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Archive for maio \16\UTC 2019

Na última terça, 14 de maio, a Rede Catarinense de Engenhos de Farinha deu um importante passo para a salvaguarda cultural dos engenhos de farinha, entregando ao IPHAN, à Fundação Catarinense de Cultura e à Fundação Franklin Cascaes a proposta de registro dos “Saberes e Práticas tradicionais associados aos Engenhos de Farinha de Santa Catarina” como Patrimônio Cultural brasileiro, catarinense e florianopolitano. A entrega foi dividida em duas solenidades: para o IPHAN e a FCC, a ceriônia foi no Palácio Cruz e Sousa; enquanto para a Franklin Cascaes foi na Câmara de Vereadores de Florianópolis, durante sessão especial de abertura da temporada do feitio artesanal da farinha de mandioca com  homenagem às mestras e mestres de engenho. Agora, cabe a cada uma das instituições – IPHAN, FCC e Franklin Cascaes – dar encaminhamento à proposta, assinada por cinco instituições: o Cepagro, a Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI), o Instituto BoiMamão (Bombinhas), a Associação de Moradores de Santo Antônio de Lisboa (AMSAL)e o Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC. O registro dos Saberes e Práticas tradicionais associados aos Engenhos de Farinha de Santa Catarina busca o reconhecimento e proteção legal desta tradição que se atualiza há mais de dois séculos em Santa Catarina e se encontra ameaçada por restrições sanitárias e ambientais, especulação imobiliária e  modelos excludentes de desenvolvimento territorial.

No Palácio Cruz e Sousa, a mediação da cerimônia ficou a cargo de Francisco do Vale Pereira, do NEA, que valorizou “a garra e a vontade [ das famílias dos engenhos ] de manter algo que está na alma das pessoas”, ressaltando que “a farinha como a nossa, só nós fazemos”. Compondo a mesa estavam: Manuela Braganholo (Rede/Cepagro), Rosane Luchtemberg (Instituto BoiMamão), Marlene Borges (ACORDI) e Catarina Gelsleuchter (Angelina).

 

Rosane, que há mais de 20 anos trabalha pela valorização dos engenhos em Bombinhas, mantendo o Museu Comunitário Engenho do Sertão contou como neste município “num primeiro mapeamento que fizemos, ainda na década de 90, havia 9 engenhos ativos”. Dez anos depois, esse número aumentou para 15. Hoje, são treze engenhos que se mantêm vivos em Bombinhas.

Marlene Borges e Catarina Gelsleuchter apresentaram a justificativa e fundamentação da proposta.

 

A superintendente do IPHAN em Santa Catarina, Liliane Janine Nizzola, afirmou que “os engenhos têm muito a contribuir, pois a Rede é um exemplo de agregação. Trabalhar em Rede é fundamental quando se fala em patrimônio imaterial”.

Já a presidente da FCC, Ana Lúcia Coutinho – que trouxe várias memórias da infância vivida nos engenhos de farinha de Biguaçu – falou sobre a importância dos engenhos enquanto produção cultural e também econômica. “Essa proposta mostra que não é só o conhecimento acadêmico que valoriza um patrimônio, mas também o desejo comunitário e social”. Santa Catarina possui já 7 registros concluídos de patrimônio cultural imaterial, e há outros dois processos tramitando: a procissão dos Navegantes (no município de Navegantes) e o dialeto microrregional da larfiagem, em Herval Velho. A proposta dos engenhos vêm somar-se a esses dois outros processos.

 

A proposta de registro dos engenhos como patrimônio cultural – que envolve uma vasta documentação histórica em texto, foto e audiovisual – é resultado de um trabalho de mobilização comunitária e pesquisa de mais de sete anos. A documentação foi levantada entre os membros da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha, composta por comunidades engenheiras, entidades da sociedade civil e pesquisadores de seis municípios catarinenses: Bombinhas, Florianópolis, Angelina, Palhoça, Imbituba e Garopaba. Desde 2012, a articulação vem realizando ações com foco na preservação do patrimônio cultural e agroalimentar destes Engenhos de Farinha baseadas na política de preservação patrimônio cultural imaterial do IPHAN.

Na Câmara Municipal, a sessão solene dedicada aos engenhos foi proposta pelo vereador Marcos José de Abreu, que disse “Em tempos de cortes para educação, é louvável conhecer, preservar e praticar nossa cultura, o saber fazer a partir das tradições e o acúmulo histórico”, citando Paulo Freire. Para Marquito, “esse ato representa que temos história, cultura e um tecido social que as sustentam”.

Foram entregues 32 homenagens na Câmara a mestras e mestres de engenhos, além de pesquisadores/as, chefs de cozinha e ativistas que lutam pela preservação do patrimônio agroalimentar e cultural dos engenhos. Quatorze vereadores manifestaram-se na tribuna durante a sessão – uma das mais estendidas da história da Casa, segundo alguns funcionários – todos enfatizando a relevância dos engenhos para a cultura da cidade. Marquito ressaltou, entretanto, que a cultura dos engenhos continua presente, os engenhos continuam vivos e “precisamos levar isso em conta quando discutimos zoneamento urbano, ocupação do território e políticas para educação”.

Cláudio Andrade, proprietário do Casarão e Engenho dos Andrade, apresentou a proposta de registro da Rede na tribuna, representando os engenhos do Norte da Ilha.

Ataíde Silva, liderança comunitária do Campeche, representou os engenhos do sul da ilha e leu a justificativa da proposta, lembrando que “a cultura dos engenhos é territorial, precisa de espaço para o cultivo da mandioca”. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Francisco do Vale Pereira, do NEA, enfatizou na Câmara que “mais importante que reconhecer o patrimônio cultural é garantir a salvaguarda e continuidade das práticas tradicionais dos engenhos”. Francisco é filho do professor Nereu do Vale Pereira, uma das principais referências históricas quando se fala em pesquisa sobre engenhos de farinha. E foram eles, junto com Cláudio e Fausto Andrade (engenheiros de Santo Antônio de Lisboa), que entregaram a proposta de registro à Fundação Franklin Cascaes.                    .

“Se a Prefeitura recebe um pedido desses da sociedade civil, é porque tem muita relevância. Agora é nossa responsabilidade encaminhar o processo, para que os engenhos tenham a salvaguarda, o reconhecimento e o respeito que merecem”, disse Roseli Pereira, Superintendente da Fundação Franklin Cascaes. Florianópolis já possui três registros de Patrimônio Cultural Imaterial: a Festa do Senhor dos Passos, a Festa do Divino e o Terno de Reis. De acordo com Roseli, está sendo encaminhado o pedido de registro do Boi de Mamão. Nacionalmente, a Fundação Franklin Cascaes pediu o registro ao IPHAN da renda de bilro. O segundo processo neste nível encaminhado pela Fundação será agora o dos engenhos.

Na plateia, entre as mestras e mestres de engenhos, muita emoção e satisfação. Maria Aparecida Andrade, a Dinha, era só agradecimentos: “Muito obrigada por fazer ecoar nossa voz”.

Vereadores/as, homenageados/as e a Rede Catarinense de Engenhos de Farinha

 

Para dar mais colorido e sabor ao cerimonial, não podia faltar um café com quitutes de engenho preparado pelos chefs Slow Food Fabiano Gregório e Philippe Belettini.

 

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