Feeds:
Posts
Comentários

Archive for abril \09\UTC 2014

No Museu Comunitário Engenho do Sertão, em Bombinhas, atividades de educação patrimonial e alimentar buscam a preservação dos saberes e sabores relacionados a práticas tradicionais como o feitio do farinha de mandioca e a pesca artesanal da tainha. Além de participar da Rede Catarina Slow Food, a equipe da ONG que gestiona o espaço, o Instituto BoiMamão, também está contribuindo para a proposta de salvaguarda do modo de fazer a farinha polvilhada como Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina.

AgroalimentarBombinhas-57

O volumoso álbum encapado com retalhos de chita florida está recheado de fotos, recortes de jornal e folhetos. Tudo cuidadosamente organizado, com legendas escritas à mão. Enquanto mostra seu “Livro da Vida”, a gestora cultural Rosane Luchtemberg descreve modestamente a jornada de quinze anos para reunir aquele material: “Foi um trabalho de rua. Sou uma catadora de memórias”. Desde 1999, quando iniciou o primeiro mapeamento dos engenhos na região de Bombinhas (SC), a “Rô do Engenho” dedica seu trabalho à preservação da memória e à revalorização destes espaços, outrora tão significativos para a economia e organização social locais.

Não é à toa que a sede da ONG fundada por Rosane em 1998, o Instituto BoiMamão, é dentro de um engenho, onde hoje funciona o Museu Comunitário Engenho do Sertão. Entre fusos e coxos talhados em madeira artesanalmente, artefatos para armazenar farinha e outros móveis antigos, o espaço é muito mais do que  uma exposição de acervo físico. Partindo do princípio de que “Patrimônio não é somente o que podemos tocar; mas sim o que nos toca”, ali são promovidas oficinas de educação patrimonial e alimentar com crianças e adolescentes, além de atividades com estudantes de pós-graduação. “O engenho é um espaço de educação, mediação e degustação”, afirma a educadora e produtora cultural Aline Vieira, também responsável pelo Pontinho de Cultura Alecrim, que desde 2009 trabalha estas metodologias com crianças da comunidade focando no complexo agroalimentar dos engenhos e da pesca artesanal.

Tornando as atividades educativas e de mediação entre o passado e o presente mais saborosas, as degustações de produtos de engenho são parte do cotidiano do Museu. Os alunos da pós-graduação em Turismo da Univali são convivas freqüentes. No segundo seminário Patrimônio Agroalimentar em Debate, promovido ali pelo PdC Engenhos de Farinha em maio de 2013, não faltou beiju, cuscus, rosca de massa e o bolo “nego deitado” na mesa. E na primeira 5ª feira de cada mês é realizada a “Tarde do Beijú, Contos e Cantigas”, iniciativa da Fundação Cultural de Bombinhas para promover o encontro da comunidade e trocar histórias enquanto fazem e saboreiam alimentos típicos dos engenhos. “Vêm principalmente senhoras da comunidade que voltam a se encontrar para comer beiju e cuscus”, conta Aline.

A preservação dos saberes, histórias e práticas ligados aos alimentos vai além do espaço do Engenho do Sertão. Em Bombinhas, a farinhada (enquanto processo de produção artesanal da farinha de mandioca) foi tombada como Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da cidade, assim como a pesca artesanal da tainha. Já a consertada, delicioso licor de café com cachaça e especiarias muito usado nos folguedos de boi de mamão, recebeu no ano passado a chancela de “bebida típica de Bombinhas”. A candidatura da consertada à Arca do Gosto, catálogo do Slow Food de produtos típicos em risco de extinção, também está sendo considerada.

A equipe do Engenho do Sertão teve participação ativa nestes processos de tombamento e continua atuando na promoção destes patrimônios. Paralelamente ao Museu e ao Pontinho de Cultura, por exemplo, Aline trabalha na produtora audiovisual Tramela, cuja última produção, Antes do Inverno, abriu o Festival Internacional de Cinema de Balneário Camboriú no dia 6 de abril. Segundo Aline, um dos objetivos do documentário, que mostra a pesca artesanal da tainha em Bombinhas, foi causar uma identificação da população local com esta prática e os saberes e sabores relacionados a ela. “A parte que mais emocionou a comunidade foi a do pirão d’água com peixe frito”, conta Aline, que também faz parte do grupo cênico-musical Cantadores de Engenho, que leva aos palcos uma releitura das práticas culturais destes espaços.

A mestra de engenho  Rosa Melo (direita) é uma das protagonistas do documentário "Antes do Inverno", produzido por Aline Vieira (esquerda).

A mestra de engenho Rosa Melo (direita) é uma das protagonistas do documentário “Antes do Inverno”, produzido por Aline Vieira (esquerda).

Outra contribuição de Aline e Rosane para a preservação das práticas tradicionais dos engenhos é na salvaguarda do modo de fazer a farinha polvilhada como Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina. A proposta, que está sendo elaborada pela equipe do PdC Engenhos de Farinha, contém um dossiê com fotos, vídeos, matérias e artigos de jornais e revistas e bibliografia para o qual o acervo do “Livro da Vida” do Engenho do Sertão, cedido por Rosane, constitui um aporte valioso. O pedido será feito oficialmente à Fundação Catarinense de Cultura em maio, juntamente com o lançamento do vídeo e do livro de sistematização de metodologias do PdC.

Anúncios

Read Full Post »