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No último dia 02 de Julho, a caravana #EngenhoéPatrimônio chegou à Garopaba, para comprovar que lá não é apenas terra de belas praias e incríveis ondas mas de ambientes rurais que guardam a arte “engenheira” e ofertam muito peixe com farinha! A mobilização para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural segue guiada pelo cheiro das farinhadas que estão a todo vapor.

A caminho de Garopaba passamos pela comunidade das Três Barras para visitar umas das famílias fundadoras do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, que foi inaugurado ali, no Engenho das Três Irmãs, em 2010. Tivemos a grata surpresa de encontrar Inácia, Maura, Rosa e João reunidos com dois fornos acesos, o da farinha e o do beiju. Em pleno  jogo da seleção brasileira contra o México na copa do mundo a família priorizava o ritual da farinhada no engenho mostrando que as referências culturais do brasileiro estão para além do futebol.

Adentrando as estradas de terra do litoral e chegando à comunidade do Macacu, avistamos um rapaz conduzindo um carro de boi que transportava a lenha que serviria de combustível para uma farinhada que também estava ocorrendo no Siriú. Era Júnior, jovem que participou do III Encontro da Rede de Engenhos, ocorrido na Costa do Macacú em 2017. Além da lenha, Júnior transportava quem passava na estrada ao “tempo dos carros de boi” que, como vimos, não podemos dar por acabado.

A ideia da perda das tradições e de que “os engenhos se acabaram”, está deixando de ser destaque na fala das famílias engenheiras. A cada ano, observa-se mais e mais engenhos sendo remontados e novamente ativados com a principal motivação da vivência familiar e da autonomia alimentar, gerando produtos saudáveis, de qualidade e sabor inigualáveis.

A dimensão patrimonial dos engenhos de farinha se impõe de forma viva e tocante quando encontramos pelo caminho engenhos antes desconhecidos com famílias inteiras reunidas na lida da roda de raspagem, como visto neste mês de Julho de 2018, na Costa do Macacu. Crianças, adultos e anciãos, cada qual com sua faca na mão, agachados no chão do Engenho, debruçados sobre um grande monte de mandiocas, arrancadas de roças dali mesmo. Estas roças são acessadas por caminhos que dão até o morro, espaços de trabalho onde se pode desfrutar também de uma paisagem cultural que agrega criação de animais e pequenas lavouras às dunas, mares e restingas características da região.

No Macacu, área rural de Garopaba, visitamos quatro engenhos, que estava em plenos mutirões familiares e/ou comunitários para o feitio artesanal da farinha, as farinhadas. Nessas oportunidades de encontro, pudemos realizar conversas sobre o andamento da proposta de Registro como patrimônio imateiral, bem como apresentar  as anuências dos detentores desse patrimônio agroalimentar para serem circuladas entre os membros das famílias, envolvendo todos neste processo de mobilização.

No centro de Garopaba, realizamos uma importante conversa com o Coordenador de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do município, Marcus Vinicius Israel, que compõe as parcerias institucionais da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. Tratamos da colaboração da Prefeitura de Garopaba à proposta de Registro dos Engenhos como patrimônio imaterial e de traçamos possibilidades de parceria em diversas ações com foco cultural como mapeamentos, intercâmbios, exibições de audiovisual, mobilizações e produção de materiais.

Outra importante parceria neste município é a professora Juliani Brignol Walotek, do IFSC, historiadora e agente cultural na elaboração do Inventário Participativo da Rede de Engenhos. Juliani vem trabalhando o tema da educação patrimonial com suas turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), de Guia de Turismo, bem como nas formações de Condutores Ambientais. Ela irá facilitar a colaboração dos alunos no inventário através de oficinas em parceria com o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha.

Para fechar o intenso dia de atividades foi exibido o documentário “Cultura de Engenho: patrimônio e resistência” no auditório do IFSC Garopaba, para as turmas da professora Juliani e professor Carlos também historiador. O documentário foi produzido pela Vagaluzes Filmes para servir de ferramenta ao processo de Registro. Após a exibição houve uma calorosa roda de conversa que se estendeu na noite trazendo emocionados depoimentos de pessoas que tem engenhos de farinha como referência cultural. Diversos temas relevantes foram debatidos, com vistas à preservação dos engenhos de farinha na região, tendo o foco no turismo cultural de base comunitária e agroturismo. A equipe do Ponto de Cultura também explicou sobre o processo dos Inventários Participativos e do Registro para pedir a colaboração dos presentes, que se mostraram muito interessados. A adesão foi grande e a prosa finalizou com a certeza de que estava apenas começando.

 

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“Foi um sábado diferente”, avaliou o militar aposentado Jacó Heideinreich, de 93 anos, sobre a atividade que aconteceu no seu engenho no Ribeirão da Ilha no dia 23 de junho. Integrando o projeto Saberes, Sabores e Histórias de Engenhos, que através do edital Elisabete Anderle de apoio à Cultura tem o objetivo de produzir um livro de receitas com iguarias engenheiras, a oficina realizada no Engenho da família Heideinreich foi um espaço para compartilhar muito mais do que saberes culinários. Informações sobre ramas de mandioca, memórias, piadas e até estratégias para afastar cotias das roças circularam ao redor do forno e da prensa do engenho, que Jacó herdou do seu avô, imigrante alemão.

Participaram da atividade famílias engenheiras de Florianópolis: os Andrade (Santo Antônio de Lisboa), os amigos Ailton Barbosa e Manuel de Souza (Sertão do Ribeirão), além da jovem Karlota Scotti, também do Sertão. No menu, foram preparadas e saboreadas iguarias como a cacuanga (por Maria de Lourdes Andrade Padilha); beijú, bolo de massa, bolo de aipim ralado (pela anfitriã Yolanda Heindenreich) e bijajica (por Karlota Scotti e o ecochef Fabiano Gregório). Tudo isso acompanhando o almoço espetacular comandado pelo chef Fabiano, com tainha frita, pirão de peixe e bolinhos de feijão.

A equipe do Ponto de Cultura registrou cada etapa da preparação das receitas. O objetivo é editar um livro com elas, junto com causos e fotografias dos quitutes e seus personagens. A publicação tem lançamento previsto para o final deste ano.

 

 

 

 

O forno a lenha da casa da família Gelsleuchter, em Coqueiros, já estava aceso desde de manhã cedo para assar pão de milho e rosca de polvilho com fubá. Em volta do fogão do engenho – também a lenha -, enquanto o cozinheiro Fabiano Gregório coordenava o arroz com feijão, pirão e galinha caipira, dona Teresinha da Silva Coelho explicava do ponto do cuscuz. Feito o almoço, dona Catarina Gelsleuchter colocou alguns beijus na sua chapa nova. Depois de acertar o ponto do fogo, passou a escumadeira para um de seus 7 filhos e outros rapazes de 30 a 70 anos. Quando dona Aurina Francisco Duarte veio para fazer tapioca, o calor estava no ponto certo.

Essa e outras receitas tradicionais dos engenhos de farinha catarinenses – como o pão de farinha de mandioca na frigideira e o mingau de café – foram o convite certo para que vizinhos e parentes dos Gelsleuchter se juntassem no engenho da família no último sábado para participar da oficina do projeto Saberes, Sabores e Histórias de Engenho, realizado pelo Cepagro através do edital Elisabete Anderle de Apoio à Cultura no último sábado, 16 de junho. O objetivo principal do projeto é produzir um livro com essas e outras receitas, além de causos e fotos dos engenhos. As oficinas são os espaços para colher esses saborosos conteúdos – além de ser mais uma oportunidade de relembrar os cheiros, gostos e brincadeiras dos engenhos.

Rapaziada virando beiju.

Várias das famílias presentes tinham ou ainda têm engenhos, e vieram compartilhar receitas passadas através de gerações. “Tem uns 60 anos pelo menos que eu já faço cuscuz. Eu era criançae já ajudava minha mãe a fazer”, conta a auxiliar de cozinha Terezinha da Silva Coelho. A família dela tinha engenho na comunidade de Bethânia, também em Angelina. “Muita farinha a gente fez. Tinha ano que fazia até 200 sacos de farinha, desses de 60 kilos. Meus filhos mais velhos foram criados no engenho fazendo farinha. A gente ficava até 3 meses lá fazendo farinha. Como o engenho era longe da casa, então a gente se mudava pra lá, ficava 3 meses morando no engenho”, relembra ela enquanto confere o ponto do cuscuz.

Mestra Aurina Francisco Duarte mostrando a arte de virar tapioca no fogão a lenha

Os irmãos Irma e José Arno Hames, outros participantes da oficina, também cresceram dentro do engenho da família, que fica próximo da propriedade dos Gelsleuchter. As memórias do trabalho duro misturado às brincadeiras da infância permeiam as falas dos dois: “Era sofridinho. Tinha que levantar de madrugada, caminhar no escuro, era frio pra arrancar o aipim, tudo puxado no cavalo”, recorda Irma, hoje com 51 anos. “A gente passou muita dificuldade. Era carregar os cestos, era bem pesado. Mas a gente vencia. Fazia o serviço junto com o pai e a mãe”, concorda o irmão, Arno. Pelo que os irmãos lembram, o engenho está com a família há 52 anos, mas já foi comprado usado. Na engrenagem principal, feita de canela, a marca com o ano “1940” testemunha a idade da maquinaria, que segue ativa. Apesar das lembranças da lida difícil, há cerca de 2 anos Arno resolveu reativar o engenho da família, que ficara 18 anos parado. “O engenho ficou uns 18 anos parado. De uns 2 anos pra cá voltou a funcionar”, conta Arno. “Os outros irmãos não queríamos. Mas aí vimos que não adiantava insistir com ele, ele queria, aí apoiamos. E agora a gente gosta”, conta Irma. Todo ano os quatro irmãos se reúnem pra fazer farinha “por esporte” e também pro auto-consumo.

Acostumados com a movimentação do engenho durante as farinhadas anuais, Catarina e Celso Gelsleuchter estavam animados com a atividade. Os anfitriões da próxima oficina gastronômica serão Graziela e João Heindenreich, irmãos que mantém o engenho da família no bairro Ribeirão da Ilha, em Florianópolis. A atividade será no próximo sábado, 23 de junho.

 

*com informações do Iphan

A ACORDI recebeu na última 2ª feira, 18 de junho, em Brasília, o Prêmio por Boas Práticas em Sistemas Agrícolas Tradicionais, concedido pelo  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Embrapa e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), com o objetivo de reconhecer boas práticas presentes nos Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) no Brasil.
Foram premiadas 15 iniciativas, sendo que a Associação Comunitária Rural de Imbituba ficou em 4º lugar. Os primeiros cinco colocados receberão o valor bruto de R$ 70 mil e os demais R$ 50 mil. Foram inscritas 58 instituições de direito privado e sem fins lucrativos, localizadas em diversas regiões brasileiras. A ação que ganhou o  primeiro lugar foi a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais (AMTR), do Lago do Junco (MA); em segundo lugar, ficou a Associação dos Produtores Rurais de Vereda, de Matias Cardoso (MG); em terceiro, a Associação dos Remanescentes de Quilombo de São Pedro, de Eldorado (SP), na quarta colocação, a Associação Comunitária Rural de Imbituba, de Imbituba (SC) e em quinto lugar, será premiado o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), dos municípios baianos de Pilão Arcado, Campo Alegre de Lourdes, Canudos, Casa Nova, Remanso, Curaçá, Sento Sé, Uauá, Sobradinho e Juazeiro.

Além do prêmio em dinheiro, os vencedores recebem capacitação da Embrapa e orientação para, caso desejem, se candidatarem a receber o título de Sistema Agrícola Tradicional Globalmente Importante (GIAHS – sigla em inglês para Globally Important Agricultural Heritage Systems,). A FAO já concedeu o título de GIAHS a 36 sistemas agrícolas tradicionais do Chile, Peru, Filipinas, China, Bangladesh, Índia, Japão, Coreia do Sul, Argélia, Irã, Marrocos, Tunísia, Emirados Árabes Unidos, Egito, Quênia, Tanzânia e México.

Areais da Ribanceira: resistência da agricultura tradicional

A Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira convive há várias décadas com um processo de desterritorialização, que elimina formas de uso comum da terra e da água, colocando em risco o grupo social e todo patrimônio imaterial acumulado ao longo das gerações. Um exemplo é a ação de reintegração de posse que o governo do Estado de Santa Catarina, está movendo contra a ACORDI, assim como vários pescadores da praia de Imbituba também estão sendo ameaçados por processos similares, movidos por empresa privada (IEP).

A essência da comunidade está no uso comum do seu território, que está diretamente ligado ao acesso aos recursos naturais. E, se isto for interrompido, interrompe-se também a reprodução cultural/social/religiosa/ancestral e econômica da comunidade, que é a principal responsável pela manutenção do ecossistema e da construção tradicional de um conjunto de conhecimentos, inovações e práticas que beneficiam toda sociedade.

Sistemas Agrícolas Tradicionais

Os povos e comunidades tradicionais possuem formas únicas de praticar a agricultura, que expressam saberes particulares, envolvendo desde o cultivo da terra até diversos outros processos simbólicos e produtivos, de maneira integrada, constituindo os chamados Sistemas Agrícolas Tradicionais.

Um SAT pode ser definido como um conjunto de elementos que inclui saberes, mitos, formas de organização social, práticas, produtos, técnicas/artefatos e outras manifestações associadas. Eles formam sistemas culturais que envolvem espaços, práticas alimentares e agroecossistemas manejados por povos e comunidades tradicionais e por agricultores familiares. Os SATs integram o patrimônio cultural imaterial das comunidades que os praticam.

As visitas buscam a mobilização para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural e a promoção da agroecologia.

Entre os dias 16 e 21 de Maio, a equipe do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha deu início à etapa de campo da mobilização para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural, visitando comunidades rurais, urbanas e periurbanas dos municípios de Bombinhas, Garopaba, Imbituba, Laguna e Pescaria Brava. As visitas têm como referência um mapeamento de atores que vem sendo realizado pelo Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO) desde 2011. Foram realizadas rodas de conversa, oficinas, reuniões institucionais e visitas à Engenhos de Farinha de uso familiar e comunitário. As atividades operam com recursos do Prêmio de Culturas Populares de 2017, edição Leandro de Barros, do Ministério da Cultura.

Turma frente engenho Colônia São Braz

Equipe do Ponto de Cultura e família proprietária do Engenho do Zeca e da Marlene. Colônia São Braz, Ribeirão Pequeno, Laguna, SC.

Após discussões ocorridas nos anos de 2016 e 2017 em encontros da Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha e em parceria com o IPHAN, foi consolidado o desejo de elaboração de uma proposta de registro dos Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural do Brasil de forma colaborativa entre as diversas famílias e instituições que compõem a Rede de Engenhos, reunindo poder público e sociedade.

A estratégia serve-se da abordagem do patrimônio imaterial e dos Inventários Participativos de referências culturais para o fortalecimento da articulação em rede e da agroecologia. A articulação de atores para a incidência nas políticas de Patrimônio Imaterial, realizada pelo CEPAGRO é vista, sobretudo, como uma ferramenta de educação patrimonial e de fortalecimento da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha.

PB Cinema Acordi

Exibição do filme “Cultura de Engenho: patrimônio e resistência” na Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI) em 20 de maio de 2018.

Nesta primeira etapa, a caravana #engenhoépatrimônio iniciou por Bombinhas e foi recebida por Rosane Luchtenberg no Engenho do Sertão, que também é um Ponto de Cultura e importante referência regional em educação patrimonial e agroeológica. Os parceiros do Instituto Boimamão, entidade que mantém o espaço, colaboraram com seu rico acervo e mapeamento de Engenhos produzido ao longo de 20 anos de atuação na região. Rosane também acompanhou a nossa equipe a quatro Engenhos de Farinha bombinenses.

Engenho Sertão

Engenho do Sertão, nó da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha em Bombinhas

Já a parceria com a Fundação de Cultura de Bombinhas proporcionou a realização da oficina sobre Inventários Participativos, que ocorreu dia 17 de maio no Engenho do Miminho, espaço cultural recentemente inaugurado pela Prefeitura do município. No dia seguinte, foi realizada a roda de conversa #engenhoépatrimônio onde a equipe de servidoras da Fundação também deu início à colaboração na reunião de documentação para a proposta de registro.

Durante as atividades, muito se discutiu sobre as ameaças da urbanização e da especulação imobiliária à (agri)cultura de Engenho em Bombinhas, município onde as áreas rurais sequer aparecem no Plano Diretor. Apesar desta invisibilidade, durante as visitas aos Engenhos da cidade foram encontradas muitas roças de mandioca, em meio quintais produtivos agroflorestais com bananais, café, hortas, produção de colorau, criação de galinhas e outras atividades rurais que resistem rodeadas por espaços urbanizados.

Na localidade de Sertãozinho conservam-se a maior parte dos engenhos produtivos de Bombinhas. Com o apoio da Rosane, do Engenho do Sertão, tivemos a oportunidade de visitar três engenhos que ainda funcionam naquela localidade. Durante a visita ao Engenho de Seu Bielinho (Manoel João da Silva) e Dona Jucélia da Silva, uma surpresa: a família estava em meio à farinhada, reunindo-se no Engenho nos fundos da casa. A família Silva viveu da agricultura por décadas, e em função do crescimento urbano havia vendido o velho engenho nos anos 2000. Recentemente, no entanto, os filhos remontaram um engenho de farinha para manter a tradição e poder proporcionar encontros entre várias gerações da família na fruição do feitio artesanal da farinha de mandioca e outras iguarias de engenho.

Também foram visitados o antigo Engenho do Seu Cantalício, atualmente conduzido por seus netos, genro e filha (José Horácio Mendes, o Dé, e sua esposa Áurea Rocha Mendes) e o engenho mais recente da senhora Elba e seu esposo Azeneu. Na localidade de Bombas, ainda pudemos visitar o engenho de Dona Rosa Geralda da Silva, que hoje conduz o feitio do farinha com o auxílio de seu enteado Roberto Sílvio, o Lola.

Na manhã do dia 20 de maio, foram realizadas visitas pioneiras de mapeamento à Engenhos em Laguna. O pesquisador Wellington Martins, da Fundação Lagunense de Cultura tornou-se recentemente articulador local da Rede dos Engenhos na região, colaborando também na produção de conteúdo para a proposta de registro dos Engenhos de Farinha.

A visita a dois Engenhos da região contou com o precioso auxílio de Wellington e do professor Laércio, que está a frente da associação comunitária Casa da Dindinha, que atua na preservação da cultura açoriana na comunidade do Ribeirão Pequeno, em Laguna. O líder do Convívio Slow Food Engenhos de Farinha, Antônio Mendes dos Santos, também acompanhou as visitas e está colaborando com o mapeamento dos Engenhos em comunidades rurais de Pescaria Brava, município vizinho.

O grande momento da semana ocorreu na tarde do domingo, 20 de Maio, durante a Abertura da Farinhada da Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI) evento realizado em parceria entre o CEPAGRO, a ACORDI e a Prefeitura de Imbituba, com foco na resistência da comunidade tradicional de agricultores e pescadores dos Areais da Ribanceira e na campanha #engenhoépatrimônio. Cerca de cem pessoas assistiram à exibição do documentário Cultura de Engenho, participaram do debate e desfrutaram do café preparado pelas quituteiras da associação. Durante as falas de lideranças comunitárias, as estratégias de patrimonialização foram evidenciadas como um importante aporte no enfrentamento do longo processo de desterritorialização que a comunidade vem atravessando.

Evaldo Manu Marlene e Gabi

Encontro das equipes do CEPAGRO e da Prefeitura de Imbituba, 21 de maio de 2018.

Na manhã da segunda-feira, dia 21 de maio, a equipe do Ponto de Cultura ainda realizou visitas institucionais na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Sustentável, Agrícola e da Pesca, com o secretário Evaldo Espezim e assessora Marlene Borges, pensando nas estratégias a ser adotadas pelas equipes do Ponto de Cultura e da Prefeitura de Imbituba em relação ao uso tradicional do território dos Areais da Ribanceira. À tarde, finalizando seis dias de atividades a campo, ainda estivemos com Isabella Torquato, representante do Conselho Municipal de Associações de Imbituba e do Conselho Municipal de Cultura de Imbituba. Ambas conversas foram frutíferas no sentido de envolver estes atores na construção da proposta de registro e ações da mobilização #engenhoépatrimônio.

A busca pelo reconhecimento dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina como patrimônio cultural une comunidades rurais e urbanas, entidades comunitárias, pesquisadores, ONGs e poder público das três esferas para a Salvaguarda destas (agri) culturas que encontram-se ameaçadas por modelos de desenvolvimento empreendidos nos territórios do litoral catarinense. O apoio às famílias no envolvimento de novas gerações, a valorização socioambiental, a garantia legal de territórios, a construção de legislações sanitárias e ambientais específicas, a estruturação do agroturismo e de circuitos de comercialização de produtos, bem como o incentivo às farinhadas festivas são algumas das questões que serão pontuadas nas recomendações de Salvaguarda da proposta de registro a ser entregue ao IPHAN, FCC e também aos órgãos culturais dos municípios.

Além de conquistar o reconhecimento e proteção legal pelo IPHAN, a iniciativa tem como principal missão mobilizar as comunidades que mantém vivas as práticas e saberes ligados aos Engenhos para a importância destes espaços tanto do ponto de vista cultural, quanto como matrizes de bem viver e desenvolvimento sustentável em seus territórios. Buscamos inspirar também gestores públicos e organizações da sociedade civil para um olhar contemporâneo para as tradições dos Engenhos de Farinha, que além de fazer parte da História e memória do estado e país, tem um peso estratégico na promoção da soberania e segurança alimentar na contemporaneidade.

A campanha #EngenhoéPatrimônio segue em Julho com atividades no município de Garopaba e diversas regiões de Florianópolis e pretende encerrar em dezembro com um grande encontro entre todas as comunidades e parceiros envolvidos. A proposta de registro também deve ser protocolada no IPHAN, FCC e órgãos municipais ainda em 2018.

#engenhoépatrimônio

A presidente da Fundação de Cultura de Bombinhas Nívea Maria da Silva Bücker tinha acabado de colocar algumas bananas na chapa quente do fogão a lenha quando dona Rosa Dias, 77 anos, chegou ao Engenho do Miminho, no bairro José Amândio. Todo mundo parou para cumprimentá-la, abraçá-la, escutá-la. Dona de um dos engenhos mais antigos e ativos do município, ela era a convidada de honra para a oficina de Inventários Participativos que o Ponto de Cultura facilitou durante a 16ª Semana dos Museus de Bombinhas, na última quinta, 17 de maio. Mesmo com dor nas costas por ter ficado colhendo café no dia anterior e com pouco tempo para participar – tinha uma sessão de fisioterapia agendada ainda naquela tarde – veio compartilhar histórias e causos do tempo em que o “povo não tinha medo de plantar nem de fazer bastante farinha”, dos carros de boi, das redes cheias em pescarias fartas.

O objetivo da oficina era reunir mestres e mestras de engenho para fazer um levantamento dos bens culturais – saberes, lugares, ofícios, celebrações – relacionados aos engenhos para iniciar o processo de inventariamento necessário para pedir o registro dos engenhos como patrimônio cultural imaterial junto ao IPHAN, objetivo do projeto PdC 2.0, que conta com apoio da Secretaria de Estado de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer (SOL). Além disso, realizar um mapeamento desses engenhos, visando à construção de um mapa cultural financiado pelo edital Elisabete Anderle de apoio à cultura. Chegando ao Engenho do Miminho, a surpresa foi encontrar uma turma de estudantes do ensino médio profissionalizante em Hospedagem da Escola Estadual Maria Rita Flor, que assistiam à palestra sobre Patrimônio Cultural Imaterial e Economia Civil ministrada pelo professor Jorge Braun Neto (UDESC). Após a palestra, na troca com a turma, a coordenadora do Ponto de Cultura Gabriella Pieroni logo estabeleceu uma parceria com os estudantes, para que eles também colaborem na coleta de informações e documentação sobre os engenhos na região, tornando ainda mais participativo o processo do inventário.

Na parte da tarde, a equipe do PdC fez uma dinâmica para trabalhar as categorias de patrimônio imaterial do IPHAN, como lugares, saberes, celebrações, com a equipe da Fundação de Cultura de Bombinhas. Com a chegada de dona Rosa, junto com  Rosane Luchtemberg, guardiã do Engenho do Sertão, começou o mapeamento dos engenhos de farinha da península de Bombinhas. Pesquisadoras da cultura de engenho de longa data, Rosane e Márcia Cristina Ferreira, assessora de comunicação da Fundação, já haviam listado 12 engenhos, sendo 6 deles ainda em atividade e outros 6 como espaços culturais, de memória ou desmontados. Unindo informações das pesquisas da equipe da Fundação com a memória invejável de Dona Rosa, foram listados pelo menos outros 20 engenhos em Bombas, Bombinhas, Zimbros, Mariscal, Canto Grande e Sertãozinho. “Lá pra banda do Joca, tinha bem uns 15 engenhos, ali no Zimbrinho”, arrematava dona Rosa, intercalando versos de poesias com o inventariamento. Junto com a economia da farinha de mandioca, a pesca também sustentava as famílias de Bombinhas. “Em 1949 deu muita tainha, o pai falava que não sabia se arrancava mandioca ou esperava tainha. Foi uma farinhada muito gostosa, porque sempre tinha o peixe. Minha mãe escalou bastante peixe ali, porque não tinha como congelar. Se não tinha da praia, tinha o costão. Naquele tempo dava muito peixe, agora cabou-se. Nossa praia cabou-se. Aquele peixinho de rede de arrasto acabou tudo. Dava uma dó”, recordava a mestra engenheira.

Além dos fatores comumente atribuídos ao declínio dos engenhos de farinha, como o endurecimento das restrições sanitárias à produção artesanal, Nívea Maria Bücker, presidente da Fundação de Cultura, fala sobre uma “crise de identidade” da população de agricultores-pescadores do município que chegou junto com o aumento do turismo e especulação imobiliária a partir dos anos 1980-1990. “Isso levou o pessoal a vender terrenos, inclusive na beira da praia. Achavam que ser pescador, ser agricultor era feio. O do outro era melhor, então quero ser igual ao outro. De uns anos pra cá, há um processo contrário. Pessoas mais jovens que estão vendo que sua identidade tradicional é importante, entram no engenho e isso remete à infância, à família, estão querendo comprar engenhos. A partir do momento que alguém diz pra eles que isso é importante, passa a ter mudança. Turismo também pode ser chave pra família ver importância de manter aquele patrimônio”, afirma.

Na perspectiva de valorização do patrimônio cultural dos engenhos de farinha, a Fundação de Cultura de Bombinhas já tomou passos importantes. Um deles é a própria restauração do Engenho do Miminho, remontado nos altos do bairro José Amândio respeitando suas características originais. Inaugurado no final de 2017 como engenho comunitário, vem abrigando atividades culturais e envolvendo a comunidade nas memórias do município. Bombinhas também tem políticas públicas de reconhecimento de mestres e mestras de saberes tradicionais, incluindo os de engenho. Além disso, têm um programa de compra de mandioca de outros municípios para fornecer matéria-prima para as farinhadas.

Isso porque, além da atividade dos engenhos, também caiu a quantidade de áreas para cultivo de mandioca nos municípios. Seja pela divisão entre as famílias, pela especulação imobiliária ou pela legislação ambiental que proíbe a abertura de roças nos morros – antes as melhores terras para agricultura, hoje Áreas de Preservação Ambiental – o caráter rural de Bombinhas foi sendo apagado dos mapas do município, inclusive do Plano Diretor. Assim como no caso de Imbituba, o Plano Diretor de Bombinhas não tem áreas rurais. Nas conversas durante a oficina e na rodada de campo feita pela equipe do PdC, contudo, percebe-se que o cultivo de mandioca continua vivo no município.

As oficinas de Inventário Participativo continuam ao longo de 2018, sendo realizadas também em Florianópolis, Imbituba e Garopaba. Com o levantamento de material no processo de inventariamento, o objetivo é pedir o registro dos engenhos de farinha de Santa Catarina como patrimônio cultural do Brasil. Uma das estratégias de mobilização das comunidades é a campanha #engenhoépatrimônio, que busca estimular a valorização e reconhecimento dos Engenhos de Farinha.

Durante o Seminário de Patrimônio Cultural que integra a 16ª Semana dos Museus em Bombinhas (SC), a equipe do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha / Cepagro facilitará uma oficina sobre Inventários Participativos nesta quinta, 17 de maio. Na sexta, 18 de maio, a partir das 14h, será exibido o documentário Cultura de Engenho: Patrimônio e Resistência, dirigido por Sandra Alves com roteiro de Gabriella Pieroni. Tudo isso no famoso Engenho do Miminho, adotado pela Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas para se tornar centro e referência cultural na comunidade.

A oficina do dia 17 acontece a partir das 10h30 e tem o objetivo de mobilizar e sensibilizar a comunidade para a importância de seu patrimônio cultural e agroalimentar por meio da construção coletiva de conhecimento sobre os Engenhos de Farinha, suas agri(culturas) e culinárias. A iniciativa faz parte de um projeto do Cepagro que conta com o apoio da Secretaria de Estado do Turismo, Cultura e Esporte de SC (SOL-SC) para realizar ao longo de 2018 diversas oficinas nas comunidades que fazem parte da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. A metodologia da oficina é uma adaptação dos Inventários Participativos,  ferramenta de educação patrimonial proposta pelo IPHAN que foi parceiro local no processo de elaboração.

As oficinas acontecerão em outros territórios catarinense, sendo articuladas por agentes culturais locais representantes dos territórios envolvidos, papel assumido em Bombinhas pela Fundação Municipal de Cultura.  O resultado das oficinas deverá compor uma exposição e um mapa cultural, além de materiais de  divulgação sobre os Engenhos de Farinha a partir do olhar de seus protagonistas. Nos próximos meses haverá também atividades práticas de culinária e visitas aos Engenhos de Farinha da região.

Na atividade do dia 18, o foco é a campanha #engenhoépatrimônio, empreendida pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. A campanha tem o intuito de mobilizar as comunidades para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural e a participação dos “engenheiros” locais, no processo participativo de elaboração de uma proposta de registro das práticas culturais associadas a estes Engenhos de Farinha, como Patrimônio Cultural do Brasil dentro da Política de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial do Iphan.