Feeds:
Posts
Comentários

Archive for maio \23\UTC 2018

A presidente da Fundação de Cultura de Bombinhas Nívea Maria da Silva Bücker tinha acabado de colocar algumas bananas na chapa quente do fogão a lenha quando dona Rosa Dias, 77 anos, chegou ao Engenho do Miminho, no bairro José Amândio. Todo mundo parou para cumprimentá-la, abraçá-la, escutá-la. Dona de um dos engenhos mais antigos e ativos do município, ela era a convidada de honra para a oficina de Inventários Participativos que o Ponto de Cultura facilitou durante a 16ª Semana dos Museus de Bombinhas, na última quinta, 17 de maio. Mesmo com dor nas costas por ter ficado colhendo café no dia anterior e com pouco tempo para participar – tinha uma sessão de fisioterapia agendada ainda naquela tarde – veio compartilhar histórias e causos do tempo em que o “povo não tinha medo de plantar nem de fazer bastante farinha”, dos carros de boi, das redes cheias em pescarias fartas.

O objetivo da oficina era reunir mestres e mestras de engenho para fazer um levantamento dos bens culturais – saberes, lugares, ofícios, celebrações – relacionados aos engenhos para iniciar o processo de inventariamento necessário para pedir o registro dos engenhos como patrimônio cultural imaterial junto ao IPHAN, objetivo do projeto PdC 2.0, que conta com apoio da Secretaria de Estado de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer (SOL). Além disso, realizar um mapeamento desses engenhos, visando à construção de um mapa cultural financiado pelo edital Elisabete Anderle de apoio à cultura. Chegando ao Engenho do Miminho, a surpresa foi encontrar uma turma de estudantes do ensino médio profissionalizante em Hospedagem da Escola Estadual Maria Rita Flor, que assistiam à palestra sobre Patrimônio Cultural Imaterial e Economia Civil ministrada pelo professor Jorge Braun Neto (UDESC). Após a palestra, na troca com a turma, a coordenadora do Ponto de Cultura Gabriella Pieroni logo estabeleceu uma parceria com os estudantes, para que eles também colaborem na coleta de informações e documentação sobre os engenhos na região, tornando ainda mais participativo o processo do inventário.

Na parte da tarde, a equipe do PdC fez uma dinâmica para trabalhar as categorias de patrimônio imaterial do IPHAN, como lugares, saberes, celebrações, com a equipe da Fundação de Cultura de Bombinhas. Com a chegada de dona Rosa, junto com  Rosane Luchtemberg, guardiã do Engenho do Sertão, começou o mapeamento dos engenhos de farinha da península de Bombinhas. Pesquisadoras da cultura de engenho de longa data, Rosane e Márcia Cristina Ferreira, assessora de comunicação da Fundação, já haviam listado 12 engenhos, sendo 6 deles ainda em atividade e outros 6 como espaços culturais, de memória ou desmontados. Unindo informações das pesquisas da equipe da Fundação com a memória invejável de Dona Rosa, foram listados pelo menos outros 20 engenhos em Bombas, Bombinhas, Zimbros, Mariscal, Canto Grande e Sertãozinho. “Lá pra banda do Joca, tinha bem uns 15 engenhos, ali no Zimbrinho”, arrematava dona Rosa, intercalando versos de poesias com o inventariamento. Junto com a economia da farinha de mandioca, a pesca também sustentava as famílias de Bombinhas. “Em 1949 deu muita tainha, o pai falava que não sabia se arrancava mandioca ou esperava tainha. Foi uma farinhada muito gostosa, porque sempre tinha o peixe. Minha mãe escalou bastante peixe ali, porque não tinha como congelar. Se não tinha da praia, tinha o costão. Naquele tempo dava muito peixe, agora cabou-se. Nossa praia cabou-se. Aquele peixinho de rede de arrasto acabou tudo. Dava uma dó”, recordava a mestra engenheira.

Além dos fatores comumente atribuídos ao declínio dos engenhos de farinha, como o endurecimento das restrições sanitárias à produção artesanal, Nívea Maria Bücker, presidente da Fundação de Cultura, fala sobre uma “crise de identidade” da população de agricultores-pescadores do município que chegou junto com o aumento do turismo e especulação imobiliária a partir dos anos 1980-1990. “Isso levou o pessoal a vender terrenos, inclusive na beira da praia. Achavam que ser pescador, ser agricultor era feio. O do outro era melhor, então quero ser igual ao outro. De uns anos pra cá, há um processo contrário. Pessoas mais jovens que estão vendo que sua identidade tradicional é importante, entram no engenho e isso remete à infância, à família, estão querendo comprar engenhos. A partir do momento que alguém diz pra eles que isso é importante, passa a ter mudança. Turismo também pode ser chave pra família ver importância de manter aquele patrimônio”, afirma.

Na perspectiva de valorização do patrimônio cultural dos engenhos de farinha, a Fundação de Cultura de Bombinhas já tomou passos importantes. Um deles é a própria restauração do Engenho do Miminho, remontado nos altos do bairro José Amândio respeitando suas características originais. Inaugurado no final de 2017 como engenho comunitário, vem abrigando atividades culturais e envolvendo a comunidade nas memórias do município. Bombinhas também tem políticas públicas de reconhecimento de mestres e mestras de saberes tradicionais, incluindo os de engenho. Além disso, têm um programa de compra de mandioca de outros municípios para fornecer matéria-prima para as farinhadas.

Isso porque, além da atividade dos engenhos, também caiu a quantidade de áreas para cultivo de mandioca nos municípios. Seja pela divisão entre as famílias, pela especulação imobiliária ou pela legislação ambiental que proíbe a abertura de roças nos morros – antes as melhores terras para agricultura, hoje Áreas de Preservação Ambiental – o caráter rural de Bombinhas foi sendo apagado dos mapas do município, inclusive do Plano Diretor. Assim como no caso de Imbituba, o Plano Diretor de Bombinhas não tem áreas rurais. Nas conversas durante a oficina e na rodada de campo feita pela equipe do PdC, contudo, percebe-se que o cultivo de mandioca continua vivo no município.

As oficinas de Inventário Participativo continuam ao longo de 2018, sendo realizadas também em Florianópolis, Imbituba e Garopaba. Com o levantamento de material no processo de inventariamento, o objetivo é pedir o registro dos engenhos de farinha de Santa Catarina como patrimônio cultural do Brasil. Uma das estratégias de mobilização das comunidades é a campanha #engenhoépatrimônio, que busca estimular a valorização e reconhecimento dos Engenhos de Farinha.

Anúncios

Read Full Post »

Durante o Seminário de Patrimônio Cultural que integra a 16ª Semana dos Museus em Bombinhas (SC), a equipe do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha / Cepagro facilitará uma oficina sobre Inventários Participativos nesta quinta, 17 de maio. Na sexta, 18 de maio, a partir das 14h, será exibido o documentário Cultura de Engenho: Patrimônio e Resistência, dirigido por Sandra Alves com roteiro de Gabriella Pieroni. Tudo isso no famoso Engenho do Miminho, adotado pela Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas para se tornar centro e referência cultural na comunidade.

A oficina do dia 17 acontece a partir das 10h30 e tem o objetivo de mobilizar e sensibilizar a comunidade para a importância de seu patrimônio cultural e agroalimentar por meio da construção coletiva de conhecimento sobre os Engenhos de Farinha, suas agri(culturas) e culinárias. A iniciativa faz parte de um projeto do Cepagro que conta com o apoio da Secretaria de Estado do Turismo, Cultura e Esporte de SC (SOL-SC) para realizar ao longo de 2018 diversas oficinas nas comunidades que fazem parte da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. A metodologia da oficina é uma adaptação dos Inventários Participativos,  ferramenta de educação patrimonial proposta pelo IPHAN que foi parceiro local no processo de elaboração.

As oficinas acontecerão em outros territórios catarinense, sendo articuladas por agentes culturais locais representantes dos territórios envolvidos, papel assumido em Bombinhas pela Fundação Municipal de Cultura.  O resultado das oficinas deverá compor uma exposição e um mapa cultural, além de materiais de  divulgação sobre os Engenhos de Farinha a partir do olhar de seus protagonistas. Nos próximos meses haverá também atividades práticas de culinária e visitas aos Engenhos de Farinha da região.

Na atividade do dia 18, o foco é a campanha #engenhoépatrimônio, empreendida pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. A campanha tem o intuito de mobilizar as comunidades para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural e a participação dos “engenheiros” locais, no processo participativo de elaboração de uma proposta de registro das práticas culturais associadas a estes Engenhos de Farinha, como Patrimônio Cultural do Brasil dentro da Política de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial do Iphan.

Read Full Post »

Começa neste domingo, 20 de maio, a temporada da farinhada na Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI). O evento começa às 15h, com a exibição do documentário Cultura de Engenho: Patrimônio e Resistência, dirigido por Sandra Alves com roteiro de Gabriella Pieroni, em que a comunidade tradicional de agricultores e pescadores dos Areais da Ribanceira é uma das protagonistas. Na sequência, acontece a roda de conversa sobre a campanha #EngenhoÉPatrimônio, que busca mobilizar as comunidades para pedir o registro dos engenhos como patrimônio cultural imaterial junto ao IPHAN. “Pretendemos também refletir sobre a produção agrícola e pesqueira no território, ameaçada por um modelo de desenvolvimento que desconsidera os povos e comunidades tradicionais”, afirma Marlene Borges, uma das fundadoras da ACORDI, que tem no engenho seu principal símbolo de luta e resistência.

A Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira convive há várias décadas com um processo de desterritorialização, que elimina formas de uso comum da terra e da água, colocando em risco o grupo social e todo patrimônio imaterial acumulado ao longo das gerações. Um exemplo é a ação de reintegração de posse que o governo do Estado de Santa Catarina, está movendo contra a ACORDI, assim como vários pescadores da praia de Imbituba também estão sendo ameaçados por processos similares, movidos por empresa privada (IEP).

A essência da comunidade está no uso comum do seu território, que está diretamente ligado ao acesso aos recursos naturais. E, se isto for interrompido, interrompe-se também a reprodução cultural/social/religiosa/ancestral e econômica da comunidade, que é a principal responsável pela manutenção do ecossistema e da construção tradicional de um conjunto de conhecimentos, inovações e práticas que beneficiam toda sociedade.

A ACORDI convida então toda a comunidade para participar da Abertura da Farinhada, apoiando assim a preservação da história, da cultura e da identidade da comunidade dos Areais da Ribanceira e dos engenhos de farinha do litoral catarinense.

 

 

Read Full Post »