Feeds:
Posts
Comentários

Archive for dezembro \18\America/Sao_Paulo 2018

Elba Nair da Santa Cruz e Antônio Jacob Cruz cresceram em engenhos de farinha em Bombinhas. Com a chegada do turismo de massa à cidade, dedicaram-se a outras atividades: um pouco de pesca, um pouco de aluguel para temporada. Mas não esqueceram da produção artesanal de farinha: em 2005, compraram de novo um engenho, do sogro de sua filha. “Ele sabia que eu iria manter o engenho”, conta, orgulhosa, Elba Nair da Santa Cruz. Ainda hoje, ela e o marido produzem cerca de 250kg de farinha por ano. “Não é pra ter lucro, é pra nós mesmo. Pra dar pra algum vizinho”, diz Elba.

No último dia 5 de dezembro, mestres e mestras dos engenhos como Elba e Antônio foram homenageados/as por estudantes da Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, que fecharam o ano letivo apresentando os trabalhos resultantes de sua imersão na cultura dos engenhos. A pesquisa junto aos engenhos de farinha do município foi motivada por uma oficina de educação patrimonial que o Cepagro facilitou ali em agosto deste ano e coordenada pelas professoras Caroline Celle Waltrick (Artes), Josiane Mendes Bezerra (Turismo) e Maria José (História). Quatro turmas do 2º ano do Ensino Médio participaram da pesquisa, que passou por 4 engenhos da região, gerando músicas, pinturas e 2 mini-documentários. “Toda a ideia e organização da homenagem foi dos/as jovens”, conta a professora Carolina Waltrick.

“Falar de engenho é falar da identidade de Bombinhas. E dela não podemos desistir”, afirma a estudante Ariel da Silva Serra Gonçalves de 17 anos. “Foi plantado pra nós que o engenho, a roça de mandioca, a horta eram feios. Mas mudamos isso. Não podemos deixar morrer essa cultura nem ter vergonha dela”, confirma a professora Maria José. Para Josiane Bezerra, professora do curso técnico em Hospedagem, a valorização e promoção da identidade cultural do município amplia as possibilidades de atividades turísticas ali. “Muitas cidades que têm o eixo turístico de sol e praia esquecem que a identidade cultural também atrai visitantes. Se o destino tem identidade cultural, pode trazer gente tanto no inverno quanto no verão”, afirma.

O trabalho dos/as estudantes da Maria Rita Flor vai compor o inventário cultural dos engenhos de farinha que a Rede Catarinense de Engenhos está mobilizando. Além da bela pesquisa de campo, a iniciativa é valiosa por mostrar o envolvimento da juventude na temática.

 

Read Full Post »

Mapeamento realizado pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha identificou pelo menos 23 engenhos artesanais de farinha ativos na região

As rotinas de trabalho, as brincadeiras e a fartura dos engenhos de farinha e ranchos de pesca foram relembradas no último domingo, 9 de dezembro, durante a Oficina Mapeando os Engenhos de Farinha realizada na Associação Comunitária Rural de Imbituba, a ACORDI. Na atividade, promovida pela ONG Cepagro através de um projeto apoiado pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (SOL), participaram agricultoras, agricultores e proprietários de engenhos da região. O objetivo foi mapear os engenhos ainda existentes e também levantar informações sobre o patrimônio cultural ligado a eles, fortalecendo a Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e complementando os mapeamentos já realizados em Florianópolis, Bombinhas e Garopaba.

“Quando começava a farinhada, era como abrir as portas de uma festa”, recorda Luís Farias, da ACORDI. A temporada de produção artesanal de farinha – as farinhadas ­-, que começa perto de maio e estende-se até agosto, representava a reunião de vizinhos e familiares para o trabalho coletivo de arrancar e descascar a mandioca, colaborar na seva, prensar e torrar a farinha. Tudo envolto em brincadeiras, versinhos irônicos (chamados pasquim) e fartura: além da farinha, saía muito beijú, cuscuz, bijajica, mané pança, além das colheitas de batata doce e milho. “Também dava muito namoro nas farinhadas”, completa Luís Farias.

A industrialização da produção de farinha e o recrudescimento da legislação sanitária para ela contribuíram para que muitos engenhos artesanais fossem fechados. Entretanto, durante as atividades da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha, percebe-se que os engenhos seguem vivos e ativos. No mapeamento realizado em Imbituba, foram identificados pelo menos 23 engenhos que continuam produzindo mandioca artesanalmente. A Rede também já mapeou engenhos em Bombinhas, Florianópolis e Garopaba, mostrando que esta cultura segue pulsante no litoral catarinense.

Ainda assim, muitos dos saberes relacionados aos engenhos estão desaparecendo. “A técnica de fazer um fuso ou uma prensa de madeira está se perdendo”, afirma Marlene Borges, também da ACORDI. Aroldo dos Reis Carvalho, que tem um engenho em Imbituba, conta que “Eu aprendi a tirar o ponto da farinha com a minha mãe. Colocava na boca e sentia se tava estralando. Mas vou repassar isso pra quem?”. Neste sentido, o levantamento sobre os bens culturais dos engenhos – suas celebrações, saberes, mestres, objetos – revela-se importante para sua salvaguarda como patrimônio cultural de Santa Catarina e do Brasil. Além disso, a sensibilização da juventude na preservação deste patrimônio é peça fundamental.

Read Full Post »

Representações de sete engenhos de farinha de Garopaba participaram da Oficina de Educação Patrimonial realizada pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e Centro de Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), no dia 25 de novembro no Engenho da Vó Cicina, na Lagoa da Encantada  A ação foi feita através do Projeto Ponto de Cultura 2.0: articulação em rede, com a facilitação da educadora Giselle Miotto e da Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Ao longo de um dia de muita prosa e reflexões, as famílias presentes fizeram um levantamento dos bens culturais relacionados aos engenhos de farinha da região.

A oficina é continuação do mapeamento dos engenhos de farinha artesanais de Garopaba iniciado através do edital Elisabete Anderle, que buscou identificar e mobilizar os engenhos da região para compor a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha. Nessa primeira ação,realizada ao longo de três dias no início de novembro,houve a participação de três agentes locais: Luis Fernando, da comunidade do Macacu, Maria Cristina Gomes, estudante de educação patrimonial pelo IFSC e Claudete Medeiros, do coletivo Taiá Terra. Além de mapear 28 engenhos de farinha na cidade, foi possível conhecer  um pouco da realidade destes engenhos dentro do aspecto produtivo e de intenção de manutenção dos mesmos, seja desenvolvendo atividades vinculadas ao turismo ou mesmo como forma de preservação da cultura e subsistência.

Na dia 25, além de levantar os bens culturais, a comunidade também discutiu sobre as principais dificuldades que eles enfrentam para manter os engenhos de pé e funcionando. Na visão dos engenheirxs, o fator que mais compromete a manutenção desta cultura é o fato de não haver dentro do município aspectos legais que garantam a terra para o plantio, em relação ao Plano Diretor, onde as áreas rurais ficaram reduzidas comparada com a realidade, e até mesmo a questão de impostos. Como eles mesmo colocaram:  “Sem roça, não tem mandioca, sem mandioca, não tem farinha”.

Segundo José Antônio Furtado, o Zezinho, que trabalha no engenho construído por seu pai há 69 anos e faz parte do Conselho de Agricultura do município, “Hoje é tudo lote, não tem mais terra”. A resistência que ele e os outros engenheirxs da região fazem é principalmente contra a especulação imobiliária e a mega-projetos que preveem a expropriação de terra dos agricultores e causam grandes impactos socioambientais para o território.

Luís Fernando conta que os agricultores não têm sido informados adequadamente de onde eles podem ou não plantar. Disse ainda que a fiscalização no município é inadequada e que há um tratamento diferente para aqueles com poder aquisitivo maior. Manoel João Pereira, pescador e lavrador do Capão, se pergunta o porquê de não poder plantar sua roça, enquanto aqueles que têm interesse em construir, conseguem a liberação para “vir com uma máquina e arrancar tudo”. Ele mantém o engenho do pai funcionando desde a década de 1970.

O que move a resistência destes engenhos é principalmente a manutenção da tradição e da sua cultura. Dona Santina, que é forneira, coisa rara para uma mulher no mundo dos engenhos, ama ficar no engenho, tratar o gado e manter a cultura herdada da família: “se me diz pra fazer outra coisa eu não quero”. Além da preservação da cultura, a manutenção dos engenhos pode vir a se tornar um atrativo turístico para a região. Mariana, neta da Vó Cicina, fez um curso de guia de turismo e não quer perder as raízes. Ela teve o privilégio de receber turistas no engenho da família, com direito a café colonial, e vê grande potencial na valorização do turismo de base comunitária.

Estas atividades envolvendo a comunidade local fortalecem a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha, para que seja possível levar estas questões ao poder público local. Elas também vêm somar à campanha #EngenhoéPatrimonio, que busca mobilizar a sociedade civil e iniciativas do terceiro setor para propor o registro dos engenhos de farinha artesanais do litoral catarinense como patrimônio cultural imaterial reconhecido pelo IPHAN.

Read Full Post »