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Archive for the ‘Ponto de Cultura’ Category

Na última terça, 14 de maio, a Rede Catarinense de Engenhos de Farinha deu um importante passo para a salvaguarda cultural dos engenhos de farinha, entregando ao IPHAN, à Fundação Catarinense de Cultura e à Fundação Franklin Cascaes a proposta de registro dos “Saberes e Práticas tradicionais associados aos Engenhos de Farinha de Santa Catarina” como Patrimônio Cultural brasileiro, catarinense e florianopolitano. A entrega foi dividida em duas solenidades: para o IPHAN e a FCC, a ceriônia foi no Palácio Cruz e Sousa; enquanto para a Franklin Cascaes foi na Câmara de Vereadores de Florianópolis, durante sessão especial de abertura da temporada do feitio artesanal da farinha de mandioca com  homenagem às mestras e mestres de engenho. Agora, cabe a cada uma das instituições – IPHAN, FCC e Franklin Cascaes – dar encaminhamento à proposta, assinada por cinco instituições: o Cepagro, a Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI), o Instituto BoiMamão (Bombinhas), a Associação de Moradores de Santo Antônio de Lisboa (AMSAL)e o Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC. O registro dos Saberes e Práticas tradicionais associados aos Engenhos de Farinha de Santa Catarina busca o reconhecimento e proteção legal desta tradição que se atualiza há mais de dois séculos em Santa Catarina e se encontra ameaçada por restrições sanitárias e ambientais, especulação imobiliária e  modelos excludentes de desenvolvimento territorial.

No Palácio Cruz e Sousa, a mediação da cerimônia ficou a cargo de Francisco do Vale Pereira, do NEA, que valorizou “a garra e a vontade [ das famílias dos engenhos ] de manter algo que está na alma das pessoas”, ressaltando que “a farinha como a nossa, só nós fazemos”. Compondo a mesa estavam: Manuela Braganholo (Rede/Cepagro), Rosane Luchtemberg (Instituto BoiMamão), Marlene Borges (ACORDI) e Catarina Gelsleuchter (Angelina).

 

Rosane, que há mais de 20 anos trabalha pela valorização dos engenhos em Bombinhas, mantendo o Museu Comunitário Engenho do Sertão contou como neste município “num primeiro mapeamento que fizemos, ainda na década de 90, havia 9 engenhos ativos”. Dez anos depois, esse número aumentou para 15. Hoje, são treze engenhos que se mantêm vivos em Bombinhas.

Marlene Borges e Catarina Gelsleuchter apresentaram a justificativa e fundamentação da proposta.

 

A superintendente do IPHAN em Santa Catarina, Liliane Janine Nizzola, afirmou que “os engenhos têm muito a contribuir, pois a Rede é um exemplo de agregação. Trabalhar em Rede é fundamental quando se fala em patrimônio imaterial”.

Já a presidente da FCC, Ana Lúcia Coutinho – que trouxe várias memórias da infância vivida nos engenhos de farinha de Biguaçu – falou sobre a importância dos engenhos enquanto produção cultural e também econômica. “Essa proposta mostra que não é só o conhecimento acadêmico que valoriza um patrimônio, mas também o desejo comunitário e social”. Santa Catarina possui já 7 registros concluídos de patrimônio cultural imaterial, e há outros dois processos tramitando: a procissão dos Navegantes (no município de Navegantes) e o dialeto microrregional da larfiagem, em Herval Velho. A proposta dos engenhos vêm somar-se a esses dois outros processos.

 

A proposta de registro dos engenhos como patrimônio cultural – que envolve uma vasta documentação histórica em texto, foto e audiovisual – é resultado de um trabalho de mobilização comunitária e pesquisa de mais de sete anos. A documentação foi levantada entre os membros da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha, composta por comunidades engenheiras, entidades da sociedade civil e pesquisadores de seis municípios catarinenses: Bombinhas, Florianópolis, Angelina, Palhoça, Imbituba e Garopaba. Desde 2012, a articulação vem realizando ações com foco na preservação do patrimônio cultural e agroalimentar destes Engenhos de Farinha baseadas na política de preservação patrimônio cultural imaterial do IPHAN.

Na Câmara Municipal, a sessão solene dedicada aos engenhos foi proposta pelo vereador Marcos José de Abreu, que disse “Em tempos de cortes para educação, é louvável conhecer, preservar e praticar nossa cultura, o saber fazer a partir das tradições e o acúmulo histórico”, citando Paulo Freire. Para Marquito, “esse ato representa que temos história, cultura e um tecido social que as sustentam”.

Foram entregues 32 homenagens na Câmara a mestras e mestres de engenhos, além de pesquisadores/as, chefs de cozinha e ativistas que lutam pela preservação do patrimônio agroalimentar e cultural dos engenhos. Quatorze vereadores manifestaram-se na tribuna durante a sessão – uma das mais estendidas da história da Casa, segundo alguns funcionários – todos enfatizando a relevância dos engenhos para a cultura da cidade. Marquito ressaltou, entretanto, que a cultura dos engenhos continua presente, os engenhos continuam vivos e “precisamos levar isso em conta quando discutimos zoneamento urbano, ocupação do território e políticas para educação”.

Cláudio Andrade, proprietário do Casarão e Engenho dos Andrade, apresentou a proposta de registro da Rede na tribuna, representando os engenhos do Norte da Ilha.

Ataíde Silva, liderança comunitária do Campeche, representou os engenhos do sul da ilha e leu a justificativa da proposta, lembrando que “a cultura dos engenhos é territorial, precisa de espaço para o cultivo da mandioca”. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Francisco do Vale Pereira, do NEA, enfatizou na Câmara que “mais importante que reconhecer o patrimônio cultural é garantir a salvaguarda e continuidade das práticas tradicionais dos engenhos”. Francisco é filho do professor Nereu do Vale Pereira, uma das principais referências históricas quando se fala em pesquisa sobre engenhos de farinha. E foram eles, junto com Cláudio e Fausto Andrade (engenheiros de Santo Antônio de Lisboa), que entregaram a proposta de registro à Fundação Franklin Cascaes.                    .

“Se a Prefeitura recebe um pedido desses da sociedade civil, é porque tem muita relevância. Agora é nossa responsabilidade encaminhar o processo, para que os engenhos tenham a salvaguarda, o reconhecimento e o respeito que merecem”, disse Roseli Pereira, Superintendente da Fundação Franklin Cascaes. Florianópolis já possui três registros de Patrimônio Cultural Imaterial: a Festa do Senhor dos Passos, a Festa do Divino e o Terno de Reis. De acordo com Roseli, está sendo encaminhado o pedido de registro do Boi de Mamão. Nacionalmente, a Fundação Franklin Cascaes pediu o registro ao IPHAN da renda de bilro. O segundo processo neste nível encaminhado pela Fundação será agora o dos engenhos.

Na plateia, entre as mestras e mestres de engenhos, muita emoção e satisfação. Maria Aparecida Andrade, a Dinha, era só agradecimentos: “Muito obrigada por fazer ecoar nossa voz”.

Vereadores/as, homenageados/as e a Rede Catarinense de Engenhos de Farinha

 

Para dar mais colorido e sabor ao cerimonial, não podia faltar um café com quitutes de engenho preparado pelos chefs Slow Food Fabiano Gregório e Philippe Belettini.

 

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Famílias engenheiras de farinha de Florianópolis, Garopaba, Imbituba, Angelina e Bombinhas estiveram reunidas na capital catarinense, nos dias 14 e 15 de abril, para o Encontro #EngenhoéPatrimônio. O evento selou um processo de dois anos do qual várias famílias engenheiras participaram junto à Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e que prevê registrar os Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural.

Através do Projeto Pondo de Cultura 2.0: articulação em rede, apoiado pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (SOL), foram realizadas oficinas de Educação Patrimonial facilitadas pela educadora Giselle Miotto e pela Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Como fruto das oficinas, foi elaborado o Inventário Participativo dos Engenhos de Farinha do Litoral Catarinense, que apresenta os bens culturais relacionados aos engenhos e a identificação das comunidades com eles. Além disso, a Rede também contou com apoio do edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura para promover atividades que geraram o livro Comida de Engenho e do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC, lançados durante o Encontro.

O evento iniciou no domingo, no caloroso Engenho do Beto Andrade, em Santo Antônio de Lisboa. Em meio a forno, prensa, cocho e tipitis, as famílias se aconchegaram para assistir ao documentário #EngenhoéPatrimônio, produzido pelo Cepagro a partir de depoimentos coletados durante as oficinas de Educação Patrimonial. A tarde seguiu animada pelo giro do boi e cheiro da farinha torrando no forno.

José Roberto de Andrade, o Beto, herdou a tradição farinheira dos bisavós e pretende repassar esses saberes para as próximas gerações. “Não podemos deixar essa cultura morrer. Um lugar sem tradição é um lugar morto e nós não queremos que esse lugar nosso seja morto, têm muitas histórias bonitas para contar”, diz Beto. No fim do dia, com o forno ainda quente após a torra da farinha, foi a hora de fazer beiju. 

A programação de segunda-feira foi aberta ao público e começou com uma roda de conversa sobre o Patrimônio Cultural dos Engenhos, no Hotel SESC Cacupé. Participaram as famílias e equipe da Rede, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), na presença da educadora Carla Cruz, e da professora Caroline Celle Waltrick, da E.E.B Maria Rita Flor, de Bombinhas. Estiveram presentes também representantes da Epagri, SESC, Núcleo de Estudos Açorianos, da Fundação Catarinense de Cultura, da Fundação Municipal de Cultura Franklin Cascaes e da Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas .

Carla Cruz iniciou sua fala frisando a importância da participação social e demonstrou como as oficinas e encontros realizados pela Rede/Cepagro possibilitaram o fortalecimento de laços entre as famílias e admiradores da cultura do engenho. Ela acredita que esses laços fortalecidos são mais eficazes na hora de pressionar o poder público. Cultura é identificação, segundo Carla, e patrimônio é vida: “O que o estado chama de patrimônio, nós chamamos de vida. Iniciativas como essa são como água e terra fértil que vão germinando novas sementes”.

A também educadora Caroline Waltrick, professora da Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, de Bombinhas, provou que as sementes da cultura do engenho já germinaram. Ela esteve presente na primeira oficina de Educação Patrimonial da Rede em Bombinhas e trabalhou o tema com seus alunos. A partir de visitas aos engenhos e conversas com mestres e mestras, os (as) estudantes contribuíram com o levantamento de bens culturais para o inventário. Carol contou que os jovens se empolgaram com a atividade e se envolveram a ponto de aprender a fazer receitas como o beiju. Alguns deles estiveram presentes no Encontro e demonstraram total apoio a preservação dessa cultura, ressaltando sua importância inclusiva para quem não é catarinense.

O debate enriqueceu com as contribuições do público, como a sugestão da guia de turismo Claudete Medeiros, de se trabalhar o turismo de base comunitária com os engenhos, como uma alternativa econômica para as comunidades. Marlene Borges, da Associação Comunitária Rural de Imbituba, também se pronunciou ao lembrar que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontou que a mandioca é um alimento com “grande potencial” e pode se transformar no principal cultivo do século 21 se for realizado um modelo de produção sustentável.

Depois da roda de conversa, o vereador Marcos José de Abreu, o Marquito (PSOL) fez uma fala sobre a questão territorial em Florianópolis. Marquito disse que segundo o censo agropecuário do IBGE de 2017, existem em Florianópolis 212 estabelecimentos rurais. Apesar disso, apenas duas regiões da ilha são consideradas áreas rurais. A cobrança de impostos sobre áreas rurais e urbanas é diferente e seu mandato está elaborando um decreto que regulamenta o pedido de isenção de impostos para áreas que na prática são rurais. 

Nas oficinas da Rede já havia sido identificado que um dos fatores que comprometem a manutenção da cultura farinheira é o fato de não haver aspectos legais que garantam a terra para o plantio, de acordo com o Plano Diretor de alguns municípios, como é o caso de Florianópolis e Garopaba. Sem terra não tem roça, sem roça não tem mandioca e sem mandioca não tem farinha.

Ao final da tarde, a turma seguiu para o Engenho do SESC Cacupé para o lançamento do livro Comida de Engenho que traz receitas tradicionais de engenhos de farinha, além de histórias das famílias que abriram suas casas e compartilharam seus saberes durante as Oficinas Gastronômicas.  O livro pode ser adquirido mediante contribuição espontânea entrando em contato pelo e-mail comunicacao@cepagro.org.br. O dinheiro vai para o caixa da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha.

O encontro ainda terminou com um delicioso café regado a beiju, bijajica e bolo de mandioca, feito pelo cozinheiro Fabiano Gregório, do Movimento Slow Food.

 

 

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Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e o Cepagro têm o prazer de convidar a todos e todas que se interessam por patrimônio cultural, cultura popular e gastronomia para o encontro #EngenhoÉPatrimônio, que acontece no dia 15 de abril (2ª feira), das 9h às 16h, no Hotel SESC Cacupé. Na programação, haverá uma roda de conversa sobre o Patrimônio Cultural dos Engenhos com a participação das famílias e equipe da Rede, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Também serão lançados o livro Comida de Engenho e que traz receitas tradicionais de engenhos de farinha; além do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC, ambas publicações apoiadas pelo Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura de 2017. Destaque para a apresentação do mini-doc #EngenhoÉPatrimônio, produzido pelo Cepagro, e do Inventário Cultural dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina, que traz um panorama sobre os bens culturais relacionados aos engenhos e sua importância para as comunidades. O Inventário foi construído de forma participativa com as comunidades, que integraram oficinas de educação patrimonial promovidas pela Rede em Bombinhas, Florianópolis, Imbituba e Garopaba. A iniciativa teve apoio da Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura.

O evento é gratuito, as inscrições podem ser feitas pelo email engenhosdefarinha@cepagro.org.br ou no telefone  (48) 99172-3841 (com Karina).

A Rede Catarinense de Engenhos de Farinha reúne famílias que mantêm ou trabalham em engenhos, junto com agentes públicos, pesquisadores/as, cozinheiros/as, educadores/as e ativistas pela preservação de seu patrimônio agroalimentar e cultural. Para saber mais, siga nossa página no Facebook: www.facebook.com/RedeCatarinensedeEngenhosDeFarinha

 PROGRAMAÇÃO #EngenhoÉPatrimônio

9h – 11h Auditório
Hotel Sesc Cacupé
ABERTURA
Mesa redonda: #EngenhoÉPatrimônio: educação patrimonial nos engenhos de farinha catarinenses – IPHAN, Cepagro, representante dos engenhos
11h – 11h30 Apresentação do mini-doc #EngenhoÉPatrimônio
12h – 13h30 Restaurante Sesc Cacupé Almoço
13h30 – 14h Engenho do SESC CACUPÉ Apresentação do Inventário Cultural dos Engenhos de Farinha de SC
14h – 14h30 Engenhos no território catarinense e lançamento do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC (possibilidade participação vereador Marquito)

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Mapeamento realizado pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha identificou pelo menos 23 engenhos artesanais de farinha ativos na região

As rotinas de trabalho, as brincadeiras e a fartura dos engenhos de farinha e ranchos de pesca foram relembradas no último domingo, 9 de dezembro, durante a Oficina Mapeando os Engenhos de Farinha realizada na Associação Comunitária Rural de Imbituba, a ACORDI. Na atividade, promovida pela ONG Cepagro através de um projeto apoiado pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (SOL), participaram agricultoras, agricultores e proprietários de engenhos da região. O objetivo foi mapear os engenhos ainda existentes e também levantar informações sobre o patrimônio cultural ligado a eles, fortalecendo a Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e complementando os mapeamentos já realizados em Florianópolis, Bombinhas e Garopaba.

“Quando começava a farinhada, era como abrir as portas de uma festa”, recorda Luís Farias, da ACORDI. A temporada de produção artesanal de farinha – as farinhadas ­-, que começa perto de maio e estende-se até agosto, representava a reunião de vizinhos e familiares para o trabalho coletivo de arrancar e descascar a mandioca, colaborar na seva, prensar e torrar a farinha. Tudo envolto em brincadeiras, versinhos irônicos (chamados pasquim) e fartura: além da farinha, saía muito beijú, cuscuz, bijajica, mané pança, além das colheitas de batata doce e milho. “Também dava muito namoro nas farinhadas”, completa Luís Farias.

A industrialização da produção de farinha e o recrudescimento da legislação sanitária para ela contribuíram para que muitos engenhos artesanais fossem fechados. Entretanto, durante as atividades da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha, percebe-se que os engenhos seguem vivos e ativos. No mapeamento realizado em Imbituba, foram identificados pelo menos 23 engenhos que continuam produzindo mandioca artesanalmente. A Rede também já mapeou engenhos em Bombinhas, Florianópolis e Garopaba, mostrando que esta cultura segue pulsante no litoral catarinense.

Ainda assim, muitos dos saberes relacionados aos engenhos estão desaparecendo. “A técnica de fazer um fuso ou uma prensa de madeira está se perdendo”, afirma Marlene Borges, também da ACORDI. Aroldo dos Reis Carvalho, que tem um engenho em Imbituba, conta que “Eu aprendi a tirar o ponto da farinha com a minha mãe. Colocava na boca e sentia se tava estralando. Mas vou repassar isso pra quem?”. Neste sentido, o levantamento sobre os bens culturais dos engenhos – suas celebrações, saberes, mestres, objetos – revela-se importante para sua salvaguarda como patrimônio cultural de Santa Catarina e do Brasil. Além disso, a sensibilização da juventude na preservação deste patrimônio é peça fundamental.

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Representações de sete engenhos de farinha de Garopaba participaram da Oficina de Educação Patrimonial realizada pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e Centro de Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), no dia 25 de novembro no Engenho da Vó Cicina, na Lagoa da Encantada  A ação foi feita através do Projeto Ponto de Cultura 2.0: articulação em rede, com a facilitação da educadora Giselle Miotto e da Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Ao longo de um dia de muita prosa e reflexões, as famílias presentes fizeram um levantamento dos bens culturais relacionados aos engenhos de farinha da região.

A oficina é continuação do mapeamento dos engenhos de farinha artesanais de Garopaba iniciado através do edital Elisabete Anderle, que buscou identificar e mobilizar os engenhos da região para compor a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha. Nessa primeira ação,realizada ao longo de três dias no início de novembro,houve a participação de três agentes locais: Luis Fernando, da comunidade do Macacu, Maria Cristina Gomes, estudante de educação patrimonial pelo IFSC e Claudete Medeiros, do coletivo Taiá Terra. Além de mapear 28 engenhos de farinha na cidade, foi possível conhecer  um pouco da realidade destes engenhos dentro do aspecto produtivo e de intenção de manutenção dos mesmos, seja desenvolvendo atividades vinculadas ao turismo ou mesmo como forma de preservação da cultura e subsistência.

Na dia 25, além de levantar os bens culturais, a comunidade também discutiu sobre as principais dificuldades que eles enfrentam para manter os engenhos de pé e funcionando. Na visão dos engenheirxs, o fator que mais compromete a manutenção desta cultura é o fato de não haver dentro do município aspectos legais que garantam a terra para o plantio, em relação ao Plano Diretor, onde as áreas rurais ficaram reduzidas comparada com a realidade, e até mesmo a questão de impostos. Como eles mesmo colocaram:  “Sem roça, não tem mandioca, sem mandioca, não tem farinha”.

Segundo José Antônio Furtado, o Zezinho, que trabalha no engenho construído por seu pai há 69 anos e faz parte do Conselho de Agricultura do município, “Hoje é tudo lote, não tem mais terra”. A resistência que ele e os outros engenheirxs da região fazem é principalmente contra a especulação imobiliária e a mega-projetos que preveem a expropriação de terra dos agricultores e causam grandes impactos socioambientais para o território.

Luís Fernando conta que os agricultores não têm sido informados adequadamente de onde eles podem ou não plantar. Disse ainda que a fiscalização no município é inadequada e que há um tratamento diferente para aqueles com poder aquisitivo maior. Manoel João Pereira, pescador e lavrador do Capão, se pergunta o porquê de não poder plantar sua roça, enquanto aqueles que têm interesse em construir, conseguem a liberação para “vir com uma máquina e arrancar tudo”. Ele mantém o engenho do pai funcionando desde a década de 1970.

O que move a resistência destes engenhos é principalmente a manutenção da tradição e da sua cultura. Dona Santina, que é forneira, coisa rara para uma mulher no mundo dos engenhos, ama ficar no engenho, tratar o gado e manter a cultura herdada da família: “se me diz pra fazer outra coisa eu não quero”. Além da preservação da cultura, a manutenção dos engenhos pode vir a se tornar um atrativo turístico para a região. Mariana, neta da Vó Cicina, fez um curso de guia de turismo e não quer perder as raízes. Ela teve o privilégio de receber turistas no engenho da família, com direito a café colonial, e vê grande potencial na valorização do turismo de base comunitária.

Estas atividades envolvendo a comunidade local fortalecem a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha, para que seja possível levar estas questões ao poder público local. Elas também vêm somar à campanha #EngenhoéPatrimonio, que busca mobilizar a sociedade civil e iniciativas do terceiro setor para propor o registro dos engenhos de farinha artesanais do litoral catarinense como patrimônio cultural imaterial reconhecido pelo IPHAN.

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Buscando engajar comunidades e gerações diversas no processo de Inventário Participativo dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina, a equipe da Rede Catarinense de Engenhos/Cepagro esteve na última quarta (8 de agosto) na Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, em Bombinhas, para conversar com estudantes do 2º ano do Ensino Médio sobre a aventura de levantar os bens culturais relacionados aos engenhos da região. Conceitos como bens culturais, patrimônio e inventário foram dialogados com as/os estudantes de forma descontraída e afetuosa pela  agrônoma Karina de Lorenzi e a educadora Giselle Miotto. A mini-oficina faz parte do projeto PdC 2.0: estratégias em rede, que, através de atividades e vivências de educação patrimonial, tem o objetivo de criar um dossiê sobre os engenhos de farinha do litoral catarinense, material que pode embasar o pedido do registro destes como Patrimônio Cultural junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O projeto tem apoio da Secretaria de Estado de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer (SOL).

A ideia de trabalhar com os/as adolescentes surgiu durante a primeira oficina de Inventário Participativo do projeto em Bombinhas, realizado em maio deste ano no Engenho Comunitário do Miminho, revitalizado pela Fundação Municipal de Cultura. Com orientação das professoras Maria José de Melo Mafra e Eliane Pereira (História) e Caroline Floriano (Artes), a juventude irá visitar os engenhos, conversar com mestres e mestras, levantar seus bens culturais e produzir apresentações em diversos formatos. De acordo com a professora Eliane Pereira, na disciplina de Marketing (integrante do currículo profissionalizante em Hospedagem integrado ao Ensino Médio) as turmas vêm desenvolvendo jornais, sendo que dois grupos já se interessaram pela pauta dos engenhos para suas publicações. A estudante Ariel Gonçalves, de 17 anos, propôs que seja feita uma homenagem a engenheiros e engenheiras no final do ano. “Já fizemos isso com os pescadores, poderíamos fazer com os mestres e mestras dos engenhos”, disse a jovem. A jornalista da Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas, Márcia Ferreira, também vai colaborar na iniciativa, pois já trabalha há alguns anos com o registro e produção de materiais sobre o Patrimônio Cultural Imaterial de Bombinhas.

Ao trabalho na EEB Maria Rita Flor somam-se outras ações de educação patrimonial para construção do Inventário Participativo dos engenhos, como oficinas de mapeamento e preparação de receitas, a produção de spots audiovisuais #EngenhoÉPatrimônio e as rodas de conversa animadas pelo documentário Cultura de Engenho. Haverá oficinas também em Garopaba, Imbituba e Florianópolis. Através de metodologias e linguagens diversas, a Rede vai tecendo entendimentos com as comunidades sobre a importância cultural e afetiva do Patrimônio Cultural Imaterial, que vão muito além da chancela estatal. Como disse Carla Cruz, do IPHAN, durante uma das atividades da Rede em fevereiro de 2017, “Patrimônio Cultural tem a ver com resistência”.

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O Encontro contou com apoio da Prefeitura de Angelina e também do mandato do vereador Marquito (PSOL) para viabilizar o transporte dos/as participantes

Realizado durante a já tradicional Feira da Mandioca de Imbituba, o 5º Encontro da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha aconteceu no último domingo, 22 de julho, reunindo famílias engenheiras de Florianópolis, Angelina, Palhoça, Garopaba no engenho da ACORDI (Associação Comunitária Rural de Imbituba), cuja comunidade também participou do evento. Além de desfrutar das belas paisagens, conhecer o histórico de luta da Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira e saborear o almoço da roça, as/os participantes trocaram sementes, mudas, ramas de mandioca e aipim e claro, muitos causos, experiências e saberes.

Durante o Encontro, o pessoal da Rede também viu uma prévia do vídeo da campanha #EngenhoÉPatrimônio, que reúne história e memórias de quem viveu, trabalhou e brincou nos engenhos de farinha de Santa Catarina. O filme é uma das ferramentas de mobilização de comunidades para o reconhecimento dos engenhos de farinha como Patrimônio Cultural, assim como o documentário Cultura de Engenho, apresentado na noite anterior ao Encontro. Na ocasião, também foi lançada a Fortaleza Slow Food dos Engenhos de Farinha de Mandioca Polvilhada de Santa Catarina, mais uma chancela para a importância cultural e gastronômica do patrimônio agroalimentar ligado aos Engenhos.

Seu Neim, forneiro oficinal da ACORDI, confere as variedades de mandioca, aipim e macaxeira trazidas pra troca

Mas o ponto alto do Encontro foi a troca de ramas, com 11 variedades de aipim, mandioca e macaxeira de várias localidades – até mesmo da Amazônia – circulando entre dezenas de famílias, além de sementes crioulas de milho. “A troca de ramas acho que é algo tão interessante quanto a troca de ideias. Porque diversifica, enriquece”, avalia a agricultora Catarina Gelsleuchter, que veio de Angelina a Imbituba com outras 14 pessoas para participar do Encontro. Algumas variedades, como a Mandioca Broto Roxo e a Macula, já tinham desaparecido dos Areais da Ribanceira e foram resgatadas com outras famílias agricultoras pela agrônoma-agricultora Marlene  Borges, associada da ACORDI. “A perda do território também foi responsável por uma erosão genética”, explica Marlene, referindo-se ao despejo de famílias da comunidade por empresas privadas, que com a conivência do governo do Estado, “compraram” as terras tradicionalmente ocupadas há 200 anos pelas famílias. Entre 2010 e 2016, de acordo com Marlene, as variedades de mandioca e aipim no território tradicional dos Areais caiu de 45 para 5. “Essa troca então foi muito legal, minha coleção vai aumentar. E o importante é distribuir as ramas  pra outras pessoas, pra não se perder”, afirma.

Marlene Borges, da ACORDI, fala sobre o histórico de luta e resistência dos Areais da Ribanceira

A participação das famílias engenheiras de outros municípios no maior evento da ACORDI, a Feira da Mandioca, fortalece a luta da comunidade. “Foi um encontro muito bonito, foi além das minhas expectativas. Não pensei que tantas pessoas prestigiassem a Feira da Mandioca, vi muitas pessoas interessadas”, conta Catarina ao participar pela primeira vez da Feira, que neste ano chegou a reunir cerca de 3 mil pessoas nos três dias de programação. No mês passado, a Feira da Mandioca recebeu o Prêmio Boas Práticas em Sistemas Agrícolas Tradicionais, concedido pelo  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Embrapa e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU). A premiação financeira, no valor de R$ 70 mil reais, será usada para terminar a construção do Engenho da ACORDI, que desde 2010 simboliza a luta e a resistência desta comunidade tradicional na defesa de seu território. “Mas esse valor é pequeno perto do que foi o reconhecimento nacional e inclusive do potencial que temos para fazer o registro mundial deste sistema, conforme nos disseram”, conta Marlene. “Estar no mesmo patamar de pessoas como as quebradeiras de coco, com todo seu histórico de luta, foi louvável”, completa. A ACORDI ficou em 4º lugar na premiação do BNDES/IPHAN/FAO, que também laureou outros 2 sistemas agrícolas tradicionais de Santa Catarina: a Roça de Toco (Biguaçu) e a Cadeia Produtiva do Pinhão (Planalto Serrano). Todas estas iniciativas pretendem se encontrar em agosto deste ano para planejar uma articulação das comunidades tradicionais catarinenses.

A agricultora Rosa Nascimento, de Palhoça, levou 2 variedades de aipim e 1 de mandioca para plantar na sua comunidade, as Três Barras.

Pelo lado dos Engenhos, as atividades da Rede seguem no próximo sábado, 28 de julho, com a oficina MAPEANDO ENGENHOS DE FARINHA, no Salão Comunitário do Sertão do Peri, mais uma ação contemplada no Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura.

 

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