviver (ainda que tenha muita vontade de abandoná-la), Nelson já conseguiu fazer a transição para o cultivo de alimentos. Sua principal cultura é a mandioquinha, ainda produzida de forma convencional, mas em que ele tem diminuido em dois terços o uso de agrotóxicos fazendo o plantio direto na palha, que diminui a incidência de pragas e consequentemente a necessidade de defensivos. O agricultor também fornece verduras para a merenda escolar do município, essas sim 100% ecológicas.

Fernando Scheibe trouxe a família desde Florianópolis para a Farinhada de Angelina e não perdeu a chance de os produtos do sítio: mel,melado , açucar,cachaça de mel e muita farinha polvilhada

Fernando Scheibe trouxe a família desde Florianópolis para a Farinhada de Angelina e não perdeu a chance de  levar os produtos do sítio: mel,melado , açucar, cachaça de mel e muita farinha polvilhada

Além das rodas de conversa em que expressaram sua vontade, junto com outros agricultores, de adotar práticas agroecológicas em suas propiedades, os irmãos também mostraram sua preocupação com o meio ambiente de uma forma muito especial: cantando e tocando. Junto com o pai, Manoel Hames – que, aos 86 anos, deu uma aula de performance com violão em punho durante três horas a fio – os irmãos entoaram composições próprias falando do cuidado com a natureza, das saudades da roça e das belezas do município. Também relembraram antigas modas de viola, resgatando um patrimônio musical durante esta celebração dos saberes tradicionais agroalimentares.

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Os agricultores e tocadores da Família Hames alegrando a festa

Slow (e free-style) Food

Foi inventando pratos com pirarucus, tucunarés, jacarés e tartarugas em cozinhas improvisadas na beira dos rios do Tocantins que o chef Luiz Carlos Pinheiro comecou a incorporar, ainda crianca, o que hoje ele chamada de free-style: elaborar pratos com os ingredientes disponiveis, na quantidade acessível, sem precisar adequar-se a um cardápio pre-estabelecido. No almoço que ele e Philipe Bellettini – outro chef do Convivium Mata Atlântica ligado ao movimento Slow Food – serviram na Farinhada não foi diferente. As receitas foram criadas ali mesmo, no momento em que todos os ingredientes foram reunidos. “Buscamos ver o que os produtores tinham, trazer produtos sazonais. Cada um foi trazendo um pouco”, explica Luiz, que afirma que só tiveram que comprar arroz e alho. Legumes e verduras vieram do Box de Orgânicos da Ceasa, do sítio dos Gelsleuchter e de outras propiedades dos vizinhos, D. Catarina entrou com algumas galinhas do seu sítio enquanto outros casais da comunidade assaram deliciosos pães e bolos de aipim, batata-doce, cuscus, roscas de polvilho e cucas. A interação “freeslyte” entre os chefs de cozinha “Mata Atlântica” e os produtos locais de angelina, vindos diretamente da terra e das mãos da comunidade para a mesa com toques gastronômicos que valorizam os alimentos já é uma prática amadurecida nas atividades do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, já tendo estes chefs representado a farinha polvilhada e derivados da mandioca em eventos da revista de gastronomia de São Paulo, em programas de tv e encontros internacionais do Slow Food.

Chefs do Convivium Mata Atlãntica + naturólogas do Quinta das Plantas receita de sucesso

Chefs do Convivium Mata Atlãntica + naturólogas da Quinta das Plantas, receita de sucesso  

Para acompanhar os pratos, as farmacêuticas e naturólogas Viviane Corazza e Denise Rodrigues prepararam sucos exóticos misturando frutas e verduras com ervas aromáticas. As duas fazem parte da Quinta das Plantas www.quintadasplantas.blogspot.com , grupo de estudo que realiza palestras e capacitações sobre plantas medicinais em Santa Catarina. Alem das bebidas, elas tambem contribuiram para o cardápio trazendo a ora-pro-nobis, folha com altos índices de proteína, por isso apelidada de “carne vegetal” e apresentando amostras de plantas para a comunidade presente.

Comunidade unida degusta o almoço com as matérias primas locais e da época

Comunidade unida para degustar seus próprios produtos com toques gastronômicos

A arte do forneiro premiada

Enquanto D. Catarina recepcionava os visitantes, negociava produtos, agilizava questões logísticas, dava entrevistas e posava para fotos, Seo Celso quase nao saia de perto do forno da farinha. Mesmo não circulando tanto entre os convivas, como forneiro, ele esteve presente em todo o evento, pois, como afirma Gabriella, “em suas mãos, pés, nariz e olhos estão nossa farinha de mandioca de cada dia”. A centralidade da figura do forneiro no processamento da mandioca foi celebrada em mais uma Farinhada do circuito deste Ponto de cultura no fim de semana, desta vez em Florianópolis, no Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa.

O forneiro mais jovem e o mais experiente dividindo o forno

O forneiro mais jovem e o mais experiente (94 anos)  dividindo o mesmo forno

O domingo 25 de agosto foi o ponto alto do evento, pois foi quando aconteceu o concurso de forneiros. Quatro duplas de produtores e “engenheiros” locais (do presente e do passado) disputaram o título da melhor farinha de mandioca artesanal.  Este foi o terceiro concurso promovido durante a Divina Farinhada, evento que reúne duas tradições do bairro de Santo Antônio: o feitio artesanal da farinha e a Festa do Divino.  “É uma forma de fortalecer a tradição e levar adiante os valores da comunidade”, diz o anfitrião Cláudio Andrade, proprietário do Engenho.

Neste ano, em sua 16ª edição, a Farinhada teve uma especificidade: toda a mandioca processada ali (cerca de 1000kg) foi produzida localmente. A participação do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha e do Cepagro também é lembrada por Cláudio como um fator importante na realização do evento, que, segundo ele, não poderia acontecer sem a mobilização comunitária. “Uma ferramenta fundamental é a colaboração dos amigos do Engenho, só com a nossa família não tem como fazer”, completa.

Os jurados do concurso – os chefs Philipe Bellettini e Luiz Carlos Pinheiro, além dos participantes da festa – tinham que avaliar o aroma, o sabor e a textura da farinha. “Caso elas estejam com qualidades parecidas, o tempo de preparo é o critério de desempate”, explica Cláudio. Para atingir a excelência, as duplas se dividiam: um dos integrantes cuidava só do tacho enquanto o outro vigiava e alimentava o fogo.

Equipe de forneiros que concorreram ao concurso

Equipe de forneiros que concorreram ao concurso

Muitos fatores influenciam na qualidade da farinha, da umidade da lenha à disposição do boi que move as engrenagens do engenho. “Se o boi é malandro a farinha fica mais grossa. Quanto mais bate, mais fina ela fica”, conta Hercilio Marciano, que aos 94 anos concorria junto com seu filho Célio no Concurso. Ex -proprietário de um engenho na Barra do Sambaqui que esteve em atividade até o começo da década de 80, seu Hercílio lembra que eles produziam “farinha de terço”: os vizinhos que plantavam mandioca entravam com a matéria prima e a família Marciano a processava, ficando com 1/3 dos produtos como pagamento. “A gente chegava a consumir 30 sacos de 45kg de farinha por ano. Eram onze bocas para comer”, recorda o pai de 8 filhos. O filho Célio acrescenta que somente uma pequena parte da produção era vendida, pois “todo mundo tinha engenho”. Ele afirma que até a década de 60 havia 19 engenhos em atividade na Barra do Sambaqui.

Também proprietário de engenho, Beto Andrade, um dos irmãos de Cláudio, foi outro concorrente ao título de melhor forneiro. “A farinha levanta três cheiros, no 3º tá pronto. Mastigo só para confirmar”, explica o produtor, que forneceu a mandioca usada no evento, plantada em sociedade com outros 7 amigos. O engenho de Beto continua ativo: ali são realizadas cerca de 15 farinhadas por ano. A produção, segundo ele, é para consumo das familias dos integrantes da sociedade.

José Antônio Furtado, do engenho da Garopapa (REDE DOS ENGENHOS/REDE ECOVIDA/Cepagro) provando a farinha

José Antônio Furtado, do engenho da Garopapa (REDE DOS ENGENHOS/REDE ECOVIDA/Cepagro) provando a farinha

À técnica de Beto – combinar o aroma e a textura para verificar o ponto da farinha – o mecânico Edemilso Damasceno, da 3ª dupla participante do concurso, acrescenta tambem o som que o produto faz conforme vai ficando mais torrado. “Quando tá quase pronta faz um barulhinho diferente na pá”, afirma o forneiro, que continua fazendo farinha durante o ano num engenho em Santo Antonio de Lisboa.

A última dupla a fornear foi também a vencedora. Com a habilidade e experiência de quem aos 77 anos ainda produz farinha no seu engenho na Barra do Sambaqui, Mário dos Santos, junto com  Temóteo Ferreira Filho, pescador do Sambaqui, conquistaram o olfato e o paladar dos jurados. “O segredo é ir colocando a massa de pouco a pouco, para não empelotar”, revela o forneiro campeão do concurso.

Degustação política do alimento

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Equipe do Cepagro apresenta os produtos, procedências e redes as quais representam

No intervalo entre uma fornada e outra, a equipe do Cepagro entrou mais uma vez em ação na sensibilização do público presente sobre  o tema da alimentação saudável e segurança alimentar, a partir de exemplos locais. No pátio do engenho, as pessoas e principalmente as crianças que passavam podiam experimentar vivências de educação do gosto, metodologia desenvolvida pela equipe onde os olhos são vendados para a degustação de sabores, reforçando a importância do paladar para a saúde e bem-estar em contraponto com a perda destas sensibilidades provocada pelo consumo excessivo de alimentos industriais.

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Público da Divina Farinhada se informa e dialoga sobre alimentação saudável e consumo consciente antes da degustação do café da REDE DOS ENGENHOS/BOX 721

O ápice da intervenção da equipe foi o diálogo/degustação sobre a importância sócio-ambiental, cultural e nutricional de se consumir produtos agroecológicos e principalmente os derivados da mandioca, ilustrado por uma farta mesa de alimentos do BOX 721, o único de produtos orgânicos na Ceasa. A narrativa da conquista deste espaço, que ocorreu este ano e outros avanços da Rede Ecovida e Rede dos engenhos Artesanais da Grande Florianópolis foram ressaltadas como exemplos vivos de uma mudança histórica na produção e consumo de alimentos. Segundo a equipe, este panorama coloca o tema dos engenhos artesanais de farinha, entre outros alimentos e saberes tradicionais no centro de ações pelo desenvolvimento local sustentável e não apenas como uma tradição distante das demandas da sociedade.  A degustação dos alimentos completou de forma agradável a performance do grupo e agradou o público da Divina Farinhada, que pela primeira vez participou da ação.

vencedores do concurso de forneiros da Divina Farinhada/Ponto de Cultura

 

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