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Archive for the ‘Ponto de Cultura’ Category

Representações de sete engenhos de farinha de Garopaba participaram da Oficina de Educação Patrimonial realizada pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e Centro de Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), no dia 25 de novembro no Engenho da Vó Cicina, na Lagoa da Encantada  A ação foi feita através do Projeto Ponto de Cultura 2.0: articulação em rede, com a facilitação da educadora Giselle Miotto e da Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Ao longo de um dia de muita prosa e reflexões, as famílias presentes fizeram um levantamento dos bens culturais relacionados aos engenhos de farinha da região.

A oficina é continuação do mapeamento dos engenhos de farinha artesanais de Garopaba iniciado através do edital Elisabete Anderle, que buscou identificar e mobilizar os engenhos da região para compor a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha. Nessa primeira ação,realizada ao longo de três dias no início de novembro,houve a participação de três agentes locais: Luis Fernando, da comunidade do Macacu, Maria Cristina Gomes, estudante de educação patrimonial pelo IFSC e Claudete Medeiros, do coletivo Taiá Terra. Além de mapear 28 engenhos de farinha na cidade, foi possível conhecer  um pouco da realidade destes engenhos dentro do aspecto produtivo e de intenção de manutenção dos mesmos, seja desenvolvendo atividades vinculadas ao turismo ou mesmo como forma de preservação da cultura e subsistência.

Na dia 25, além de levantar os bens culturais, a comunidade também discutiu sobre as principais dificuldades que eles enfrentam para manter os engenhos de pé e funcionando. Na visão dos engenheirxs, o fator que mais compromete a manutenção desta cultura é o fato de não haver dentro do município aspectos legais que garantam a terra para o plantio, em relação ao Plano Diretor, onde as áreas rurais ficaram reduzidas comparada com a realidade, e até mesmo a questão de impostos. Como eles mesmo colocaram:  “Sem roça, não tem mandioca, sem mandioca, não tem farinha”.

Segundo José Antônio Furtado, o Zezinho, que trabalha no engenho construído por seu pai há 69 anos e faz parte do Conselho de Agricultura do município, “Hoje é tudo lote, não tem mais terra”. A resistência que ele e os outros engenheirxs da região fazem é principalmente contra a especulação imobiliária e a mega-projetos que preveem a expropriação de terra dos agricultores e causam grandes impactos socioambientais para o território.

Luís Fernando conta que os agricultores não têm sido informados adequadamente de onde eles podem ou não plantar. Disse ainda que a fiscalização no município é inadequada e que há um tratamento diferente para aqueles com poder aquisitivo maior. Manoel João Pereira, pescador e lavrador do Capão, se pergunta o porquê de não poder plantar sua roça, enquanto aqueles que têm interesse em construir, conseguem a liberação para “vir com uma máquina e arrancar tudo”. Ele mantém o engenho do pai funcionando desde a década de 1970.

O que move a resistência destes engenhos é principalmente a manutenção da tradição e da sua cultura. Dona Santina, que é forneira, coisa rara para uma mulher no mundo dos engenhos, ama ficar no engenho, tratar o gado e manter a cultura herdada da família: “se me diz pra fazer outra coisa eu não quero”. Além da preservação da cultura, a manutenção dos engenhos pode vir a se tornar um atrativo turístico para a região. Mariana, neta da Vó Cicina, fez um curso de guia de turismo e não quer perder as raízes. Ela teve o privilégio de receber turistas no engenho da família, com direito a café colonial, e vê grande potencial na valorização do turismo de base comunitária.

Estas atividades envolvendo a comunidade local fortalecem a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha, para que seja possível levar estas questões ao poder público local. Elas também vêm somar à campanha #EngenhoéPatrimonio, que busca mobilizar a sociedade civil e iniciativas do terceiro setor para propor o registro dos engenhos de farinha artesanais do litoral catarinense como patrimônio cultural imaterial reconhecido pelo IPHAN.

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Buscando engajar comunidades e gerações diversas no processo de Inventário Participativo dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina, a equipe da Rede Catarinense de Engenhos/Cepagro esteve na última quarta (8 de agosto) na Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, em Bombinhas, para conversar com estudantes do 2º ano do Ensino Médio sobre a aventura de levantar os bens culturais relacionados aos engenhos da região. Conceitos como bens culturais, patrimônio e inventário foram dialogados com as/os estudantes de forma descontraída e afetuosa pela  agrônoma Karina de Lorenzi e a educadora Giselle Miotto. A mini-oficina faz parte do projeto PdC 2.0: estratégias em rede, que, através de atividades e vivências de educação patrimonial, tem o objetivo de criar um dossiê sobre os engenhos de farinha do litoral catarinense, material que pode embasar o pedido do registro destes como Patrimônio Cultural junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O projeto tem apoio da Secretaria de Estado de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer (SOL).

A ideia de trabalhar com os/as adolescentes surgiu durante a primeira oficina de Inventário Participativo do projeto em Bombinhas, realizado em maio deste ano no Engenho Comunitário do Miminho, revitalizado pela Fundação Municipal de Cultura. Com orientação das professoras Maria José de Melo Mafra e Eliane Pereira (História) e Caroline Floriano (Artes), a juventude irá visitar os engenhos, conversar com mestres e mestras, levantar seus bens culturais e produzir apresentações em diversos formatos. De acordo com a professora Eliane Pereira, na disciplina de Marketing (integrante do currículo profissionalizante em Hospedagem integrado ao Ensino Médio) as turmas vêm desenvolvendo jornais, sendo que dois grupos já se interessaram pela pauta dos engenhos para suas publicações. A estudante Ariel Gonçalves, de 17 anos, propôs que seja feita uma homenagem a engenheiros e engenheiras no final do ano. “Já fizemos isso com os pescadores, poderíamos fazer com os mestres e mestras dos engenhos”, disse a jovem. A jornalista da Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas, Márcia Ferreira, também vai colaborar na iniciativa, pois já trabalha há alguns anos com o registro e produção de materiais sobre o Patrimônio Cultural Imaterial de Bombinhas.

Ao trabalho na EEB Maria Rita Flor somam-se outras ações de educação patrimonial para construção do Inventário Participativo dos engenhos, como oficinas de mapeamento e preparação de receitas, a produção de spots audiovisuais #EngenhoÉPatrimônio e as rodas de conversa animadas pelo documentário Cultura de Engenho. Haverá oficinas também em Garopaba, Imbituba e Florianópolis. Através de metodologias e linguagens diversas, a Rede vai tecendo entendimentos com as comunidades sobre a importância cultural e afetiva do Patrimônio Cultural Imaterial, que vão muito além da chancela estatal. Como disse Carla Cruz, do IPHAN, durante uma das atividades da Rede em fevereiro de 2017, “Patrimônio Cultural tem a ver com resistência”.

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O Encontro contou com apoio da Prefeitura de Angelina e também do mandato do vereador Marquito (PSOL) para viabilizar o transporte dos/as participantes

Realizado durante a já tradicional Feira da Mandioca de Imbituba, o 5º Encontro da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha aconteceu no último domingo, 22 de julho, reunindo famílias engenheiras de Florianópolis, Angelina, Palhoça, Garopaba no engenho da ACORDI (Associação Comunitária Rural de Imbituba), cuja comunidade também participou do evento. Além de desfrutar das belas paisagens, conhecer o histórico de luta da Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira e saborear o almoço da roça, as/os participantes trocaram sementes, mudas, ramas de mandioca e aipim e claro, muitos causos, experiências e saberes.

Durante o Encontro, o pessoal da Rede também viu uma prévia do vídeo da campanha #EngenhoÉPatrimônio, que reúne história e memórias de quem viveu, trabalhou e brincou nos engenhos de farinha de Santa Catarina. O filme é uma das ferramentas de mobilização de comunidades para o reconhecimento dos engenhos de farinha como Patrimônio Cultural, assim como o documentário Cultura de Engenho, apresentado na noite anterior ao Encontro. Na ocasião, também foi lançada a Fortaleza Slow Food dos Engenhos de Farinha de Mandioca Polvilhada de Santa Catarina, mais uma chancela para a importância cultural e gastronômica do patrimônio agroalimentar ligado aos Engenhos.

Seu Neim, forneiro oficinal da ACORDI, confere as variedades de mandioca, aipim e macaxeira trazidas pra troca

Mas o ponto alto do Encontro foi a troca de ramas, com 11 variedades de aipim, mandioca e macaxeira de várias localidades – até mesmo da Amazônia – circulando entre dezenas de famílias, além de sementes crioulas de milho. “A troca de ramas acho que é algo tão interessante quanto a troca de ideias. Porque diversifica, enriquece”, avalia a agricultora Catarina Gelsleuchter, que veio de Angelina a Imbituba com outras 14 pessoas para participar do Encontro. Algumas variedades, como a Mandioca Broto Roxo e a Macula, já tinham desaparecido dos Areais da Ribanceira e foram resgatadas com outras famílias agricultoras pela agrônoma-agricultora Marlene  Borges, associada da ACORDI. “A perda do território também foi responsável por uma erosão genética”, explica Marlene, referindo-se ao despejo de famílias da comunidade por empresas privadas, que com a conivência do governo do Estado, “compraram” as terras tradicionalmente ocupadas há 200 anos pelas famílias. Entre 2010 e 2016, de acordo com Marlene, as variedades de mandioca e aipim no território tradicional dos Areais caiu de 45 para 5. “Essa troca então foi muito legal, minha coleção vai aumentar. E o importante é distribuir as ramas  pra outras pessoas, pra não se perder”, afirma.

Marlene Borges, da ACORDI, fala sobre o histórico de luta e resistência dos Areais da Ribanceira

A participação das famílias engenheiras de outros municípios no maior evento da ACORDI, a Feira da Mandioca, fortalece a luta da comunidade. “Foi um encontro muito bonito, foi além das minhas expectativas. Não pensei que tantas pessoas prestigiassem a Feira da Mandioca, vi muitas pessoas interessadas”, conta Catarina ao participar pela primeira vez da Feira, que neste ano chegou a reunir cerca de 3 mil pessoas nos três dias de programação. No mês passado, a Feira da Mandioca recebeu o Prêmio Boas Práticas em Sistemas Agrícolas Tradicionais, concedido pelo  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Embrapa e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU). A premiação financeira, no valor de R$ 70 mil reais, será usada para terminar a construção do Engenho da ACORDI, que desde 2010 simboliza a luta e a resistência desta comunidade tradicional na defesa de seu território. “Mas esse valor é pequeno perto do que foi o reconhecimento nacional e inclusive do potencial que temos para fazer o registro mundial deste sistema, conforme nos disseram”, conta Marlene. “Estar no mesmo patamar de pessoas como as quebradeiras de coco, com todo seu histórico de luta, foi louvável”, completa. A ACORDI ficou em 4º lugar na premiação do BNDES/IPHAN/FAO, que também laureou outros 2 sistemas agrícolas tradicionais de Santa Catarina: a Roça de Toco (Biguaçu) e a Cadeia Produtiva do Pinhão (Planalto Serrano). Todas estas iniciativas pretendem se encontrar em agosto deste ano para planejar uma articulação das comunidades tradicionais catarinenses.

A agricultora Rosa Nascimento, de Palhoça, levou 2 variedades de aipim e 1 de mandioca para plantar na sua comunidade, as Três Barras.

Pelo lado dos Engenhos, as atividades da Rede seguem no próximo sábado, 28 de julho, com a oficina MAPEANDO ENGENHOS DE FARINHA, no Salão Comunitário do Sertão do Peri, mais uma ação contemplada no Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura.

 

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“Foi um sábado diferente”, avaliou o militar aposentado Jacó Heideinreich, de 93 anos, sobre a atividade que aconteceu no seu engenho no Ribeirão da Ilha no dia 23 de junho. Integrando o projeto Saberes, Sabores e Histórias de Engenhos, que através do edital Elisabete Anderle de apoio à Cultura tem o objetivo de produzir um livro de receitas com iguarias engenheiras, a oficina realizada no Engenho da família Heideinreich foi um espaço para compartilhar muito mais do que saberes culinários. Informações sobre ramas de mandioca, memórias, piadas e até estratégias para afastar cotias das roças circularam ao redor do forno e da prensa do engenho, que Jacó herdou do seu avô, imigrante alemão.

Participaram da atividade famílias engenheiras de Florianópolis: os Andrade (Santo Antônio de Lisboa), os amigos Ailton Barbosa e Manuel de Souza (Sertão do Ribeirão), além da jovem Karlota Scotti, também do Sertão. No menu, foram preparadas e saboreadas iguarias como a cacuanga (por Maria de Lourdes Andrade Padilha); beijú, bolo de massa, bolo de aipim ralado (pela anfitriã Yolanda Heindenreich) e bijajica (por Karlota Scotti e o ecochef Fabiano Gregório). Tudo isso acompanhando o almoço espetacular comandado pelo chef Fabiano, com tainha frita, pirão de peixe e bolinhos de feijão.

A equipe do Ponto de Cultura registrou cada etapa da preparação das receitas. O objetivo é editar um livro com elas, junto com causos e fotografias dos quitutes e seus personagens. A publicação tem lançamento previsto para o final deste ano.

 

 

 

 

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O forno a lenha da casa da família Gelsleuchter, em Coqueiros, já estava aceso desde de manhã cedo para assar pão de milho e rosca de polvilho com fubá. Em volta do fogão do engenho – também a lenha -, enquanto o cozinheiro Fabiano Gregório coordenava o arroz com feijão, pirão e galinha caipira, dona Teresinha da Silva Coelho explicava do ponto do cuscuz. Feito o almoço, dona Catarina Gelsleuchter colocou alguns beijus na sua chapa nova. Depois de acertar o ponto do fogo, passou a escumadeira para um de seus 7 filhos e outros rapazes de 30 a 70 anos. Quando dona Aurina Francisco Duarte veio para fazer tapioca, o calor estava no ponto certo.

Essa e outras receitas tradicionais dos engenhos de farinha catarinenses – como o pão de farinha de mandioca na frigideira e o mingau de café – foram o convite certo para que vizinhos e parentes dos Gelsleuchter se juntassem no engenho da família no último sábado para participar da oficina do projeto Saberes, Sabores e Histórias de Engenho, realizado pelo Cepagro através do edital Elisabete Anderle de Apoio à Cultura no último sábado, 16 de junho. O objetivo principal do projeto é produzir um livro com essas e outras receitas, além de causos e fotos dos engenhos. As oficinas são os espaços para colher esses saborosos conteúdos – além de ser mais uma oportunidade de relembrar os cheiros, gostos e brincadeiras dos engenhos.

Rapaziada virando beiju.

Várias das famílias presentes tinham ou ainda têm engenhos, e vieram compartilhar receitas passadas através de gerações. “Tem uns 60 anos pelo menos que eu já faço cuscuz. Eu era criançae já ajudava minha mãe a fazer”, conta a auxiliar de cozinha Terezinha da Silva Coelho. A família dela tinha engenho na comunidade de Bethânia, também em Angelina. “Muita farinha a gente fez. Tinha ano que fazia até 200 sacos de farinha, desses de 60 kilos. Meus filhos mais velhos foram criados no engenho fazendo farinha. A gente ficava até 3 meses lá fazendo farinha. Como o engenho era longe da casa, então a gente se mudava pra lá, ficava 3 meses morando no engenho”, relembra ela enquanto confere o ponto do cuscuz.

Mestra Aurina Francisco Duarte mostrando a arte de virar tapioca no fogão a lenha

Os irmãos Irma e José Arno Hames, outros participantes da oficina, também cresceram dentro do engenho da família, que fica próximo da propriedade dos Gelsleuchter. As memórias do trabalho duro misturado às brincadeiras da infância permeiam as falas dos dois: “Era sofridinho. Tinha que levantar de madrugada, caminhar no escuro, era frio pra arrancar o aipim, tudo puxado no cavalo”, recorda Irma, hoje com 51 anos. “A gente passou muita dificuldade. Era carregar os cestos, era bem pesado. Mas a gente vencia. Fazia o serviço junto com o pai e a mãe”, concorda o irmão, Arno. Pelo que os irmãos lembram, o engenho está com a família há 52 anos, mas já foi comprado usado. Na engrenagem principal, feita de canela, a marca com o ano “1940” testemunha a idade da maquinaria, que segue ativa. Apesar das lembranças da lida difícil, há cerca de 2 anos Arno resolveu reativar o engenho da família, que ficara 18 anos parado. “O engenho ficou uns 18 anos parado. De uns 2 anos pra cá voltou a funcionar”, conta Arno. “Os outros irmãos não queríamos. Mas aí vimos que não adiantava insistir com ele, ele queria, aí apoiamos. E agora a gente gosta”, conta Irma. Todo ano os quatro irmãos se reúnem pra fazer farinha “por esporte” e também pro auto-consumo.

Acostumados com a movimentação do engenho durante as farinhadas anuais, Catarina e Celso Gelsleuchter estavam animados com a atividade. Os anfitriões da próxima oficina gastronômica serão Graziela e João Heindenreich, irmãos que mantém o engenho da família no bairro Ribeirão da Ilha, em Florianópolis. A atividade será no próximo sábado, 23 de junho.

 

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As visitas buscam a mobilização para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural e a promoção da agroecologia.

Entre os dias 16 e 21 de Maio, a equipe do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha deu início à etapa de campo da mobilização para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural, visitando comunidades rurais, urbanas e periurbanas dos municípios de Bombinhas, Garopaba, Imbituba, Laguna e Pescaria Brava. As visitas têm como referência um mapeamento de atores que vem sendo realizado pelo Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO) desde 2011. Foram realizadas rodas de conversa, oficinas, reuniões institucionais e visitas à Engenhos de Farinha de uso familiar e comunitário. As atividades operam com recursos do Prêmio de Culturas Populares de 2017, edição Leandro de Barros, do Ministério da Cultura.

Turma frente engenho Colônia São Braz

Equipe do Ponto de Cultura e família proprietária do Engenho do Zeca e da Marlene. Colônia São Braz, Ribeirão Pequeno, Laguna, SC.

Após discussões ocorridas nos anos de 2016 e 2017 em encontros da Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha e em parceria com o IPHAN, foi consolidado o desejo de elaboração de uma proposta de registro dos Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural do Brasil de forma colaborativa entre as diversas famílias e instituições que compõem a Rede de Engenhos, reunindo poder público e sociedade.

A estratégia serve-se da abordagem do patrimônio imaterial e dos Inventários Participativos de referências culturais para o fortalecimento da articulação em rede e da agroecologia. A articulação de atores para a incidência nas políticas de Patrimônio Imaterial, realizada pelo CEPAGRO é vista, sobretudo, como uma ferramenta de educação patrimonial e de fortalecimento da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha.

PB Cinema Acordi

Exibição do filme “Cultura de Engenho: patrimônio e resistência” na Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI) em 20 de maio de 2018.

Nesta primeira etapa, a caravana #engenhoépatrimônio iniciou por Bombinhas e foi recebida por Rosane Luchtenberg no Engenho do Sertão, que também é um Ponto de Cultura e importante referência regional em educação patrimonial e agroeológica. Os parceiros do Instituto Boimamão, entidade que mantém o espaço, colaboraram com seu rico acervo e mapeamento de Engenhos produzido ao longo de 20 anos de atuação na região. Rosane também acompanhou a nossa equipe a quatro Engenhos de Farinha bombinenses.

Engenho Sertão

Engenho do Sertão, nó da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha em Bombinhas

Já a parceria com a Fundação de Cultura de Bombinhas proporcionou a realização da oficina sobre Inventários Participativos, que ocorreu dia 17 de maio no Engenho do Miminho, espaço cultural recentemente inaugurado pela Prefeitura do município. No dia seguinte, foi realizada a roda de conversa #engenhoépatrimônio onde a equipe de servidoras da Fundação também deu início à colaboração na reunião de documentação para a proposta de registro.

Durante as atividades, muito se discutiu sobre as ameaças da urbanização e da especulação imobiliária à (agri)cultura de Engenho em Bombinhas, município onde as áreas rurais sequer aparecem no Plano Diretor. Apesar desta invisibilidade, durante as visitas aos Engenhos da cidade foram encontradas muitas roças de mandioca, em meio quintais produtivos agroflorestais com bananais, café, hortas, produção de colorau, criação de galinhas e outras atividades rurais que resistem rodeadas por espaços urbanizados.

Na localidade de Sertãozinho conservam-se a maior parte dos engenhos produtivos de Bombinhas. Com o apoio da Rosane, do Engenho do Sertão, tivemos a oportunidade de visitar três engenhos que ainda funcionam naquela localidade. Durante a visita ao Engenho de Seu Bielinho (Manoel João da Silva) e Dona Jucélia da Silva, uma surpresa: a família estava em meio à farinhada, reunindo-se no Engenho nos fundos da casa. A família Silva viveu da agricultura por décadas, e em função do crescimento urbano havia vendido o velho engenho nos anos 2000. Recentemente, no entanto, os filhos remontaram um engenho de farinha para manter a tradição e poder proporcionar encontros entre várias gerações da família na fruição do feitio artesanal da farinha de mandioca e outras iguarias de engenho.

Também foram visitados o antigo Engenho do Seu Cantalício, atualmente conduzido por seus netos, genro e filha (José Horácio Mendes, o Dé, e sua esposa Áurea Rocha Mendes) e o engenho mais recente da senhora Elba e seu esposo Azeneu. Na localidade de Bombas, ainda pudemos visitar o engenho de Dona Rosa Geralda da Silva, que hoje conduz o feitio do farinha com o auxílio de seu enteado Roberto Sílvio, o Lola.

Na manhã do dia 20 de maio, foram realizadas visitas pioneiras de mapeamento à Engenhos em Laguna. O pesquisador Wellington Martins, da Fundação Lagunense de Cultura tornou-se recentemente articulador local da Rede dos Engenhos na região, colaborando também na produção de conteúdo para a proposta de registro dos Engenhos de Farinha.

A visita a dois Engenhos da região contou com o precioso auxílio de Wellington e do professor Laércio, que está a frente da associação comunitária Casa da Dindinha, que atua na preservação da cultura açoriana na comunidade do Ribeirão Pequeno, em Laguna. O líder do Convívio Slow Food Engenhos de Farinha, Antônio Mendes dos Santos, também acompanhou as visitas e está colaborando com o mapeamento dos Engenhos em comunidades rurais de Pescaria Brava, município vizinho.

O grande momento da semana ocorreu na tarde do domingo, 20 de Maio, durante a Abertura da Farinhada da Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI) evento realizado em parceria entre o CEPAGRO, a ACORDI e a Prefeitura de Imbituba, com foco na resistência da comunidade tradicional de agricultores e pescadores dos Areais da Ribanceira e na campanha #engenhoépatrimônio. Cerca de cem pessoas assistiram à exibição do documentário Cultura de Engenho, participaram do debate e desfrutaram do café preparado pelas quituteiras da associação. Durante as falas de lideranças comunitárias, as estratégias de patrimonialização foram evidenciadas como um importante aporte no enfrentamento do longo processo de desterritorialização que a comunidade vem atravessando.

Evaldo Manu Marlene e Gabi

Encontro das equipes do CEPAGRO e da Prefeitura de Imbituba, 21 de maio de 2018.

Na manhã da segunda-feira, dia 21 de maio, a equipe do Ponto de Cultura ainda realizou visitas institucionais na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Sustentável, Agrícola e da Pesca, com o secretário Evaldo Espezim e assessora Marlene Borges, pensando nas estratégias a ser adotadas pelas equipes do Ponto de Cultura e da Prefeitura de Imbituba em relação ao uso tradicional do território dos Areais da Ribanceira. À tarde, finalizando seis dias de atividades a campo, ainda estivemos com Isabella Torquato, representante do Conselho Municipal de Associações de Imbituba e do Conselho Municipal de Cultura de Imbituba. Ambas conversas foram frutíferas no sentido de envolver estes atores na construção da proposta de registro e ações da mobilização #engenhoépatrimônio.

A busca pelo reconhecimento dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina como patrimônio cultural une comunidades rurais e urbanas, entidades comunitárias, pesquisadores, ONGs e poder público das três esferas para a Salvaguarda destas (agri) culturas que encontram-se ameaçadas por modelos de desenvolvimento empreendidos nos territórios do litoral catarinense. O apoio às famílias no envolvimento de novas gerações, a valorização socioambiental, a garantia legal de territórios, a construção de legislações sanitárias e ambientais específicas, a estruturação do agroturismo e de circuitos de comercialização de produtos, bem como o incentivo às farinhadas festivas são algumas das questões que serão pontuadas nas recomendações de Salvaguarda da proposta de registro a ser entregue ao IPHAN, FCC e também aos órgãos culturais dos municípios.

Além de conquistar o reconhecimento e proteção legal pelo IPHAN, a iniciativa tem como principal missão mobilizar as comunidades que mantém vivas as práticas e saberes ligados aos Engenhos para a importância destes espaços tanto do ponto de vista cultural, quanto como matrizes de bem viver e desenvolvimento sustentável em seus territórios. Buscamos inspirar também gestores públicos e organizações da sociedade civil para um olhar contemporâneo para as tradições dos Engenhos de Farinha, que além de fazer parte da História e memória do estado e país, tem um peso estratégico na promoção da soberania e segurança alimentar na contemporaneidade.

A campanha #EngenhoéPatrimônio segue em Julho com atividades no município de Garopaba e diversas regiões de Florianópolis e pretende encerrar em dezembro com um grande encontro entre todas as comunidades e parceiros envolvidos. A proposta de registro também deve ser protocolada no IPHAN, FCC e órgãos municipais ainda em 2018.

#engenhoépatrimônio

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A presidente da Fundação de Cultura de Bombinhas Nívea Maria da Silva Bücker tinha acabado de colocar algumas bananas na chapa quente do fogão a lenha quando dona Rosa Dias, 77 anos, chegou ao Engenho do Miminho, no bairro José Amândio. Todo mundo parou para cumprimentá-la, abraçá-la, escutá-la. Dona de um dos engenhos mais antigos e ativos do município, ela era a convidada de honra para a oficina de Inventários Participativos que o Ponto de Cultura facilitou durante a 16ª Semana dos Museus de Bombinhas, na última quinta, 17 de maio. Mesmo com dor nas costas por ter ficado colhendo café no dia anterior e com pouco tempo para participar – tinha uma sessão de fisioterapia agendada ainda naquela tarde – veio compartilhar histórias e causos do tempo em que o “povo não tinha medo de plantar nem de fazer bastante farinha”, dos carros de boi, das redes cheias em pescarias fartas.

O objetivo da oficina era reunir mestres e mestras de engenho para fazer um levantamento dos bens culturais – saberes, lugares, ofícios, celebrações – relacionados aos engenhos para iniciar o processo de inventariamento necessário para pedir o registro dos engenhos como patrimônio cultural imaterial junto ao IPHAN, objetivo do projeto PdC 2.0, que conta com apoio da Secretaria de Estado de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer (SOL). Além disso, realizar um mapeamento desses engenhos, visando à construção de um mapa cultural financiado pelo edital Elisabete Anderle de apoio à cultura. Chegando ao Engenho do Miminho, a surpresa foi encontrar uma turma de estudantes do ensino médio profissionalizante em Hospedagem da Escola Estadual Maria Rita Flor, que assistiam à palestra sobre Patrimônio Cultural Imaterial e Economia Civil ministrada pelo professor Jorge Braun Neto (UDESC). Após a palestra, na troca com a turma, a coordenadora do Ponto de Cultura Gabriella Pieroni logo estabeleceu uma parceria com os estudantes, para que eles também colaborem na coleta de informações e documentação sobre os engenhos na região, tornando ainda mais participativo o processo do inventário.

Na parte da tarde, a equipe do PdC fez uma dinâmica para trabalhar as categorias de patrimônio imaterial do IPHAN, como lugares, saberes, celebrações, com a equipe da Fundação de Cultura de Bombinhas. Com a chegada de dona Rosa, junto com  Rosane Luchtemberg, guardiã do Engenho do Sertão, começou o mapeamento dos engenhos de farinha da península de Bombinhas. Pesquisadoras da cultura de engenho de longa data, Rosane e Márcia Cristina Ferreira, assessora de comunicação da Fundação, já haviam listado 12 engenhos, sendo 6 deles ainda em atividade e outros 6 como espaços culturais, de memória ou desmontados. Unindo informações das pesquisas da equipe da Fundação com a memória invejável de Dona Rosa, foram listados pelo menos outros 20 engenhos em Bombas, Bombinhas, Zimbros, Mariscal, Canto Grande e Sertãozinho. “Lá pra banda do Joca, tinha bem uns 15 engenhos, ali no Zimbrinho”, arrematava dona Rosa, intercalando versos de poesias com o inventariamento. Junto com a economia da farinha de mandioca, a pesca também sustentava as famílias de Bombinhas. “Em 1949 deu muita tainha, o pai falava que não sabia se arrancava mandioca ou esperava tainha. Foi uma farinhada muito gostosa, porque sempre tinha o peixe. Minha mãe escalou bastante peixe ali, porque não tinha como congelar. Se não tinha da praia, tinha o costão. Naquele tempo dava muito peixe, agora cabou-se. Nossa praia cabou-se. Aquele peixinho de rede de arrasto acabou tudo. Dava uma dó”, recordava a mestra engenheira.

Além dos fatores comumente atribuídos ao declínio dos engenhos de farinha, como o endurecimento das restrições sanitárias à produção artesanal, Nívea Maria Bücker, presidente da Fundação de Cultura, fala sobre uma “crise de identidade” da população de agricultores-pescadores do município que chegou junto com o aumento do turismo e especulação imobiliária a partir dos anos 1980-1990. “Isso levou o pessoal a vender terrenos, inclusive na beira da praia. Achavam que ser pescador, ser agricultor era feio. O do outro era melhor, então quero ser igual ao outro. De uns anos pra cá, há um processo contrário. Pessoas mais jovens que estão vendo que sua identidade tradicional é importante, entram no engenho e isso remete à infância, à família, estão querendo comprar engenhos. A partir do momento que alguém diz pra eles que isso é importante, passa a ter mudança. Turismo também pode ser chave pra família ver importância de manter aquele patrimônio”, afirma.

Na perspectiva de valorização do patrimônio cultural dos engenhos de farinha, a Fundação de Cultura de Bombinhas já tomou passos importantes. Um deles é a própria restauração do Engenho do Miminho, remontado nos altos do bairro José Amândio respeitando suas características originais. Inaugurado no final de 2017 como engenho comunitário, vem abrigando atividades culturais e envolvendo a comunidade nas memórias do município. Bombinhas também tem políticas públicas de reconhecimento de mestres e mestras de saberes tradicionais, incluindo os de engenho. Além disso, têm um programa de compra de mandioca de outros municípios para fornecer matéria-prima para as farinhadas.

Isso porque, além da atividade dos engenhos, também caiu a quantidade de áreas para cultivo de mandioca nos municípios. Seja pela divisão entre as famílias, pela especulação imobiliária ou pela legislação ambiental que proíbe a abertura de roças nos morros – antes as melhores terras para agricultura, hoje Áreas de Preservação Ambiental – o caráter rural de Bombinhas foi sendo apagado dos mapas do município, inclusive do Plano Diretor. Assim como no caso de Imbituba, o Plano Diretor de Bombinhas não tem áreas rurais. Nas conversas durante a oficina e na rodada de campo feita pela equipe do PdC, contudo, percebe-se que o cultivo de mandioca continua vivo no município.

As oficinas de Inventário Participativo continuam ao longo de 2018, sendo realizadas também em Florianópolis, Imbituba e Garopaba. Com o levantamento de material no processo de inventariamento, o objetivo é pedir o registro dos engenhos de farinha de Santa Catarina como patrimônio cultural do Brasil. Uma das estratégias de mobilização das comunidades é a campanha #engenhoépatrimônio, que busca estimular a valorização e reconhecimento dos Engenhos de Farinha.

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