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Famílias engenheiras de farinha de Florianópolis, Garopaba, Imbituba, Angelina e Bombinhas estiveram reunidas na capital catarinense, nos dias 14 e 15 de abril, para o Encontro #EngenhoéPatrimônio. O evento selou um processo de dois anos do qual várias famílias engenheiras participaram junto à Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e que prevê registrar os Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural.

Através do Projeto Pondo de Cultura 2.0: articulação em rede, apoiado pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (SOL), foram realizadas oficinas de Educação Patrimonial facilitadas pela educadora Giselle Miotto e pela Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Como fruto das oficinas, foi elaborado o Inventário Participativo dos Engenhos de Farinha do Litoral Catarinense, que apresenta os bens culturais relacionados aos engenhos e a identificação das comunidades com eles. Além disso, a Rede também contou com apoio do edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura para promover atividades que geraram o livro Comida de Engenho e do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC, lançados durante o Encontro.

O evento iniciou no domingo, no caloroso Engenho do Beto Andrade, em Santo Antônio de Lisboa. Em meio a forno, prensa, cocho e tipitis, as famílias se aconchegaram para assistir ao documentário #EngenhoéPatrimônio, produzido pelo Cepagro a partir de depoimentos coletados durante as oficinas de Educação Patrimonial. A tarde seguiu animada pelo giro do boi e cheiro da farinha torrando no forno.

José Roberto de Andrade, o Beto, herdou a tradição farinheira dos bisavós e pretende repassar esses saberes para as próximas gerações. “Não podemos deixar essa cultura morrer. Um lugar sem tradição é um lugar morto e nós não queremos que esse lugar nosso seja morto, têm muitas histórias bonitas para contar”, diz Beto. No fim do dia, com o forno ainda quente após a torra da farinha, foi a hora de fazer beiju. 

A programação de segunda-feira foi aberta ao público e começou com uma roda de conversa sobre o Patrimônio Cultural dos Engenhos, no Hotel SESC Cacupé. Participaram as famílias e equipe da Rede, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), na presença da educadora Carla Cruz, e da professora Caroline Celle Waltrick, da E.E.B Maria Rita Flor, de Bombinhas. Estiveram presentes também representantes da Epagri, SESC, Núcleo de Estudos Açorianos, da Fundação Catarinense de Cultura, da Fundação Municipal de Cultura Franklin Cascaes e da Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas .

Carla Cruz iniciou sua fala frisando a importância da participação social e demonstrou como as oficinas e encontros realizados pela Rede/Cepagro possibilitaram o fortalecimento de laços entre as famílias e admiradores da cultura do engenho. Ela acredita que esses laços fortalecidos são mais eficazes na hora de pressionar o poder público. Cultura é identificação, segundo Carla, e patrimônio é vida: “O que o estado chama de patrimônio, nós chamamos de vida. Iniciativas como essa são como água e terra fértil que vão germinando novas sementes”.

A também educadora Caroline Waltrick, professora da Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, de Bombinhas, provou que as sementes da cultura do engenho já germinaram. Ela esteve presente na primeira oficina de Educação Patrimonial da Rede em Bombinhas e trabalhou o tema com seus alunos. A partir de visitas aos engenhos e conversas com mestres e mestras, os (as) estudantes contribuíram com o levantamento de bens culturais para o inventário. Carol contou que os jovens se empolgaram com a atividade e se envolveram a ponto de aprender a fazer receitas como o beiju. Alguns deles estiveram presentes no Encontro e demonstraram total apoio a preservação dessa cultura, ressaltando sua importância inclusiva para quem não é catarinense.

O debate enriqueceu com as contribuições do público, como a sugestão da guia de turismo Claudete Medeiros, de se trabalhar o turismo de base comunitária com os engenhos, como uma alternativa econômica para as comunidades. Marlene Borges, da Associação Comunitária Rural de Imbituba, também se pronunciou ao lembrar que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontou que a mandioca é um alimento com “grande potencial” e pode se transformar no principal cultivo do século 21 se for realizado um modelo de produção sustentável.

Depois da roda de conversa, o vereador Marcos José de Abreu, o Marquito (PSOL) fez uma fala sobre a questão territorial em Florianópolis. Marquito disse que segundo o censo agropecuário do IBGE de 2017, existem em Florianópolis 212 estabelecimentos rurais. Apesar disso, apenas duas regiões da ilha são consideradas áreas rurais. A cobrança de impostos sobre áreas rurais e urbanas é diferente e seu mandato está elaborando um decreto que regulamenta o pedido de isenção de impostos para áreas que na prática são rurais. 

Nas oficinas da Rede já havia sido identificado que um dos fatores que comprometem a manutenção da cultura farinheira é o fato de não haver aspectos legais que garantam a terra para o plantio, de acordo com o Plano Diretor de alguns municípios, como é o caso de Florianópolis e Garopaba. Sem terra não tem roça, sem roça não tem mandioca e sem mandioca não tem farinha.

Ao final da tarde, a turma seguiu para o Engenho do SESC Cacupé para o lançamento do livro Comida de Engenho que traz receitas tradicionais de engenhos de farinha, além de histórias das famílias que abriram suas casas e compartilharam seus saberes durante as Oficinas Gastronômicas.  O livro pode ser adquirido mediante contribuição espontânea entrando em contato pelo e-mail comunicacao@cepagro.org.br. O dinheiro vai para o caixa da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha.

O encontro ainda terminou com um delicioso café regado a beiju, bijajica e bolo de mandioca, feito pelo cozinheiro Fabiano Gregório, do Movimento Slow Food.

 

 

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Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e o Cepagro têm o prazer de convidar a todos e todas que se interessam por patrimônio cultural, cultura popular e gastronomia para o encontro #EngenhoÉPatrimônio, que acontece no dia 15 de abril (2ª feira), das 9h às 16h, no Hotel SESC Cacupé. Na programação, haverá uma roda de conversa sobre o Patrimônio Cultural dos Engenhos com a participação das famílias e equipe da Rede, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Também serão lançados o livro Comida de Engenho e que traz receitas tradicionais de engenhos de farinha; além do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC, ambas publicações apoiadas pelo Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura de 2017. Destaque para a apresentação do mini-doc #EngenhoÉPatrimônio, produzido pelo Cepagro, e do Inventário Cultural dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina, que traz um panorama sobre os bens culturais relacionados aos engenhos e sua importância para as comunidades. O Inventário foi construído de forma participativa com as comunidades, que integraram oficinas de educação patrimonial promovidas pela Rede em Bombinhas, Florianópolis, Imbituba e Garopaba. A iniciativa teve apoio da Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura.

O evento é gratuito, as inscrições podem ser feitas pelo email engenhosdefarinha@cepagro.org.br ou no telefone  (48) 99172-3841 (com Karina).

A Rede Catarinense de Engenhos de Farinha reúne famílias que mantêm ou trabalham em engenhos, junto com agentes públicos, pesquisadores/as, cozinheiros/as, educadores/as e ativistas pela preservação de seu patrimônio agroalimentar e cultural. Para saber mais, siga nossa página no Facebook: www.facebook.com/RedeCatarinensedeEngenhosDeFarinha

 PROGRAMAÇÃO #EngenhoÉPatrimônio

9h – 11h Auditório
Hotel Sesc Cacupé
ABERTURA
Mesa redonda: #EngenhoÉPatrimônio: educação patrimonial nos engenhos de farinha catarinenses – IPHAN, Cepagro, representante dos engenhos
11h – 11h30 Apresentação do mini-doc #EngenhoÉPatrimônio
12h – 13h30 Restaurante Sesc Cacupé Almoço
13h30 – 14h Engenho do SESC CACUPÉ Apresentação do Inventário Cultural dos Engenhos de Farinha de SC
14h – 14h30 Engenhos no território catarinense e lançamento do Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha de SC (possibilidade participação vereador Marquito)

Elba Nair da Santa Cruz e Antônio Jacob Cruz cresceram em engenhos de farinha em Bombinhas. Com a chegada do turismo de massa à cidade, dedicaram-se a outras atividades: um pouco de pesca, um pouco de aluguel para temporada. Mas não esqueceram da produção artesanal de farinha: em 2005, compraram de novo um engenho, do sogro de sua filha. “Ele sabia que eu iria manter o engenho”, conta, orgulhosa, Elba Nair da Santa Cruz. Ainda hoje, ela e o marido produzem cerca de 250kg de farinha por ano. “Não é pra ter lucro, é pra nós mesmo. Pra dar pra algum vizinho”, diz Elba.

No último dia 5 de dezembro, mestres e mestras dos engenhos como Elba e Antônio foram homenageados/as por estudantes da Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, que fecharam o ano letivo apresentando os trabalhos resultantes de sua imersão na cultura dos engenhos. A pesquisa junto aos engenhos de farinha do município foi motivada por uma oficina de educação patrimonial que o Cepagro facilitou ali em agosto deste ano e coordenada pelas professoras Caroline Celle Waltrick (Artes), Josiane Mendes Bezerra (Turismo) e Maria José (História). Quatro turmas do 2º ano do Ensino Médio participaram da pesquisa, que passou por 4 engenhos da região, gerando músicas, pinturas e 2 mini-documentários. “Toda a ideia e organização da homenagem foi dos/as jovens”, conta a professora Carolina Waltrick.

“Falar de engenho é falar da identidade de Bombinhas. E dela não podemos desistir”, afirma a estudante Ariel da Silva Serra Gonçalves de 17 anos. “Foi plantado pra nós que o engenho, a roça de mandioca, a horta eram feios. Mas mudamos isso. Não podemos deixar morrer essa cultura nem ter vergonha dela”, confirma a professora Maria José. Para Josiane Bezerra, professora do curso técnico em Hospedagem, a valorização e promoção da identidade cultural do município amplia as possibilidades de atividades turísticas ali. “Muitas cidades que têm o eixo turístico de sol e praia esquecem que a identidade cultural também atrai visitantes. Se o destino tem identidade cultural, pode trazer gente tanto no inverno quanto no verão”, afirma.

O trabalho dos/as estudantes da Maria Rita Flor vai compor o inventário cultural dos engenhos de farinha que a Rede Catarinense de Engenhos está mobilizando. Além da bela pesquisa de campo, a iniciativa é valiosa por mostrar o envolvimento da juventude na temática.

 

Mapeamento realizado pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha identificou pelo menos 23 engenhos artesanais de farinha ativos na região

As rotinas de trabalho, as brincadeiras e a fartura dos engenhos de farinha e ranchos de pesca foram relembradas no último domingo, 9 de dezembro, durante a Oficina Mapeando os Engenhos de Farinha realizada na Associação Comunitária Rural de Imbituba, a ACORDI. Na atividade, promovida pela ONG Cepagro através de um projeto apoiado pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (SOL), participaram agricultoras, agricultores e proprietários de engenhos da região. O objetivo foi mapear os engenhos ainda existentes e também levantar informações sobre o patrimônio cultural ligado a eles, fortalecendo a Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e complementando os mapeamentos já realizados em Florianópolis, Bombinhas e Garopaba.

“Quando começava a farinhada, era como abrir as portas de uma festa”, recorda Luís Farias, da ACORDI. A temporada de produção artesanal de farinha – as farinhadas ­-, que começa perto de maio e estende-se até agosto, representava a reunião de vizinhos e familiares para o trabalho coletivo de arrancar e descascar a mandioca, colaborar na seva, prensar e torrar a farinha. Tudo envolto em brincadeiras, versinhos irônicos (chamados pasquim) e fartura: além da farinha, saía muito beijú, cuscuz, bijajica, mané pança, além das colheitas de batata doce e milho. “Também dava muito namoro nas farinhadas”, completa Luís Farias.

A industrialização da produção de farinha e o recrudescimento da legislação sanitária para ela contribuíram para que muitos engenhos artesanais fossem fechados. Entretanto, durante as atividades da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha, percebe-se que os engenhos seguem vivos e ativos. No mapeamento realizado em Imbituba, foram identificados pelo menos 23 engenhos que continuam produzindo mandioca artesanalmente. A Rede também já mapeou engenhos em Bombinhas, Florianópolis e Garopaba, mostrando que esta cultura segue pulsante no litoral catarinense.

Ainda assim, muitos dos saberes relacionados aos engenhos estão desaparecendo. “A técnica de fazer um fuso ou uma prensa de madeira está se perdendo”, afirma Marlene Borges, também da ACORDI. Aroldo dos Reis Carvalho, que tem um engenho em Imbituba, conta que “Eu aprendi a tirar o ponto da farinha com a minha mãe. Colocava na boca e sentia se tava estralando. Mas vou repassar isso pra quem?”. Neste sentido, o levantamento sobre os bens culturais dos engenhos – suas celebrações, saberes, mestres, objetos – revela-se importante para sua salvaguarda como patrimônio cultural de Santa Catarina e do Brasil. Além disso, a sensibilização da juventude na preservação deste patrimônio é peça fundamental.

Representações de sete engenhos de farinha de Garopaba participaram da Oficina de Educação Patrimonial realizada pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e Centro de Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), no dia 25 de novembro no Engenho da Vó Cicina, na Lagoa da Encantada  A ação foi feita através do Projeto Ponto de Cultura 2.0: articulação em rede, com a facilitação da educadora Giselle Miotto e da Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Ao longo de um dia de muita prosa e reflexões, as famílias presentes fizeram um levantamento dos bens culturais relacionados aos engenhos de farinha da região.

A oficina é continuação do mapeamento dos engenhos de farinha artesanais de Garopaba iniciado através do edital Elisabete Anderle, que buscou identificar e mobilizar os engenhos da região para compor a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha. Nessa primeira ação,realizada ao longo de três dias no início de novembro,houve a participação de três agentes locais: Luis Fernando, da comunidade do Macacu, Maria Cristina Gomes, estudante de educação patrimonial pelo IFSC e Claudete Medeiros, do coletivo Taiá Terra. Além de mapear 28 engenhos de farinha na cidade, foi possível conhecer  um pouco da realidade destes engenhos dentro do aspecto produtivo e de intenção de manutenção dos mesmos, seja desenvolvendo atividades vinculadas ao turismo ou mesmo como forma de preservação da cultura e subsistência.

Na dia 25, além de levantar os bens culturais, a comunidade também discutiu sobre as principais dificuldades que eles enfrentam para manter os engenhos de pé e funcionando. Na visão dos engenheirxs, o fator que mais compromete a manutenção desta cultura é o fato de não haver dentro do município aspectos legais que garantam a terra para o plantio, em relação ao Plano Diretor, onde as áreas rurais ficaram reduzidas comparada com a realidade, e até mesmo a questão de impostos. Como eles mesmo colocaram:  “Sem roça, não tem mandioca, sem mandioca, não tem farinha”.

Segundo José Antônio Furtado, o Zezinho, que trabalha no engenho construído por seu pai há 69 anos e faz parte do Conselho de Agricultura do município, “Hoje é tudo lote, não tem mais terra”. A resistência que ele e os outros engenheirxs da região fazem é principalmente contra a especulação imobiliária e a mega-projetos que preveem a expropriação de terra dos agricultores e causam grandes impactos socioambientais para o território.

Luís Fernando conta que os agricultores não têm sido informados adequadamente de onde eles podem ou não plantar. Disse ainda que a fiscalização no município é inadequada e que há um tratamento diferente para aqueles com poder aquisitivo maior. Manoel João Pereira, pescador e lavrador do Capão, se pergunta o porquê de não poder plantar sua roça, enquanto aqueles que têm interesse em construir, conseguem a liberação para “vir com uma máquina e arrancar tudo”. Ele mantém o engenho do pai funcionando desde a década de 1970.

O que move a resistência destes engenhos é principalmente a manutenção da tradição e da sua cultura. Dona Santina, que é forneira, coisa rara para uma mulher no mundo dos engenhos, ama ficar no engenho, tratar o gado e manter a cultura herdada da família: “se me diz pra fazer outra coisa eu não quero”. Além da preservação da cultura, a manutenção dos engenhos pode vir a se tornar um atrativo turístico para a região. Mariana, neta da Vó Cicina, fez um curso de guia de turismo e não quer perder as raízes. Ela teve o privilégio de receber turistas no engenho da família, com direito a café colonial, e vê grande potencial na valorização do turismo de base comunitária.

Estas atividades envolvendo a comunidade local fortalecem a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha, para que seja possível levar estas questões ao poder público local. Elas também vêm somar à campanha #EngenhoéPatrimonio, que busca mobilizar a sociedade civil e iniciativas do terceiro setor para propor o registro dos engenhos de farinha artesanais do litoral catarinense como patrimônio cultural imaterial reconhecido pelo IPHAN.

Buscando engajar comunidades e gerações diversas no processo de Inventário Participativo dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina, a equipe da Rede Catarinense de Engenhos/Cepagro esteve na última quarta (8 de agosto) na Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, em Bombinhas, para conversar com estudantes do 2º ano do Ensino Médio sobre a aventura de levantar os bens culturais relacionados aos engenhos da região. Conceitos como bens culturais, patrimônio e inventário foram dialogados com as/os estudantes de forma descontraída e afetuosa pela  agrônoma Karina de Lorenzi e a educadora Giselle Miotto. A mini-oficina faz parte do projeto PdC 2.0: estratégias em rede, que, através de atividades e vivências de educação patrimonial, tem o objetivo de criar um dossiê sobre os engenhos de farinha do litoral catarinense, material que pode embasar o pedido do registro destes como Patrimônio Cultural junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O projeto tem apoio da Secretaria de Estado de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer (SOL).

A ideia de trabalhar com os/as adolescentes surgiu durante a primeira oficina de Inventário Participativo do projeto em Bombinhas, realizado em maio deste ano no Engenho Comunitário do Miminho, revitalizado pela Fundação Municipal de Cultura. Com orientação das professoras Maria José de Melo Mafra e Eliane Pereira (História) e Caroline Floriano (Artes), a juventude irá visitar os engenhos, conversar com mestres e mestras, levantar seus bens culturais e produzir apresentações em diversos formatos. De acordo com a professora Eliane Pereira, na disciplina de Marketing (integrante do currículo profissionalizante em Hospedagem integrado ao Ensino Médio) as turmas vêm desenvolvendo jornais, sendo que dois grupos já se interessaram pela pauta dos engenhos para suas publicações. A estudante Ariel Gonçalves, de 17 anos, propôs que seja feita uma homenagem a engenheiros e engenheiras no final do ano. “Já fizemos isso com os pescadores, poderíamos fazer com os mestres e mestras dos engenhos”, disse a jovem. A jornalista da Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas, Márcia Ferreira, também vai colaborar na iniciativa, pois já trabalha há alguns anos com o registro e produção de materiais sobre o Patrimônio Cultural Imaterial de Bombinhas.

Ao trabalho na EEB Maria Rita Flor somam-se outras ações de educação patrimonial para construção do Inventário Participativo dos engenhos, como oficinas de mapeamento e preparação de receitas, a produção de spots audiovisuais #EngenhoÉPatrimônio e as rodas de conversa animadas pelo documentário Cultura de Engenho. Haverá oficinas também em Garopaba, Imbituba e Florianópolis. Através de metodologias e linguagens diversas, a Rede vai tecendo entendimentos com as comunidades sobre a importância cultural e afetiva do Patrimônio Cultural Imaterial, que vão muito além da chancela estatal. Como disse Carla Cruz, do IPHAN, durante uma das atividades da Rede em fevereiro de 2017, “Patrimônio Cultural tem a ver com resistência”.

Na oficina Mapeando os Engenhos de Farinha, realizada no último sábado (28 de julho) no Sertão do Ribeirão, moradoras e moradores trouxeram lembranças e informações sobre a presença dos engenhos de farinha de mandioca no Sul da Ilha de Santa Catarina. A atividade integra projetos do Cepagro apoiados pelo edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura e também pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo (SOL) para a produção de um Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha e também para o Inventário Cultural dos Engenhos de Santa Catarina. Durante a oficina, foram discutidos também os desafios para a manutenção da produção artesanal de farinha em Florianópolis.

A ausência massiva das crianças nas aulas durante os meses de junho, julho e agosto – correspondentes à temporada das farinhadas – levou a professora Almerinda Catarina Scotti de Souza, ainda na década de 70, a cogitar mudanças no calendário letivo na escola do Sertão do Ribeirão, onde lecionava. “Ninguém vinha pra aula, só queriam ir fazer farinha”, recorda Almerinda, hoje presidente da Associação de Moradores da comunidade. Uma de suas estudantes era Luzia Ramos dos Santos, que ainda lembra das brincadeiras misturadas à lida no engenho do pai. “A gente começava de madrugada e ia até à noite, às vezes pegava no sono dentro dos balaios mesmo. Meu pai me levava de volta pra casa nos ombros, eu olhava pro céu e pensava que a lua caminhava com a gente”, recorda Luzia, que hoje trabalha como cozinheira escolar. Almerinda, Luzia e mais 20 pessoas do Sertão do Ribeirão, Campeche e Ribeirão da Ilha compartilharam estas e outras lembranças e conhecimentos sobre os engenhos de farinha no sul da Ilha de Santa Catarina durante a oficina Mapeando Engenhos de Farinha, realizada no último sábado no Sertão do Ribeirão. O objetivo da oficina era identificar e mapear os engenhos e roças de mandioca na região sul da Ilha, além de fazer um levantamento dos bens culturais ligados aos engenhos: o que aquelas famílias consideravam que era mais importante nos engenhos?

Luzia Ramos dos Santos e a mãe, Cecília, guardam os artefatos do tempo da produção artesanal de farinha.

Enquanto o discurso hegemônico coloca os engenhos somente como lugares de memória, a oficina identificou 5 unidades produtivas e ativas no Sertão do Ribeirão, Campeche, Rio Tavares e Ribeirão da Ilha. Além destes, 2 engenhos do Sertão do Ribeirão foram desativados recentemente, mas seguem montados. O principal obstáculo para a produção de farinha? Segundo os participantes da oficina, é a obtenção da matéria-prima: a mandioca. “A gente tem vontade, mas não tem o direito de trabalhar. Tenho engenho, mas não posso fazer roça. Me falam pra plantar num lugar, mas eu quero plantar onde eu sei que vai dar”, afirma Apolinário Vergílio Soares, agricultor do Sertão do Ribeirão e dono de um engenho desativado há 3 anos. Como sua propriedade está dentro de uma Unidade de Conservação – o Parque Municipal da Lagoa do Peri -, Apolinário não pode abrir áreas de roça para plantar mandioca, o que inviabiliza a sua produção de farinha se ele não tiver condições de trazer mandioca de fora. Outro “engenheiro” do Sertão do Ribeirão é Manoel Domingos de Souza, o Neca, que traz mandioca do Canto da Lagoa e de outros bairros para fazer farinha. “Até quando vou fazer eu não sei, enquanto tiver vontade de trabalhar acho que vai”, afirma o agricultor e mestre-forneiro. “Como vamos manter a tradição? Vou plantar mandioca onde, no mar? Comprar mandioca na Garopaba com veneno pra fazer farinha?”, questiona Manoel Jesus da Natividade, outro Neca, morador da Costeira do Ribeirão e também remanescente da produção artesanal de farinha.

Jacob Heindeinreich (às esquerda), com Daura e Manoel Domingos de Souza, guardiões da produção artesanal de farinha em Florianópolis.

Às restrições para abertura de áreas de roça – que também usavam muito as encostas de morro, hoje Áreas de Preservação Permanente -, soma-se também a falta de mão-de-obra para cultivar e processar a mandioca. Ainda assim, entre vizinhos sempre chega alguém para ajudar, como Osvaldina Maria Barcelos, que cresceu em engenhos e hoje ajuda Neca durante as farinhadas: “Quando chega o tempo de fazer farinha, é o que a gente mais gosta de fazer”, conta Dina. “Se não tiver ninguém pra ajudar, não dá pra fazer. Se vier 10 pessoas e ficar só conversando, não sai farinha. Tem que vir pra ajudar”, explica Neca. “No engenho de farinha tudo é importante. Começa pela raspagem. Raspou, tem que levar pro ralador. Do ralador pra prensa. Seca num dia, vai pra peneira e forno no outro. É uma sequência. Todos trabalham, mulher e homem”, explica Jacob Heideinreich, de 93 anos, dono de um engenho em funcionamento no Ribeirão da Ilha. Apesar de todos estes desafios, ele e o filho João seguem cultivando mandioca no próprio terreno e fazendo farinha, assim como Neca e outros engenheiros do Campeche e Rio Tavares. 

Em termos numéricos, o declínio dos engenhos de farinha é visível na Ilha de Santa Catarina. Luzia Ramos dos Santos fez um levantamento junto com sua mãe, Cecília Ramos dos Santos, de 83 anos, que mostra que em 1940 eram 22 engenhos ativos

Cecília Ramos dos Santos (ao centro) e Yolanda Heideinreich (à esquerda) compartilharam memórias e informações sobre os engenhos

só no Sertão do Ribeirão. Em 1974, quando Luzia era criança, o número havia caído para 18. Hoje, só os Necas (Domingos de Souza e Jesus da Natividade) segue fazendo farinha ali. Por outro lado, há um movimento de adquirir engenhos desativados para fazê-los funcionar novamente. Um dos mais interessados é Ataíde Silva, coordenador da Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA, no Campeche. “Queremos um parque com nossas raízes: gado, roça de mandioca e aipim e engenho, pra passar pras novas gerações”, afirma Ataíde, que identificou 2 engenhos em funcionamento no Campeche. Além disso, colocou a área da Horta Comunitária à disposição para quem quisesse fazer sua roça de mandioca ali. “No Campeche tem terra pra plantar, mas não tem plantador. É terra de areia, é tudo que o aipim e mandioca gostam”, completa.

 

A fala de Ataíde e outras mostram como a mobilização e o (re)encantamento das juventudes para com a lida dos engenhos é fundamental para a conservação deste patrimônio cultural e agroalimentar. A promoção de oficinas práticas e atividades com escolas foram apontadas pelos participantes como algumas estratégias para manter os engenhos vivos. Foi apontado também que seria importante restringir a venda separada de peças de engenho como artigos decorativos, tendência que vem crescendo em Santa Catarina. Além disso, o diálogo com o Poder Público para a preservação dos engenhos (e da produção de mandioca) no Plano de Manejo das Unidades de conservação foi outro encaminhamento considerado prioritário.

 

Enquanto isso, a produção artesanal de farinha de mandioca segue resistindo na Ilha de Santa Catarina. Nesta semana, Jacob e João, por exemplo, estão na segunda forneada da temporada, no Ribeirão da Ilha, mantendo vivos os saberes e as práticas que fazem dos engenhos patrimônio cultural de Santa Catarina.