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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

 

No último dia 02 de Julho, a caravana #EngenhoéPatrimônio chegou à Garopaba, para comprovar que lá não é apenas terra de belas praias e incríveis ondas mas de ambientes rurais que guardam a arte “engenheira” e ofertam muito peixe com farinha! A mobilização para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural segue guiada pelo cheiro das farinhadas que estão a todo vapor.

A caminho de Garopaba passamos pela comunidade das Três Barras para visitar umas das famílias fundadoras do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, que foi inaugurado ali, no Engenho das Três Irmãs, em 2010. Tivemos a grata surpresa de encontrar Inácia, Maura, Rosa e João reunidos com dois fornos acesos, o da farinha e o do beiju. Em pleno  jogo da seleção brasileira contra o México na copa do mundo a família priorizava o ritual da farinhada no engenho mostrando que as referências culturais do brasileiro estão para além do futebol.

Adentrando as estradas de terra do litoral e chegando à comunidade do Macacu, avistamos um rapaz conduzindo um carro de boi que transportava a lenha que serviria de combustível para uma farinhada que também estava ocorrendo no Siriú. Era Júnior, jovem que participou do III Encontro da Rede de Engenhos, ocorrido na Costa do Macacú em 2017. Além da lenha, Júnior transportava quem passava na estrada ao “tempo dos carros de boi” que, como vimos, não podemos dar por acabado.

A ideia da perda das tradições e de que “os engenhos se acabaram”, está deixando de ser destaque na fala das famílias engenheiras. A cada ano, observa-se mais e mais engenhos sendo remontados e novamente ativados com a principal motivação da vivência familiar e da autonomia alimentar, gerando produtos saudáveis, de qualidade e sabor inigualáveis.

A dimensão patrimonial dos engenhos de farinha se impõe de forma viva e tocante quando encontramos pelo caminho engenhos antes desconhecidos com famílias inteiras reunidas na lida da roda de raspagem, como visto neste mês de Julho de 2018, na Costa do Macacu. Crianças, adultos e anciãos, cada qual com sua faca na mão, agachados no chão do Engenho, debruçados sobre um grande monte de mandiocas, arrancadas de roças dali mesmo. Estas roças são acessadas por caminhos que dão até o morro, espaços de trabalho onde se pode desfrutar também de uma paisagem cultural que agrega criação de animais e pequenas lavouras às dunas, mares e restingas características da região.

No Macacu, área rural de Garopaba, visitamos quatro engenhos, que estava em plenos mutirões familiares e/ou comunitários para o feitio artesanal da farinha, as farinhadas. Nessas oportunidades de encontro, pudemos realizar conversas sobre o andamento da proposta de Registro como patrimônio imateiral, bem como apresentar  as anuências dos detentores desse patrimônio agroalimentar para serem circuladas entre os membros das famílias, envolvendo todos neste processo de mobilização.

No centro de Garopaba, realizamos uma importante conversa com o Coordenador de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do município, Marcus Vinicius Israel, que compõe as parcerias institucionais da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. Tratamos da colaboração da Prefeitura de Garopaba à proposta de Registro dos Engenhos como patrimônio imaterial e de traçamos possibilidades de parceria em diversas ações com foco cultural como mapeamentos, intercâmbios, exibições de audiovisual, mobilizações e produção de materiais.

Outra importante parceria neste município é a professora Juliani Brignol Walotek, do IFSC, historiadora e agente cultural na elaboração do Inventário Participativo da Rede de Engenhos. Juliani vem trabalhando o tema da educação patrimonial com suas turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), de Guia de Turismo, bem como nas formações de Condutores Ambientais. Ela irá facilitar a colaboração dos alunos no inventário através de oficinas em parceria com o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha.

Para fechar o intenso dia de atividades foi exibido o documentário “Cultura de Engenho: patrimônio e resistência” no auditório do IFSC Garopaba, para as turmas da professora Juliani e professor Carlos também historiador. O documentário foi produzido pela Vagaluzes Filmes para servir de ferramenta ao processo de Registro. Após a exibição houve uma calorosa roda de conversa que se estendeu na noite trazendo emocionados depoimentos de pessoas que tem engenhos de farinha como referência cultural. Diversos temas relevantes foram debatidos, com vistas à preservação dos engenhos de farinha na região, tendo o foco no turismo cultural de base comunitária e agroturismo. A equipe do Ponto de Cultura também explicou sobre o processo dos Inventários Participativos e do Registro para pedir a colaboração dos presentes, que se mostraram muito interessados. A adesão foi grande e a prosa finalizou com a certeza de que estava apenas começando.

 

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*com informações do Iphan

A ACORDI recebeu na última 2ª feira, 18 de junho, em Brasília, o Prêmio por Boas Práticas em Sistemas Agrícolas Tradicionais, concedido pelo  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Embrapa e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), com o objetivo de reconhecer boas práticas presentes nos Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) no Brasil.
Foram premiadas 15 iniciativas, sendo que a Associação Comunitária Rural de Imbituba ficou em 4º lugar. Os primeiros cinco colocados receberão o valor bruto de R$ 70 mil e os demais R$ 50 mil. Foram inscritas 58 instituições de direito privado e sem fins lucrativos, localizadas em diversas regiões brasileiras. A ação que ganhou o  primeiro lugar foi a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais (AMTR), do Lago do Junco (MA); em segundo lugar, ficou a Associação dos Produtores Rurais de Vereda, de Matias Cardoso (MG); em terceiro, a Associação dos Remanescentes de Quilombo de São Pedro, de Eldorado (SP), na quarta colocação, a Associação Comunitária Rural de Imbituba, de Imbituba (SC) e em quinto lugar, será premiado o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), dos municípios baianos de Pilão Arcado, Campo Alegre de Lourdes, Canudos, Casa Nova, Remanso, Curaçá, Sento Sé, Uauá, Sobradinho e Juazeiro.

Além do prêmio em dinheiro, os vencedores recebem capacitação da Embrapa e orientação para, caso desejem, se candidatarem a receber o título de Sistema Agrícola Tradicional Globalmente Importante (GIAHS – sigla em inglês para Globally Important Agricultural Heritage Systems,). A FAO já concedeu o título de GIAHS a 36 sistemas agrícolas tradicionais do Chile, Peru, Filipinas, China, Bangladesh, Índia, Japão, Coreia do Sul, Argélia, Irã, Marrocos, Tunísia, Emirados Árabes Unidos, Egito, Quênia, Tanzânia e México.

Areais da Ribanceira: resistência da agricultura tradicional

A Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira convive há várias décadas com um processo de desterritorialização, que elimina formas de uso comum da terra e da água, colocando em risco o grupo social e todo patrimônio imaterial acumulado ao longo das gerações. Um exemplo é a ação de reintegração de posse que o governo do Estado de Santa Catarina, está movendo contra a ACORDI, assim como vários pescadores da praia de Imbituba também estão sendo ameaçados por processos similares, movidos por empresa privada (IEP).

A essência da comunidade está no uso comum do seu território, que está diretamente ligado ao acesso aos recursos naturais. E, se isto for interrompido, interrompe-se também a reprodução cultural/social/religiosa/ancestral e econômica da comunidade, que é a principal responsável pela manutenção do ecossistema e da construção tradicional de um conjunto de conhecimentos, inovações e práticas que beneficiam toda sociedade.

Sistemas Agrícolas Tradicionais

Os povos e comunidades tradicionais possuem formas únicas de praticar a agricultura, que expressam saberes particulares, envolvendo desde o cultivo da terra até diversos outros processos simbólicos e produtivos, de maneira integrada, constituindo os chamados Sistemas Agrícolas Tradicionais.

Um SAT pode ser definido como um conjunto de elementos que inclui saberes, mitos, formas de organização social, práticas, produtos, técnicas/artefatos e outras manifestações associadas. Eles formam sistemas culturais que envolvem espaços, práticas alimentares e agroecossistemas manejados por povos e comunidades tradicionais e por agricultores familiares. Os SATs integram o patrimônio cultural imaterial das comunidades que os praticam.

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Durante o Seminário de Patrimônio Cultural que integra a 16ª Semana dos Museus em Bombinhas (SC), a equipe do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha / Cepagro facilitará uma oficina sobre Inventários Participativos nesta quinta, 17 de maio. Na sexta, 18 de maio, a partir das 14h, será exibido o documentário Cultura de Engenho: Patrimônio e Resistência, dirigido por Sandra Alves com roteiro de Gabriella Pieroni. Tudo isso no famoso Engenho do Miminho, adotado pela Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas para se tornar centro e referência cultural na comunidade.

A oficina do dia 17 acontece a partir das 10h30 e tem o objetivo de mobilizar e sensibilizar a comunidade para a importância de seu patrimônio cultural e agroalimentar por meio da construção coletiva de conhecimento sobre os Engenhos de Farinha, suas agri(culturas) e culinárias. A iniciativa faz parte de um projeto do Cepagro que conta com o apoio da Secretaria de Estado do Turismo, Cultura e Esporte de SC (SOL-SC) para realizar ao longo de 2018 diversas oficinas nas comunidades que fazem parte da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. A metodologia da oficina é uma adaptação dos Inventários Participativos,  ferramenta de educação patrimonial proposta pelo IPHAN que foi parceiro local no processo de elaboração.

As oficinas acontecerão em outros territórios catarinense, sendo articuladas por agentes culturais locais representantes dos territórios envolvidos, papel assumido em Bombinhas pela Fundação Municipal de Cultura.  O resultado das oficinas deverá compor uma exposição e um mapa cultural, além de materiais de  divulgação sobre os Engenhos de Farinha a partir do olhar de seus protagonistas. Nos próximos meses haverá também atividades práticas de culinária e visitas aos Engenhos de Farinha da região.

Na atividade do dia 18, o foco é a campanha #engenhoépatrimônio, empreendida pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. A campanha tem o intuito de mobilizar as comunidades para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural e a participação dos “engenheiros” locais, no processo participativo de elaboração de uma proposta de registro das práticas culturais associadas a estes Engenhos de Farinha, como Patrimônio Cultural do Brasil dentro da Política de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial do Iphan.

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Começa neste domingo, 20 de maio, a temporada da farinhada na Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI). O evento começa às 15h, com a exibição do documentário Cultura de Engenho: Patrimônio e Resistência, dirigido por Sandra Alves com roteiro de Gabriella Pieroni, em que a comunidade tradicional de agricultores e pescadores dos Areais da Ribanceira é uma das protagonistas. Na sequência, acontece a roda de conversa sobre a campanha #EngenhoÉPatrimônio, que busca mobilizar as comunidades para pedir o registro dos engenhos como patrimônio cultural imaterial junto ao IPHAN. “Pretendemos também refletir sobre a produção agrícola e pesqueira no território, ameaçada por um modelo de desenvolvimento que desconsidera os povos e comunidades tradicionais”, afirma Marlene Borges, uma das fundadoras da ACORDI, que tem no engenho seu principal símbolo de luta e resistência.

A Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira convive há várias décadas com um processo de desterritorialização, que elimina formas de uso comum da terra e da água, colocando em risco o grupo social e todo patrimônio imaterial acumulado ao longo das gerações. Um exemplo é a ação de reintegração de posse que o governo do Estado de Santa Catarina, está movendo contra a ACORDI, assim como vários pescadores da praia de Imbituba também estão sendo ameaçados por processos similares, movidos por empresa privada (IEP).

A essência da comunidade está no uso comum do seu território, que está diretamente ligado ao acesso aos recursos naturais. E, se isto for interrompido, interrompe-se também a reprodução cultural/social/religiosa/ancestral e econômica da comunidade, que é a principal responsável pela manutenção do ecossistema e da construção tradicional de um conjunto de conhecimentos, inovações e práticas que beneficiam toda sociedade.

A ACORDI convida então toda a comunidade para participar da Abertura da Farinhada, apoiando assim a preservação da história, da cultura e da identidade da comunidade dos Areais da Ribanceira e dos engenhos de farinha do litoral catarinense.

 

 

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Quanto custa a produção artesanal de um quilo de farinha de mandioca? Desvendar este mistério foi o objetivo da oficina de precificação realizada nos dias 2 e 3 de dezembro de 2017 no Engenho da Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI). A atividade foi o primeiro encontro da Fortaleza Slow Food Engenhos de Farinha, formada no escopo do Projeto Alimentos Bons, Limpos e Justos: ampliação e qualificação da participação da agricultura familiar brasileira no Movimento Slow Food, articulado pela UFSC com apoio da Secretaria Especial da Agricultura Familiar e em que a equipe do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha participa ativamente. A oficina foi facilitada por Andrea Fantini, professor de Marketing Agroalimentar da Universitá degli Studi di Teramo (Unite – Itália), e reuniu cerca de 20 engenheiras e engenheiros.

Questões como “Por que uma farinha do mercado custa R$ 4 e a nossa farinha custa R$ 8?” foram levantadas para perceber o diferencial da farinha artesanal ante à farinha industrial. Foram tirados encaminhamentos para a próxima oficina, como montar um calendário onde cada agricultor irá colocar o tempo investido em cada processo de produção da mandioca e beneficiamento da farinha, além de estratégias de marketing formas de comunicação mais transparentes com o mercado consumidor. “É importante que os consumidores entendam o valor não somente monetário que existe na farinha artesanal”, afirma Giselle Miotto, facilitadora na Região Sul do Movimento Slow Food.

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Livro de receitas, mapa cultural, revitalização e transmissão de conhecimentos de engenhos são as temáticas das cinco propostas aprovadas no Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura, cujo resultado foi divulgado dia 2 de agosto. Quatro das iniciativas são baseadas em Florianópolis e uma em São Francisco do Sul. A Rede Catarinense de Engenhos participará ativamente de pelo menos dois dos projetos: a edição do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha, proposta pela educadora Giselle Miotto; além do livro Saberes, Sabores e Histórias dos Engenhos de Farinha, postulado pelo Cepagro.

Contemplado na categoria Educação Patrimonial, o Mapa Cultural será o produto de um ciclo de oficinas de educação patrimonial que irão mapear os bens culturais e serviços relacionados aos engenhos da Rede. A ser publicado em versões impressa e digital, o Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha subsidiará a rede na elaboração de estratégias criativas e colaborativas de preservação e promoção desse patrimônio.

O livro Saberes, Sabores e Histórias dos Engenhos de Farinha busca valorizar e difundir o patrimônio agroalimentar e biocultural dos engenhos artesanais de farinha. Será construído a partir do reconhecimento do saber-fazer dos atores envolvidos com estas práticas, mobilizados pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. Foi aprovado na linha de Culturas Populares.

Os outros projetos aprovados foram: Os Engenhos do Sertão do Peri, Transmissão de conhecimentos tradicionais de engenho e Revitalização do Engenho de Farinha da Família Borba.

 

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texto e foto: Ana Carolina Dionísio (Cepagro)

“Cada uma dessas tábuas tem histórias de muito amor e luta”. Emocionada, a engenheira agrônoma Marlene Borges, uma das fundadoras da Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI), lembra o histórico de resistência de cerca de 100 famílias de agricultores e pescadores dos Areais da Ribanceira contra a desterritorialização promovida pela especulação imobiliária e por grandes empreendimentos chamados desenvolvimentistas. Vivendo há quase 200 anos da agricultura familiar itinerante e da pesca artesanal, a comunidade hoje luta para manter as terras das quais depende seu modo de vida, encurraladas entre o Porto de  Imbituba, loteamentos imobiliários e plantas de produção de cimento e gesso. No centro desse território em disputa está o Engenho da ACORDI, construído entre 2002 e 2004. Foi no galpão anexo a esse “espaço sagrado” – nas palavras de Marlene – que aconteceu o II Encontro da Rede de Engenhos Artesanais de Santa Catarina no domingo passado, 29 de janeiro.

O Engenho e o Galpão da ACORDI, nos Areais da Ribanceira: espaços de luta e resistência da agricultura tradicional e da pesca artesanal

O Engenho e o Galpão da ACORDI, nos Areais da Ribanceira: espaços de luta e resistência da agricultura tradicional e da pesca artesanal

O evento reuniu quase 40 famílias de agricultores e “engenheiros” de Imbituba, Garopaba, Florianópolis, Biguaçu e Palhoça, além de pesquisadores, representantes do Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC e do IPHAN/SC, além do Prefeito de Imbituba e do Superintendente da SEAPI – Secretaria de Agricultura, Pesca e Infraestrutura de Imbituba. No desenrolar das atividades, que incluiu um mapeamento participativo dos engenhos da costa sul de Santa Catarina, ressaltou-se a importância de conservar não só os engenhos em funcionamento, mas os saberes e dinâmicas agrícolas das comunidades e a agrobiodiversidade das variedades de mandioca e outros cultivos de subsistência. Ligada a esse sistema agroalimentar representado pelos engenhos está a própria identificação cultural de centenas de famílias que os mantém vivos, sejam como unidades produtivas ou espaços de memória. O próximo Encontro da Rede será em Garopaba, no final de março ou início de abril.

A facilitadora Giselle Miotto e sua ajudante, Isabelle Furtado

A facilitadora Giselle Miotto e sua ajudante, Isabelle Furtado

As atividades do dia tiveram dois momentos básicos: um diálogo sobre Patrimônio Imaterial mediado por Carla Ferreira Cruz, do IPHAN, e o mapeamento participativo dos engenhos de farinha de Santa Catarina, facilitado pela equipe do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha: Giselle Miotto, Manuela Braganholo, Flora Castellano e Alexandre Pires Lage. Para abrir o evento, o Prefeito de Imbituba, Rosenvaldo Júnior, e o Superintendente da Secretaria de Agricultura, Pesca e Infraestrutura do município, Evaldo Espevim, falaram do empenho da nova administração em “restabelecer a agricultura e a pesca em Imbituba”, ressaltando o fato de que o Plano Diretor exclui áreas rurais do município. “Mas estas atividades podem coexistir, não é preciso acabar com o campo em nome do desenvolvimento”, afirmou Espevim, que visitou, junto com Marlene, quase 40 engenhos durante a mobilização prévia ao Encontro.

Na sequência, Marlene Borges e  o agricultor Luiz Farias apresentaram a ACORDI, fundada em 2002 como uma estratégia de defesa das famílias dos Areais da Ribanceira contra sua desterritorialização: as terras que eles tradicionalmente cultivavam em uso comum haviam sido vendidas para a empresa ENGESSUL em 2000, a R$ 0,11 o metro quadrado. Com a construção do engenho e a realização da primeira Feira da Mandioca de Imbituba a partir

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Marlene Borges e Luiz Farias apresentam o histórico de reivindicações e lutas da ACORDI

de 2004, a ACORDI fincou suas raízes e passou a buscar a regularização de seus territórios. Ao longo de seus quinze anos, a Associação sofreu revezes. Cerca de 70 famílias das comunidades da Ribanceira e Vila Esperança (além de outras 130 em outras comunidades) perderam as terras em que cultivavam mandioca devido a ações de reintegração de posse a favor da Engessul em 2010, quando também tentou-se demolir o Engenho para a construção de uma estrada. Fazendo barricadas e com o abraço do movimento estudantil, eclesial e do MST, a ACORDI defendeu seu engenho e o que ainda restavam de suas terras durante um mês. “A comunidade sabe onde é seu território”, afirma Marlene, que ressalta o caráter itinerante da agricultura tradicionalmente praticada pela comunidade. Em 2013, com apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos, a ACORDI  conseguiu assessoria antropológica e jurídica para a defesa de seus direitos culturais e territoriais. A reivindicação das terras está protocolada junto ao INCRA, aguardando o laudo antropológico do órgão.

“Fica até difícil falar depois da Marlene”, reconheceu Carla Ferreira Cruz, do IPHAN. Sua fala sobre Patrimônio Imaterial corroborou a importância da mobilização comunitária que caracteriza o histórico da ACORDI e a formação da Rede de Engenhos: “Se a comunidade não se unir, o Estado não vai cuidar daquele bem a ser patrimoniado. E uma Rede é uma forma da comunidade se blindar e fortalecer. Patrimônio Cultural tem a ver com resistência”, afirmou. Contudo, independente de um título de “Patrimônio Cultural” concedido pelo Estado, as comunidades precisam apropriar-se do que querem preservar e passar para as próximas gerações: “Independente se encaminham para registro ou não, o que precisa estar claro é o que é importante para a comunidade”, explicou.

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Carla Cruz, do IPHAN: “Patrimônio Cultural tem a ver com resistência”

O processo de registro dos engenhos como patrimônio cultural imaterial já foi vislumbrado pela ACORDI como outra estratégia de resistência de sua agricultura tradicional. Carla Cruz alertou, por outro lado, que o registro seria mais um diferencial nesse processo de regularização fundiária, mas que não poderia garanti-la. “O IPHAN não tem como garantir território. Mas a chancela pode ser um capital para a articulação política na busca da regularização”, esclareceu.

Se o pedido de registro como Patrimônio Imaterial deve partir das comunidades, perceber onde estão e quantos são  esses engenhos é um passo importante. Nesse sentido é que a equipe do Ponto de Cultura promoveu durante o Encontro um mapeamento dos engenhos de farinha e de cana de açúcar na costa de Santa Catarina. Divididos em 4 grupos, os participantes vasculharam suas memórias individuais e comunitárias para colocar no papel a (r)existência desses locais tidos como extintos, inativos, mortos.

Equipe da ACORDI durante o mapeamento

Equipe da ACORDI durante o mapeamento

Só na região de Imbituba foram listados 105 engenhos. Marlene e Evaldo visitaram 39 deles para convidá-los ao Encontro; destes, 25 estavam ativos – 3 realizando comercialização e 22 para subsistência e “o prazer de produzir farinha”. A região da Ribanceira, onde está a ACORDI, concentra 18 engenhos, mas somente 2 estão em funcionamento. O agricultor Luiz Farias lembra que ainda faltaram 8 comunidades na lista: com isso, pode-se chegar a quase 200 engenhos só nesse município. O agricultor Aurino de Souza fez outra ressalva importante: a queda na atividade dos engenhos deve-se à perda das áreas de cultivo de mandioca pelas famílias da região. Ele chegou a produzir entre 500 e 800 sacos de farinha anuais, num engenho manual. Hoje, ainda que com um motor, chega a no máximo 40 sacos por ano. Isso porque ele foi uma das 70 famílias que perdeu as terras para a Engessul em 2010. “Ficamos só com as roças perto da casa. As terras os poderosos tomaram”, lembra.

Em Garopaba foram identificados 50 engenhos.

Em Garopaba foram identificados 50 engenhos.

Outra grande concentração de engenhos foi registrada pelo grupo de Garopaba: 50, com 45 deles produzindo para o auto consumo, 3 para comercialização e 1 semi-industrial que é comunitário. De acordo com José Furtado, agricultor agroecológico de Garopaba e membro da Rede Ecovida de Agroecologia, “a maioria do pessoal mantém o engenho porque a história da família tá ali. Como que vou derrubar algo que meu avô construiu 60 anos atrás?”.

A mesma importância histórico-cultural foi destacada pelo grupo de Florianópolis, que registrou a existência de 27 engenhos na Ilha de Santa Catarina. “A maioria ainda deve fazer farinha 1 vez por ano, pra não deixar morrer a cultura”, afirmou João Heidenreich, engenheiro agrônomo e herdeiro do

A Ilha de Santa Catarina registra a existência de 27 engenhos

A Ilha de Santa Catarina registra a existência de 27 engenhos

engenho de sua família no Ribeirão da Ilha. Sem áreas para o cultivo, precisam comprar mandioca para produzir farinha. A irmã de João, Graziela, disse que tem o sonho de conseguir conjugar o turismo com a produção de farinha para manter o engenho ativo.

Na região de Palhoça e Paulo Lopes foram mapeados outros 10 engenhos. “Mas já existiram 40 só no sul da Palhoça, nas comunidades das Três Barras, Pinheira e Maciambu”, contou a professora Jaqueline Prudêncio, moradora das Três Barras. Um dos engenhos ativos ali é do casal Rosa e João Nascimento, que compareceram ao evento com uma cesta cheia de quitutes de mandioca:

Mapeando os engenhos de Palhoça e Paulo Lopes

Mapeando os engenhos de Palhoça e Paulo Lopes

beiju, cuscus e bijajica. Produtos que também podem constituir o patrimônio imaterial dos engenhos, juntamente com as diversas variedades de mandioca, segundo o professor do Departamento de geografia da UFSC Nazareno José de Campos, que também participou do mapeamento. “A modernização do maquinário não necessariamente descaracteriza os engenhos, pois existem todas as outras características de

produção da mandioca e seus derivados”, disse.

O agricultor Luiz Farias, de Imbituba, concorda: “Ficam olhando se o engenho é elétrico ou com boi, mas o mais importante é a matéria prima, é a mandioca na roça”. Como disse Marlene Borges, “fica

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Dona Rosa Nascimento comercializa os produtos de seu engenho

difícil pensar no registro do modo de fazer farinha sem considerar o sistema produtivo da mandioca”. Neste sentido, os inventários dos Quilombos do Vale do Ribeira e do sistema agrícola do Rio Negro são referencias importantes de registros de Patrimonio Imaterial que envolvem agricultura, território e biodiversidade.

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