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“Foi um sábado diferente”, avaliou o militar aposentado Jacó Heideinreich, de 93 anos, sobre a atividade que aconteceu no seu engenho no Ribeirão da Ilha no dia 23 de junho. Integrando o projeto Saberes, Sabores e Histórias de Engenhos, que através do edital Elisabete Anderle de apoio à Cultura tem o objetivo de produzir um livro de receitas com iguarias engenheiras, a oficina realizada no Engenho da família Heideinreich foi um espaço para compartilhar muito mais do que saberes culinários. Informações sobre ramas de mandioca, memórias, piadas e até estratégias para afastar cotias das roças circularam ao redor do forno e da prensa do engenho, que Jacó herdou do seu avô, imigrante alemão.

Participaram da atividade famílias engenheiras de Florianópolis: os Andrade (Santo Antônio de Lisboa), os amigos Ailton Barbosa e Manuel de Souza (Sertão do Ribeirão), além da jovem Karlota Scotti, também do Sertão. No menu, foram preparadas e saboreadas iguarias como a cacuanga (por Maria de Lourdes Andrade Padilha); beijú, bolo de massa, bolo de aipim ralado (pela anfitriã Yolanda Heindenreich) e bijajica (por Karlota Scotti e o ecochef Fabiano Gregório). Tudo isso acompanhando o almoço espetacular comandado pelo chef Fabiano, com tainha frita, pirão de peixe e bolinhos de feijão.

A equipe do Ponto de Cultura registrou cada etapa da preparação das receitas. O objetivo é editar um livro com elas, junto com causos e fotografias dos quitutes e seus personagens. A publicação tem lançamento previsto para o final deste ano.

 

 

 

 

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O forno a lenha da casa da família Gelsleuchter, em Coqueiros, já estava aceso desde de manhã cedo para assar pão de milho e rosca de polvilho com fubá. Em volta do fogão do engenho – também a lenha -, enquanto o cozinheiro Fabiano Gregório coordenava o arroz com feijão, pirão e galinha caipira, dona Teresinha da Silva Coelho explicava do ponto do cuscuz. Feito o almoço, dona Catarina Gelsleuchter colocou alguns beijus na sua chapa nova. Depois de acertar o ponto do fogo, passou a escumadeira para um de seus 7 filhos e outros rapazes de 30 a 70 anos. Quando dona Aurina Francisco Duarte veio para fazer tapioca, o calor estava no ponto certo.

Essa e outras receitas tradicionais dos engenhos de farinha catarinenses – como o pão de farinha de mandioca na frigideira e o mingau de café – foram o convite certo para que vizinhos e parentes dos Gelsleuchter se juntassem no engenho da família no último sábado para participar da oficina do projeto Saberes, Sabores e Histórias de Engenho, realizado pelo Cepagro através do edital Elisabete Anderle de Apoio à Cultura no último sábado, 16 de junho. O objetivo principal do projeto é produzir um livro com essas e outras receitas, além de causos e fotos dos engenhos. As oficinas são os espaços para colher esses saborosos conteúdos – além de ser mais uma oportunidade de relembrar os cheiros, gostos e brincadeiras dos engenhos.

Rapaziada virando beiju.

Várias das famílias presentes tinham ou ainda têm engenhos, e vieram compartilhar receitas passadas através de gerações. “Tem uns 60 anos pelo menos que eu já faço cuscuz. Eu era criançae já ajudava minha mãe a fazer”, conta a auxiliar de cozinha Terezinha da Silva Coelho. A família dela tinha engenho na comunidade de Bethânia, também em Angelina. “Muita farinha a gente fez. Tinha ano que fazia até 200 sacos de farinha, desses de 60 kilos. Meus filhos mais velhos foram criados no engenho fazendo farinha. A gente ficava até 3 meses lá fazendo farinha. Como o engenho era longe da casa, então a gente se mudava pra lá, ficava 3 meses morando no engenho”, relembra ela enquanto confere o ponto do cuscuz.

Mestra Aurina Francisco Duarte mostrando a arte de virar tapioca no fogão a lenha

Os irmãos Irma e José Arno Hames, outros participantes da oficina, também cresceram dentro do engenho da família, que fica próximo da propriedade dos Gelsleuchter. As memórias do trabalho duro misturado às brincadeiras da infância permeiam as falas dos dois: “Era sofridinho. Tinha que levantar de madrugada, caminhar no escuro, era frio pra arrancar o aipim, tudo puxado no cavalo”, recorda Irma, hoje com 51 anos. “A gente passou muita dificuldade. Era carregar os cestos, era bem pesado. Mas a gente vencia. Fazia o serviço junto com o pai e a mãe”, concorda o irmão, Arno. Pelo que os irmãos lembram, o engenho está com a família há 52 anos, mas já foi comprado usado. Na engrenagem principal, feita de canela, a marca com o ano “1940” testemunha a idade da maquinaria, que segue ativa. Apesar das lembranças da lida difícil, há cerca de 2 anos Arno resolveu reativar o engenho da família, que ficara 18 anos parado. “O engenho ficou uns 18 anos parado. De uns 2 anos pra cá voltou a funcionar”, conta Arno. “Os outros irmãos não queríamos. Mas aí vimos que não adiantava insistir com ele, ele queria, aí apoiamos. E agora a gente gosta”, conta Irma. Todo ano os quatro irmãos se reúnem pra fazer farinha “por esporte” e também pro auto-consumo.

Acostumados com a movimentação do engenho durante as farinhadas anuais, Catarina e Celso Gelsleuchter estavam animados com a atividade. Os anfitriões da próxima oficina gastronômica serão Graziela e João Heindenreich, irmãos que mantém o engenho da família no bairro Ribeirão da Ilha, em Florianópolis. A atividade será no próximo sábado, 23 de junho.

 

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