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texto e foto: Ana Carolina Dionísio (Cepagro)

“Cada uma dessas tábuas tem histórias de muito amor e luta”. Emocionada, a engenheira agrônoma Marlene Borges, uma das fundadoras da Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI), lembra o histórico de resistência de cerca de 100 famílias de agricultores e pescadores dos Areais da Ribanceira contra a desterritorialização promovida pela especulação imobiliária e por grandes empreendimentos chamados desenvolvimentistas. Vivendo há quase 200 anos da agricultura familiar itinerante e da pesca artesanal, a comunidade hoje luta para manter as terras das quais depende seu modo de vida, encurraladas entre o Porto de  Imbituba, loteamentos imobiliários e plantas de produção de cimento e gesso. No centro desse território em disputa está o Engenho da ACORDI, construído entre 2002 e 2004. Foi no galpão anexo a esse “espaço sagrado” – nas palavras de Marlene – que aconteceu o II Encontro da Rede de Engenhos Artesanais de Santa Catarina no domingo passado, 29 de janeiro.

O Engenho e o Galpão da ACORDI, nos Areais da Ribanceira: espaços de luta e resistência da agricultura tradicional e da pesca artesanal

O Engenho e o Galpão da ACORDI, nos Areais da Ribanceira: espaços de luta e resistência da agricultura tradicional e da pesca artesanal

O evento reuniu quase 40 famílias de agricultores e “engenheiros” de Imbituba, Garopaba, Florianópolis, Biguaçu e Palhoça, além de pesquisadores, representantes do Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC e do IPHAN/SC, além do Prefeito de Imbituba e do Superintendente da SEAPI – Secretaria de Agricultura, Pesca e Infraestrutura de Imbituba. No desenrolar das atividades, que incluiu um mapeamento participativo dos engenhos da costa sul de Santa Catarina, ressaltou-se a importância de conservar não só os engenhos em funcionamento, mas os saberes e dinâmicas agrícolas das comunidades e a agrobiodiversidade das variedades de mandioca e outros cultivos de subsistência. Ligada a esse sistema agroalimentar representado pelos engenhos está a própria identificação cultural de centenas de famílias que os mantém vivos, sejam como unidades produtivas ou espaços de memória. O próximo Encontro da Rede será em Garopaba, no final de março ou início de abril.

A facilitadora Giselle Miotto e sua ajudante, Isabelle Furtado

A facilitadora Giselle Miotto e sua ajudante, Isabelle Furtado

As atividades do dia tiveram dois momentos básicos: um diálogo sobre Patrimônio Imaterial mediado por Carla Ferreira Cruz, do IPHAN, e o mapeamento participativo dos engenhos de farinha de Santa Catarina, facilitado pela equipe do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha: Giselle Miotto, Manuela Braganholo, Flora Castellano e Alexandre Pires Lage. Para abrir o evento, o Prefeito de Imbituba, Rosenvaldo Júnior, e o Superintendente da Secretaria de Agricultura, Pesca e Infraestrutura do município, Evaldo Espevim, falaram do empenho da nova administração em “restabelecer a agricultura e a pesca em Imbituba”, ressaltando o fato de que o Plano Diretor exclui áreas rurais do município. “Mas estas atividades podem coexistir, não é preciso acabar com o campo em nome do desenvolvimento”, afirmou Espevim, que visitou, junto com Marlene, quase 40 engenhos durante a mobilização prévia ao Encontro.

Na sequência, Marlene Borges e  o agricultor Luiz Farias apresentaram a ACORDI, fundada em 2002 como uma estratégia de defesa das famílias dos Areais da Ribanceira contra sua desterritorialização: as terras que eles tradicionalmente cultivavam em uso comum haviam sido vendidas para a empresa ENGESSUL em 2000, a R$ 0,11 o metro quadrado. Com a construção do engenho e a realização da primeira Feira da Mandioca de Imbituba a partir

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Marlene Borges e Luiz Farias apresentam o histórico de reivindicações e lutas da ACORDI

de 2004, a ACORDI fincou suas raízes e passou a buscar a regularização de seus territórios. Ao longo de seus quinze anos, a Associação sofreu revezes. Cerca de 70 famílias das comunidades da Ribanceira e Vila Esperança (além de outras 130 em outras comunidades) perderam as terras em que cultivavam mandioca devido a ações de reintegração de posse a favor da Engessul em 2010, quando também tentou-se demolir o Engenho para a construção de uma estrada. Fazendo barricadas e com o abraço do movimento estudantil, eclesial e do MST, a ACORDI defendeu seu engenho e o que ainda restavam de suas terras durante um mês. “A comunidade sabe onde é seu território”, afirma Marlene, que ressalta o caráter itinerante da agricultura tradicionalmente praticada pela comunidade. Em 2013, com apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos, a ACORDI  conseguiu assessoria antropológica e jurídica para a defesa de seus direitos culturais e territoriais. A reivindicação das terras está protocolada junto ao INCRA, aguardando o laudo antropológico do órgão.

“Fica até difícil falar depois da Marlene”, reconheceu Carla Ferreira Cruz, do IPHAN. Sua fala sobre Patrimônio Imaterial corroborou a importância da mobilização comunitária que caracteriza o histórico da ACORDI e a formação da Rede de Engenhos: “Se a comunidade não se unir, o Estado não vai cuidar daquele bem a ser patrimoniado. E uma Rede é uma forma da comunidade se blindar e fortalecer. Patrimônio Cultural tem a ver com resistência”, afirmou. Contudo, independente de um título de “Patrimônio Cultural” concedido pelo Estado, as comunidades precisam apropriar-se do que querem preservar e passar para as próximas gerações: “Independente se encaminham para registro ou não, o que precisa estar claro é o que é importante para a comunidade”, explicou.

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Carla Cruz, do IPHAN: “Patrimônio Cultural tem a ver com resistência”

O processo de registro dos engenhos como patrimônio cultural imaterial já foi vislumbrado pela ACORDI como outra estratégia de resistência de sua agricultura tradicional. Carla Cruz alertou, por outro lado, que o registro seria mais um diferencial nesse processo de regularização fundiária, mas que não poderia garanti-la. “O IPHAN não tem como garantir território. Mas a chancela pode ser um capital para a articulação política na busca da regularização”, esclareceu.

Se o pedido de registro como Patrimônio Imaterial deve partir das comunidades, perceber onde estão e quantos são  esses engenhos é um passo importante. Nesse sentido é que a equipe do Ponto de Cultura promoveu durante o Encontro um mapeamento dos engenhos de farinha e de cana de açúcar na costa de Santa Catarina. Divididos em 4 grupos, os participantes vasculharam suas memórias individuais e comunitárias para colocar no papel a (r)existência desses locais tidos como extintos, inativos, mortos.

Equipe da ACORDI durante o mapeamento

Equipe da ACORDI durante o mapeamento

Só na região de Imbituba foram listados 105 engenhos. Marlene e Evaldo visitaram 39 deles para convidá-los ao Encontro; destes, 25 estavam ativos – 3 realizando comercialização e 22 para subsistência e “o prazer de produzir farinha”. A região da Ribanceira, onde está a ACORDI, concentra 18 engenhos, mas somente 2 estão em funcionamento. O agricultor Luiz Farias lembra que ainda faltaram 8 comunidades na lista: com isso, pode-se chegar a quase 200 engenhos só nesse município. O agricultor Aurino de Souza fez outra ressalva importante: a queda na atividade dos engenhos deve-se à perda das áreas de cultivo de mandioca pelas famílias da região. Ele chegou a produzir entre 500 e 800 sacos de farinha anuais, num engenho manual. Hoje, ainda que com um motor, chega a no máximo 40 sacos por ano. Isso porque ele foi uma das 70 famílias que perdeu as terras para a Engessul em 2010. “Ficamos só com as roças perto da casa. As terras os poderosos tomaram”, lembra.

Em Garopaba foram identificados 50 engenhos.

Em Garopaba foram identificados 50 engenhos.

Outra grande concentração de engenhos foi registrada pelo grupo de Garopaba: 50, com 45 deles produzindo para o auto consumo, 3 para comercialização e 1 semi-industrial que é comunitário. De acordo com José Furtado, agricultor agroecológico de Garopaba e membro da Rede Ecovida de Agroecologia, “a maioria do pessoal mantém o engenho porque a história da família tá ali. Como que vou derrubar algo que meu avô construiu 60 anos atrás?”.

A mesma importância histórico-cultural foi destacada pelo grupo de Florianópolis, que registrou a existência de 27 engenhos na Ilha de Santa Catarina. “A maioria ainda deve fazer farinha 1 vez por ano, pra não deixar morrer a cultura”, afirmou João Heidenreich, engenheiro agrônomo e herdeiro do

A Ilha de Santa Catarina registra a existência de 27 engenhos

A Ilha de Santa Catarina registra a existência de 27 engenhos

engenho de sua família no Ribeirão da Ilha. Sem áreas para o cultivo, precisam comprar mandioca para produzir farinha. A irmã de João, Graziela, disse que tem o sonho de conseguir conjugar o turismo com a produção de farinha para manter o engenho ativo.

Na região de Palhoça e Paulo Lopes foram mapeados outros 10 engenhos. “Mas já existiram 40 só no sul da Palhoça, nas comunidades das Três Barras, Pinheira e Maciambu”, contou a professora Jaqueline Prudêncio, moradora das Três Barras. Um dos engenhos ativos ali é do casal Rosa e João Nascimento, que compareceram ao evento com uma cesta cheia de quitutes de mandioca:

Mapeando os engenhos de Palhoça e Paulo Lopes

Mapeando os engenhos de Palhoça e Paulo Lopes

beiju, cuscus e bijajica. Produtos que também podem constituir o patrimônio imaterial dos engenhos, juntamente com as diversas variedades de mandioca, segundo o professor do Departamento de geografia da UFSC Nazareno José de Campos, que também participou do mapeamento. “A modernização do maquinário não necessariamente descaracteriza os engenhos, pois existem todas as outras características de

produção da mandioca e seus derivados”, disse.

O agricultor Luiz Farias, de Imbituba, concorda: “Ficam olhando se o engenho é elétrico ou com boi, mas o mais importante é a matéria prima, é a mandioca na roça”. Como disse Marlene Borges, “fica

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Dona Rosa Nascimento comercializa os produtos de seu engenho

difícil pensar no registro do modo de fazer farinha sem considerar o sistema produtivo da mandioca”. Neste sentido, os inventários dos Quilombos do Vale do Ribeira e do sistema agrícola do Rio Negro são referencias importantes de registros de Patrimonio Imaterial que envolvem agricultura, território e biodiversidade.

cartaz-encontro-engenhos-imbitubaReunindo famílias proprietárias e trabalhadores de engenhos artesanais, pesquisadores, técnicos e parceiros, a Rede de Engenhos de Farinha de SC promove seu 2º Encontro neste domingo, 29 de janeiro, na sede da Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI), a partir das 9h da manhã. Após um primeiro encontro de rearticulação em dezembro, no Casarão e Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa (Florianópolis), agora é a vez da comunidade dos Areais da Ribanceira receber esta atividade de debate e construção de soluções coletivas para a preservação dos saberes, dos modos de fazer e dos territórios para produzir a farinha de mandioca polvilhada catarinense.

A programação terá dois momentos básicos, ambos visando ao fortalecimento da Rede de Engenhos de Farinha de SC: uma exposição sobre Patrimônio Cultural Imaterial por Carla Ferreira, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e uma dinâmica de mapeamento dos engenhos artesanais de farinha em Santa Catarina, com contribuições de famílias “engenheiras” de Imbituba, Garopaba, Angelina, Palhoça, Biguaçu e Florianópolis. A primeira, com facilitação do IPHAN, tem o objetivo de seguir na construção coletiva e participativa de uma proposta de registro dos Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Parte desta construção passa pelo mapeamento dos engenhos, tanto dos que se mantêm ativos na produção de farinha quanto os que têm mais relevância cultural do que econômica nas comunidades. Tudo intercalado, é claro, com saborosos cafés com quitutes de engenho e uma apresentação de viola para fechar.

O Encontro faz parte de um ciclo de eventos viabilizados com recursos do Prêmio de Boas Prática em Salvaguarda do Patrimônio Imaterial, concedido pelo IPHAN em 2015 à ONG Cepagro, de Florianópolis, pelo trabalho realizado no Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, projeto que entre 2010 e 2014 promoveu diversas ações de valorização do patrimônio agroalimentar e cultural representado pelos engenhos de farinha catarinenses, através do Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura. O evento conta também os apoios da Prefeitura Municipal de Imbituba (através da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável, Agricultura e Pesca) e da ACORDI.

A participação no Encontro é gratuita, mas pede-se uma contribuição de R$ 35 para as refeições (cafés e almoço). Para mais informações, o contato é engenhosdefarinha@gmail.com.
PROGRAMAÇÃO:
09:00 – 10:00 – Café e acolhida

10:00 – 10:45 – Apresentação dos participantes

10:45 – 11:30 – Informes, repasses e retomada do encontro passado

11:30 – 12:30 – Exposição sobre patrimônio cultural (Carla Ferreira – IPHAN)

12:30 – 14:00 – Almoço

14:00 – 16:30 – Dinâmica para mapeamento da Rede

16:30 – 17:00 – Avaliação do encontro

17:00 – 17:30 – Encaminhamentos e fechamento

17:30 – Apresentação Cultural (Violeiro)

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O forno estava apagado. Nenhum boi na cangaia; os fusos de prensar massa, imóveis. Ainda assim, era grande a movimentação de ideias e debates no Casarão e Engenho dos Andrade (Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis) no último sábado, 17 de dezembro, durante o Encontro de Rearticulação da Rede de Engenhos Artesanais de Farinha de Santa Catarina. Após dois anos e meio do encerramento das atividades do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, que entre 2010 e 2014 promoveu ações de valorização destes espaços, engenheiros e engenheiras de Florianópolis, Angelina, Imbituba, Garopaba, Biguaçu e Paulo Lopes encontraram-se com parceiros institucionais e apoiadores de coração para pensar e discutir estratégias de fortalecimento dos Engenhos Artesanais de Farinha de Mandioca do litoral e encostas da Serra de Santa Catarina. O evento foi viabilizado com recursos do Prêmio de Boas Práticas em Salvaguarda do Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), concedido ao PdC/Cepagro no final de 2015. O debate acerca das áreas rurais no Plano Diretor de Florianópolis e outros municípios costeiros e o registro dos engenhos de farinha como Patrimônio Cultural brasileiro foram duas das principais temáticas discutidas, entremeadas por muitas histórias, memórias, saberes e sabores, além da celebração do Dia da Mãe Terra (Terra Madre Day).

????????????????????????????????????“Só o que já aprendi com a experiência desses senhores já valeu meu dia”, contou o agrônomo João Heindenreich, dono de um engenho no Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, depois de uma conversa com dois mestres engenheiros: Luiz Farias, de Imbituba, e Celso Gelsleuchter, de Angelina. Se a troca de saberes, experiências e histórias já parecia frutífera, os debates promovidos ao longo do dia ampliaram mais ainda o horizonte de “construção de estratégias conjuntas de conservação”, como afirmou a historiadora Gabriella Pieroni, que foi coordenadora do PdC e do Convívio Engenhos de Farinha do Movimento Slow Food.

“Os engenhos fazem parte de uma cultura territorial, que precisa de terra para cultivar, senão vira só um prédio. Um dos fatores de declínio dos engenhos foram as restrições ambientais para o cultivo de mandioca, junto com a especulação imobiliária”. A avaliação de Cláudio Andrade, anfitrião do evento, abriu a discussão sobre as áreas rurais no Plano Diretor de Florianópolis. Com a participação da advogada Mexiana Zabott Adriano e dos vereadores eleitos Lino Peres (PT) e Marcos José de Abreu (PSOL), além do representante da Associação de Moradores de Santo Antônio de Lisboa Alexandre Queiroz, o debate ressaltou a importância de garantir a classificação de determinadas áreas como “rurais”, seja por questões tributárias – como os valores elevados de IPTU para áreas de cultivo – ou ambientais – já que áreas rurais seriam como uma ponte entre zonas urbanas e de preservação ambiental.

????????????????????????????????????Na proposta atual do Plano Diretor de Florianópolis, contudo, as áreas macro-rurais  foram excluídas, aparentemente porque não há condições de manter uma infraestrutura para atividades agrícolas na ilha. “A questão agrícola e as ruralidades vêm sendo invisibilizadas na cidade. Mas esta é uma visão de mundo construída. O que acontece é que, mercadologicamente, a agricultura não tem como competir com a especulação imobiliária”, afirmou Marcos José de Abreu.

Infelizmente, as ameaças da especulação imobiliária à continuidade dos engenhos não são exclusividade de Florianópolis. Na comunidade dos Areais da Ribanceira, em Imbituba, os membros da ACORDI????????????????????????????????????(Associação Comunitária Rural de Imbituba) vivem o impasse de buscar a regularização de suas terras junto ao INCRA, mas numa área que é considerada urbana, pagando tanto IPTU quanto ITR (imposto de áreas rurais). “A solução é que essas áreas voltem a ser rurais”, avalia Marlene Borges, uma das lideranças da ACORDI. Outro caminho apontado por ela é a classificação dos agricultores e agricultoras dos Areais da Ribanceira como comunidade tradicional.

Tanto nas discussões sobre Plano Diretor quanto na categorização das comunidades dos engenhos como Povos e Comunidades Tradicionais (PCT), aconstituição dos engenhos como um “sujeito político”, nas palavras de Gabriella Pieroni, é fundamental para ????????????????????????????????????o fortalecimento da Rede e legitimação de suas demandas. Outra proposta para a conservação das comunidades engenheiras e de seus modos e territórios de produção da mandioca é o registro dos engenhos como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). “Pode ser uma estratégia para a manutenção das comunidades, dos engenhos e também do modo de produção da mandioca”, avalia Marlene Borges.

E qual seria o significado dos engenhos como Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro? Foi com esta pergunta que a historiadora Regina Helena Santiago, do Iphan/SC, iniciou a oficina de Política de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial durante o evento. Além de esclarecer as diversas categorias englobadas pelo termo “patrimônio” – mais do que monumentos e prédios, comporta também saberes, celebrações, formas de expressão, lugares, modos de fazer – Regina Helena explicou o passo-a-passo do pedido de registro junto ao Iphan. Neste ponto, ressaltou a importância da participação das comunidades no processo. “Só o Estado não consegue salvaguardar. É a participação que garante a preservação do patrimônio”, afirmou. De acordo com a historiadora, só a chancela do Iphan não assegura a preservação daquele baixa43patrimônio, mas pode facilitar o acesso a políticas públicas para promover a sustentabilidade desses saberes, lugares e modos de fazer. Ou, como disse Luiz Farias, da Acordi: “O segredo da farinha é quem faz, não é o engenho. O engenho é só uma máquina”.

A estratégia do registro dos engenhos já foi levantada  com enfoques diferentes pela comunidade da ACORDI e pelo Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC (NEA), representado no evento por Francisco do Vale Pereira. Enquanto a comunidade dos Areais da Ribanceira busca a garantia dos espaços de produção de mandioca e da manutenção do seu sistema agrícola, a proposta do NEA foca no modo de produção da farinha de mandioca. “Há também saberes sobre os instrumentos de engenho, como o tipiti, e outras ferramentas”, lembra a articuladora cultural Gláucia Maindra, também da ACORDI. Além disso, o próprio Casarão e Engenho dos Andrade é tombado como Patrimônio de Florianópolis.

baixa59Para fortalecer essa mobilização e buscar um consenso de forma participativa e colaborativa é que, dando seguimento ao uso dos recursos do Prêmio de Boas Práticas em Salvaguarda do Patrimônio Imaterial do Iphan, a Rede promove novo encontro no dia 29 de janeiro de 2017, na ACORDI. Até lá, os membros da Rede, com auxílio da Epagri e do NEA, trabalharão em cima da realização de um mapeamento dos engenhos artesanais de farinha de SC, reunindo também documentação escrita e (áudio)visual sobre estes espaços. A proposta do registro junto ao Iphan certamente estará na pauta desse próximo encontro, assim como a discussão sobre a identidade da Rede. Como lembra Gabriella Pieroni, “para pensarmos o que é patrimônio, precisamos entender primeiro o que é essa Rede”.

Nos vemos em janeiro!

convite-novoApós receber o Prêmio de Boas Práticas em Salvaguarda do Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha realiza um encontro no Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, no próximo sábado, 17 de dezembro. O objetivo do evento é prosseguir qualificando a articulação da Rede de Engenhos Artesanais de Farinha de Santa Catarina, que engloba famílias “engenheiras” desde Imbituba até Bombinhas, passando por Palhoça, Florianópolis e Angelina. As atividades começam às 9h da manhã e vão até às 18h.

O Ponto de Cultura foi uma iniciativa do Cepagro que promoveu ações de valorização dos engenhos artesanais de farinha catarinenses entre 2010 e 2014. No ano passado, ficou em quarto na premiação do IPHAN dentre 121 ações espalhadas pelo Brasil.  Na programação desse reencontro, além de avançar no mapeamento participativo dos Engenhos no Estado, acontece a exibição do documentário Engenhos da Cultura: Teias Agroecológicas e uma roda de conversa sobre os engenhos de farinha e áreas rurais no Plano Diretor de Florianópolis.

Outro ponto importante do encontro – além do cardápio cheio de quitutes de engenho – é a oficina sobre a Política de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, com Regina Helena Santiago (IPHAN/SC). Isso porque esta nova fase do Projeto marca a continuidade da mobilização para construir a proposta de Registro dos Engenhos de Farinha como Patrimônio Cultural do Brasil de forma colaborativa entre as várias iniciativas do Estado.

A participação no evento é aberta e gratuita, mas espera-se uma contribuição de R$ 30 para o almoço e café, além da confirmação de presença pelo email engenhosdefarinha@gmail.com até a 5ª feira (15 de dezembro).

SERVIÇO:

O quê: Encontro de Articulação da Rede de Engenhos de Farinha de SC
Quando: Sábado, 17 de dezembro, às 9h
Onde: Casarão e Engenho dos Andrade (Caminho dos Açores, 1180, Santo Antônio de Lisboa).

A proposta de registro do modo de fazer a farinha polvilhada de Santa Catarina e a mostra artístico-gastronônica Teias Culturais Agroecológicas foram capa do Caderno Plural (jornal Notícias do Dia) do dia 11 de julho de 2014.

 

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cartaz lançamento egenhosA coleção Engenhos da Cultura, composta por livro e audiovisual e organizada pela historiadora e coordenadora do PdC Gabriella Pieroni, será lançada nesta sexta, 11 de julho, às 16h, no Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis. Os materiais  reúnem uma sistematização das metodologias desenvolvidas ao longo dos quatro anos de trabalho do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, além de receitas e reflexões ligadas ao patrimônio agroalimentar e cultural dos engenhos de farinha de mandioca.

 

 

O lançamento da coleção faz parte da  mostra artístico-gastronômica Teias Culturais Agroecológicas, que também traz na programação o projeto Luas de Maio, com exibição do documentário Antes do Inverno, um retrato da pesca artesanal da tainha em Bombinhas, além de exposição fotográfica. A promoção da mostra é da Rede Cultura Viva SC, através de dois Pontos de Cultura: Engenhos de Farinha (Florianópolis) e Engenho do Sertão (Bombinhas).

Mais do que vistos e ouvidos, as histórias e saberes tradicionais do litoral catarinense também poderão ser degustados durante o evento, no coquetel agroecológico com produtos típicos e novas fusões preparadas por chefs do Movimento Slow Food. Um destes quitutes, a bijajica (bolo preparado com massa de mandioca, amendoim e especiarias), acaba de entrar para a Arca do Gosto do Slow Food, catálogo de alimentos ameaçados de extinção mas que continuam sendo saboreados e ensinados através das gerações. Outro produto catarinense que entrou para a Arca foi o Butiá, fruta nativa do Sul do Brasil.

Para completar as ações de fomento à (agri)cultura dos engenhos, a mostra simboliza o fortalecimento da articulação da Rede de Engenhos de Farinha da Grande Florianópolis. Através do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, a Rede encaminhará em agosto para a FCC o pedido de salvaguarda do modo de fazer a farinha polvilhada de Santa Catarina como Patrimônio Cultural Imaterial estadual.

 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

16h – Exibição do vídeo ENGENHOS DA CULTURA: teias agroecológicas e comentário dos mestres e mestras da Rede dos Engenhos Artesanais da Grande Florianópolis

17h – Exibição do documentário ANTES DO INVERNO, com comentário dos realizadores da Tramela Produções

18:00 – Coquetel agroecológico e lançamento do livro ENGENHOS DA CULTURA: teias agroecológicas.

Paralelamente estará aberta a exposição fotográfica Luas de Maio – Edição Florianópolis, com degustação de produtos típicos de Bombinhas

 

No Museu Comunitário Engenho do Sertão, em Bombinhas, atividades de educação patrimonial e alimentar buscam a preservação dos saberes e sabores relacionados a práticas tradicionais como o feitio do farinha de mandioca e a pesca artesanal da tainha. Além de participar da Rede Catarina Slow Food, a equipe da ONG que gestiona o espaço, o Instituto BoiMamão, também está contribuindo para a proposta de salvaguarda do modo de fazer a farinha polvilhada como Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina.

AgroalimentarBombinhas-57

O volumoso álbum encapado com retalhos de chita florida está recheado de fotos, recortes de jornal e folhetos. Tudo cuidadosamente organizado, com legendas escritas à mão. Enquanto mostra seu “Livro da Vida”, a gestora cultural Rosane Luchtemberg descreve modestamente a jornada de quinze anos para reunir aquele material: “Foi um trabalho de rua. Sou uma catadora de memórias”. Desde 1999, quando iniciou o primeiro mapeamento dos engenhos na região de Bombinhas (SC), a “Rô do Engenho” dedica seu trabalho à preservação da memória e à revalorização destes espaços, outrora tão significativos para a economia e organização social locais.

Não é à toa que a sede da ONG fundada por Rosane em 1998, o Instituto BoiMamão, é dentro de um engenho, onde hoje funciona o Museu Comunitário Engenho do Sertão. Entre fusos e coxos talhados em madeira artesanalmente, artefatos para armazenar farinha e outros móveis antigos, o espaço é muito mais do que  uma exposição de acervo físico. Partindo do princípio de que “Patrimônio não é somente o que podemos tocar; mas sim o que nos toca”, ali são promovidas oficinas de educação patrimonial e alimentar com crianças e adolescentes, além de atividades com estudantes de pós-graduação. “O engenho é um espaço de educação, mediação e degustação”, afirma a educadora e produtora cultural Aline Vieira, também responsável pelo Pontinho de Cultura Alecrim, que desde 2009 trabalha estas metodologias com crianças da comunidade focando no complexo agroalimentar dos engenhos e da pesca artesanal.

Tornando as atividades educativas e de mediação entre o passado e o presente mais saborosas, as degustações de produtos de engenho são parte do cotidiano do Museu. Os alunos da pós-graduação em Turismo da Univali são convivas freqüentes. No segundo seminário Patrimônio Agroalimentar em Debate, promovido ali pelo PdC Engenhos de Farinha em maio de 2013, não faltou beiju, cuscus, rosca de massa e o bolo “nego deitado” na mesa. E na primeira 5ª feira de cada mês é realizada a “Tarde do Beijú, Contos e Cantigas”, iniciativa da Fundação Cultural de Bombinhas para promover o encontro da comunidade e trocar histórias enquanto fazem e saboreiam alimentos típicos dos engenhos. “Vêm principalmente senhoras da comunidade que voltam a se encontrar para comer beiju e cuscus”, conta Aline.

A preservação dos saberes, histórias e práticas ligados aos alimentos vai além do espaço do Engenho do Sertão. Em Bombinhas, a farinhada (enquanto processo de produção artesanal da farinha de mandioca) foi tombada como Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da cidade, assim como a pesca artesanal da tainha. Já a consertada, delicioso licor de café com cachaça e especiarias muito usado nos folguedos de boi de mamão, recebeu no ano passado a chancela de “bebida típica de Bombinhas”. A candidatura da consertada à Arca do Gosto, catálogo do Slow Food de produtos típicos em risco de extinção, também está sendo considerada.

A equipe do Engenho do Sertão teve participação ativa nestes processos de tombamento e continua atuando na promoção destes patrimônios. Paralelamente ao Museu e ao Pontinho de Cultura, por exemplo, Aline trabalha na produtora audiovisual Tramela, cuja última produção, Antes do Inverno, abriu o Festival Internacional de Cinema de Balneário Camboriú no dia 6 de abril. Segundo Aline, um dos objetivos do documentário, que mostra a pesca artesanal da tainha em Bombinhas, foi causar uma identificação da população local com esta prática e os saberes e sabores relacionados a ela. “A parte que mais emocionou a comunidade foi a do pirão d’água com peixe frito”, conta Aline, que também faz parte do grupo cênico-musical Cantadores de Engenho, que leva aos palcos uma releitura das práticas culturais destes espaços.

A mestra de engenho  Rosa Melo (direita) é uma das protagonistas do documentário "Antes do Inverno", produzido por Aline Vieira (esquerda).

A mestra de engenho Rosa Melo (direita) é uma das protagonistas do documentário “Antes do Inverno”, produzido por Aline Vieira (esquerda).

Outra contribuição de Aline e Rosane para a preservação das práticas tradicionais dos engenhos é na salvaguarda do modo de fazer a farinha polvilhada como Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina. A proposta, que está sendo elaborada pela equipe do PdC Engenhos de Farinha, contém um dossiê com fotos, vídeos, matérias e artigos de jornais e revistas e bibliografia para o qual o acervo do “Livro da Vida” do Engenho do Sertão, cedido por Rosane, constitui um aporte valioso. O pedido será feito oficialmente à Fundação Catarinense de Cultura em maio, juntamente com o lançamento do vídeo e do livro de sistematização de metodologias do PdC.