Feeds:
Posts
Comentários

Archive for outubro \31\UTC 2013

texto Ana Carolina Dionísio
fotos Fernando Angeoletto, Gisa Garcia e Gabriella Pieroni 

 

Compreendido por muito tempo como uma opção recreativa descompromissada para as camadas populares, o turismo social vem se consolidando como uma nova forma de viajar e de ter lazer, voltada mais para vivências baseadas na troca cultural entre visitantes e visitados do que para o simples consumo de paisagens, produtos e serviços. Buscando aprofundar a discussão sobre alternativas para transcender práticas turísticas convencionais e valorizar o aspecto inclusivo e humanista desta atividade, o SESC Florianópolis promoveu nos dias 28 e 29 de outubro a Jornada de Turismo Social, na unidade do Cacupé. O Cepagro e o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha estiveram presentes no evento, expondo produtos agroecológicos do Box 721 do Ceasa e dos engenhos, artesanato do Grupo Nosso Espaço – que reúne mulheres da zona rural de Angelina –, e o composto produzido na Revolução dos Baldinhos.

A técnica do Ponto de Cultura Flora Castellano e o casal Rose e José Furtado, proprietários de um sítio agroecológico em Garopaba, de onde trouxeram alguns produtos para integrar o stand do Cepagro na Jornada de Turismo Social do SESC

A técnica do Ponto de Cultura Flora Castellano e o casal Rose e José Furtado, proprietários de um sítio agroecológico em Garopaba, de onde trouxeram produtos para integrar o stand do Cepagro na Jornada de Turismo Social do SESC

 

Vários dos alimentos que estavam sendo comercializados – como  frutas, geleias e sucos orgânicos, beiju, bijajica e pão integral – puderam ser degustados no café preparado pelos slow-chefs Fabiano Gregório e Philipe Bellettini, em mais uma parceria do Slow Food com o Ponto de Cultura. Alguns dos produtores destas iguarias estavam presentes, como o casal José e Rose Furtado, que mantêm um engenho de farinha e plantam hortaliças e morango numa propriedade certificada pela Rede Ecovida em Garopaba. Este contato direto entre consumidor e agricultor é valorizado tanto entre os pressupostos da agroecologia quanto nas práticas inovadoras do turismo social.

 

Os chefs Fabiano Gregório e Philipe Bellettini apresentam, junto com o produtor José Furtado, os alimentos que compõem o café agroecológico servido durante a Jornada

Os chefs Fabiano Gregório e Philipe Bellettini apresentam, junto com o produtor José Furtado, os alimentos que compõem o café agroecológico servido durante a Jornada

No café agroecológico não faltaram frutas, geleias e sucos orgânicos, pão integral caseiro, beijú e bijajica dos engenhos locais e salame e queijo coloniais.

No café agroecológico não faltaram frutas, geleias e sucos orgânicos do Box 721, pão integral caseiro, beijú e bijajica dos engenhos locais e salame e queijo coloniais.

 

Uma das iniciativas mais frutíferas neste sentido é a Acolhida na Colônia, associação de agroturismo sediada em Santa Rosa de Lima, nas encostas da Serra Geral catarinense. Fundada em 1999, a Acolhida reúne 180 famílias de agricultores que recebem turistas em propriedades espalhadas por 30 municípios do estado. “Além da melhoria da renda, a valorização do agricultor familiar e o resgate do patrimônio cultural estão entre os benefícios do agroturismo na região”, explica Daniele Gelbcke, uma das representantes da associação no evento. “Eu me encontrei na vida trabalhando com turismo . Eu cresci tendo vergonha de falar que era agricultora, mas isso já não acontece com meu filho, por exemplo”, conta a produtora-acolhedora Leonilda Baumann, de Santa Rosa de Lima. Na sua fala durante a Jornada, Dida, como é conhecida, deixou claro que, apesar do sucesso do empreendimento hospitaleiro no seu sítio, ela não abandonou a atividade agrícola e continua plantando hortaliças, frutas, milho, feijão e batatinha, tanto para consumo próprio quanto dos turistas.

 

Junto com a melhoria na renda, a valorização do agricultor e da cultura rural são alguns dos frutos do trabalho da Acolhida na Colônia

Daniele Gelbcke: junto com a melhoria na renda, a valorização do agricultor e da cultura rural são alguns dos frutos do trabalho da Acolhida na Colônia

 

“Na agroecologia percebemos a diversificação produtiva como a opção mais viável para os agricultores familiares. Por isso entendemos o turismo como mais uma alternativa, mas não a única, de geração de renda para os proprietários de engenhos”, afirma a coordenadora do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha Gabriella Pieroni. As visitas a engenhos artesanais de farinha representam opções promissoras de circuitos turísticos na perspectiva da atividade como uma oportunidade para compartilhar experiências ligadas a cultura, gastronomia e tradições locais – tendência ressaltada durante a palestra da gerente de projetos socioeducativos do SESC-SP Flávia Costa -, e por isso o PdC Engenhos de Farinha vem firmando uma parceria com a Tekoá, operadora de turismo sustentável e de base comunitária de Florianópolis. A gerente Fernanda Carasilo já incluiu vivências em engenhos da Grande Florianópolis em alguns de seus roteiros de ecoturismo e city-tours, que também estavam sendo expostos no SESC. “Agências que trabalham com grupos escolares vieram perguntar sobre os programas, além de muitos guias e condutores ambientais”, diz Fernanda.

 

Fernanda Carasilo, da Tekóa Turismo Sustentável, apresentando os roteiros que incluem visitas a engenhos artesanais de farinha

Fernanda Carasilo, da Tekóa Turismo Sustentável, apresentando os roteiros que incluem visitas a engenhos artesanais de farinha

 

“O potencial dos engenhos é enorme”, afirma Daniele Gelbcke, ressaltando que a organização e articulação entre proprietários é fundamental para que as iniciativas tenham resultados. “As parcerias para turismo pedagógico também são importantes”, completa. Em alguns engenhos da rede dos Pontos de Cultura, a promoção de atividades educativas já é freqüente. No Engenho do Sertão, em Bombinhas, são realizadas oficinas de arte-educação envolvendo aspectos da cultura popular local e percepção ambiental para estudantes de 14 a 18 anos e aulas de antropologia para pós-graduandos em Saúde e Turismo da Univali. No Casarão e Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, já foram ministradas oficinas de vídeo e de percepção sensorial de alimentos com alunos da rede pública de educação de Florianópolis. A escola também já foi ao engenho da família Gelsleuchter, em Angelina.

 

A assessora em economia solidária Miriam Abe Alexandre deu explicações sobre o artesanato com fibras naturais produzido pelo grupo Nosso Espaço, de Angelina

A assessora em economia solidária Miriam Abe Alexandre deu explicações sobre o artesanato com fibras naturais produzido pelo grupo Nosso Espaço, de Angelina

 

A formação para valorização do patrimônio histórico e cultural permeia todas estas atividades, que também vêm abordando aspectos de educação alimentar, como nas oficinas realizadas em conjunto com técnicos do Programa Educando com a Horta Escolar e Gastronomia. O desenvolvimento destas metodologias ocorrem no âmbito de um esforço para realizar um inventariamento sobre os engenhos artesanais de farinha visando à salvaguarda  dos seus saberes e modos de fazer como patrimônio imaterial junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). No contexto atual de restrições sanitárias e ambientais à produção artesanal de farinha, o registro no IPHAN simboliza um caminho para a sobrevivência desta (agri)cultura. “A salvaguarda, no entanto, deve estar combinada com estratégias de desenvolvimento sustentável para que estes produtores também possam gerar renda a partir da preservação deste patrimônio agroalimentar. Neste sentido, o turismo de base comunitária é uma ferramenta importante”, avalia Gabriella Pieroni.

Anúncios

Read Full Post »

Realizado entre os dias 10 e 12 de outubro, o Encontro reuniu 350 crianças de assentamentos da Reforma Agrária em Santa Catarina na UFSC. Na programação, além de atividades culturais e de intercâmbio com projetos sociais urbanos, os meninos e meninas participaram de 24 oficinas com temas ligados a arte, agroecologia e educação na 5ª feira (10/10). Nesta parte do evento o chef do Ponto de Cultura/ Slow Food Fabiano Gregório e os técnicos do Cepagro Gisa Garcia e Alexandre Cordeiro contribuíram abordando a percepção sensorial dos alimentos e práticas de agricultura urbana.

IMG_1825

Quinze crianças de assentamentos de Curitibanos, Campos Novos e Ponte Alta testaram suas aptidões sensoriais durante a Oficina do Sabor. A atividade, que já se tornou uma rotina durante os eventos do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, busca estimular os cinco sentidos dos participantes através do contato com diferentes alimentos. De olhos vendados – e por isso com os sentidos mais aguçados -, as crianças degustaram suco de uva, beiju e balas de banana, tatearam frutas e sentiram o cheiro de café.

O objetivo da prática era que elas adivinhassem quais eram os alimentos presentes ali, e a maioria dos meninos e meninas descobriram quase tudo o que estavam provando. A exceção foi o beiju, que várias crianças disseram não conhecer ou não gostar. “Eu também não gostei muito da bala de banana”, disse Ana Paula dos Santos, de 13 anos. Moradora do assentamento Neri Fabres, em Curitibanos, ela iria conhecer outra novidade durante o Encontro: o mar, já que na programação também estava prevista uma confraternização na Praia do Forte. Junto com o irmão Gustavo, de 8 anos, ela estava visitando a costa pela primeira vez. “Tem gente que diz que às vezes o mar fica branco, outras está mais azul. Quero ver como que é”, contou.

IMG_1823

Enquanto cada participante da Oficina do Sabor conversava individualmente com Fabiano, os outros companheiros desenhavam e contavam histórias sobre os alimentos que são comuns nos seus assentamentos, junto com as monitoras Marivane dos Santos, Suzimara Garcia e Neusete de Arruda. Após a atividade, as crianças saborearam um pic-nic agroecológico com alguns dos alimentos que foram degustados, além de pão integral e geleia orgânica. Esta foi uma oportunidade para verificar qual a percepção que eles tinham do que é alimento orgânico. A resposta unânime foi: “Aquele que não tem veneno!”.

IMG_1829

Na oficina de Agricultura Urbana, ministrada pelos agrônomos Gisa Garcia e Alexandre Cordeiro, da equipe técnica do Cepagro, junto com duas agrônomas do Laboratório de Educação do Campo e Estudos da Reforma Agrária (Lecera-UFSC), os integrantes construíram uma horta suspensa usando garrafas PET, onde plantaram hortaliças e temperos. Os técnicos abordaram todo o passo a passo de construção da horta de forma lúdica, mesclando jogos de adivinhação dos nomes das mudas, por exemplo. Nesta atividade as crianças também acertaram a maioria das respostas. “A única planta que elas não conheciam era o manjericão”, disse Gisa Garcia.

A horta foi instalada nas grades da janela da diretora do Restaurante Universitário, que se comprometeu a cuidar dela. A ideia da atividade, de acordo com Gisa, era mostrar que é possível cultivar alimentos mesmo quando há restrição de espaço (como é o caso das áreas urbanas), além de avaliar a compreensão deles acerca das vantagens de plantar alimentos na cidade.

 Encontro reuniu na UFSC 350 crianças de assentamentos do MST em Santa Catarina. Foto: Wagner Behr (Agecom / UFSC)

Encontro reuniu na UFSC 350 crianças de assentamentos do MST em Santa Catarina. Foto: Wagner Behr (Agecom / UFSC)

Ao conjugar o lúdico com o educativo, as oficinas atendem a dois objetivos que estão sempre presentes nos Encontros dos Sem-Terrinha. “Sempre juntamos estudo, diversão, luta e intercâmbio com as crianças do urbano”, explica Revero Ribeiro, da comissão organizadora do evento. Nos dois últimos tópicos, as crianças construíram uma pauta de reivindicações para o governador Raimundo Colombo a partir de uma discussão realizada na manhã de 5ª feira sobre as condições das escolas e de qualidade de vida nos assentamentos da Reforma Agrária. O debate foi sistematizado em um documento entregue para o governador na 6ª (11/10). Neste dia eles também visitaram o Instituto Vilson Groh, para conhecer as crianças que participam de projetos sócio-educacionais em bairros desfavorecidos de Florianópolis, como o Morro do Mocotó e o Monte Serrat.

Read Full Post »