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Elba Nair da Santa Cruz e Antônio Jacob Cruz cresceram em engenhos de farinha em Bombinhas. Com a chegada do turismo de massa à cidade, dedicaram-se a outras atividades: um pouco de pesca, um pouco de aluguel para temporada. Mas não esqueceram da produção artesanal de farinha: em 2005, compraram de novo um engenho, do sogro de sua filha. “Ele sabia que eu iria manter o engenho”, conta, orgulhosa, Elba Nair da Santa Cruz. Ainda hoje, ela e o marido produzem cerca de 250kg de farinha por ano. “Não é pra ter lucro, é pra nós mesmo. Pra dar pra algum vizinho”, diz Elba.

No último dia 5 de dezembro, mestres e mestras dos engenhos como Elba e Antônio foram homenageados/as por estudantes da Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, que fecharam o ano letivo apresentando os trabalhos resultantes de sua imersão na cultura dos engenhos. A pesquisa junto aos engenhos de farinha do município foi motivada por uma oficina de educação patrimonial que o Cepagro facilitou ali em agosto deste ano e coordenada pelas professoras Caroline Celle Waltrick (Artes), Josiane Mendes Bezerra (Turismo) e Maria José (História). Quatro turmas do 2º ano do Ensino Médio participaram da pesquisa, que passou por 4 engenhos da região, gerando músicas, pinturas e 2 mini-documentários. “Toda a ideia e organização da homenagem foi dos/as jovens”, conta a professora Carolina Waltrick.

“Falar de engenho é falar da identidade de Bombinhas. E dela não podemos desistir”, afirma a estudante Ariel da Silva Serra Gonçalves de 17 anos. “Foi plantado pra nós que o engenho, a roça de mandioca, a horta eram feios. Mas mudamos isso. Não podemos deixar morrer essa cultura nem ter vergonha dela”, confirma a professora Maria José. Para Josiane Bezerra, professora do curso técnico em Hospedagem, a valorização e promoção da identidade cultural do município amplia as possibilidades de atividades turísticas ali. “Muitas cidades que têm o eixo turístico de sol e praia esquecem que a identidade cultural também atrai visitantes. Se o destino tem identidade cultural, pode trazer gente tanto no inverno quanto no verão”, afirma.

O trabalho dos/as estudantes da Maria Rita Flor vai compor o inventário cultural dos engenhos de farinha que a Rede Catarinense de Engenhos está mobilizando. Além da bela pesquisa de campo, a iniciativa é valiosa por mostrar o envolvimento da juventude na temática.

 

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Mapeamento realizado pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha identificou pelo menos 23 engenhos artesanais de farinha ativos na região

As rotinas de trabalho, as brincadeiras e a fartura dos engenhos de farinha e ranchos de pesca foram relembradas no último domingo, 9 de dezembro, durante a Oficina Mapeando os Engenhos de Farinha realizada na Associação Comunitária Rural de Imbituba, a ACORDI. Na atividade, promovida pela ONG Cepagro através de um projeto apoiado pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (SOL), participaram agricultoras, agricultores e proprietários de engenhos da região. O objetivo foi mapear os engenhos ainda existentes e também levantar informações sobre o patrimônio cultural ligado a eles, fortalecendo a Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e complementando os mapeamentos já realizados em Florianópolis, Bombinhas e Garopaba.

“Quando começava a farinhada, era como abrir as portas de uma festa”, recorda Luís Farias, da ACORDI. A temporada de produção artesanal de farinha – as farinhadas ­-, que começa perto de maio e estende-se até agosto, representava a reunião de vizinhos e familiares para o trabalho coletivo de arrancar e descascar a mandioca, colaborar na seva, prensar e torrar a farinha. Tudo envolto em brincadeiras, versinhos irônicos (chamados pasquim) e fartura: além da farinha, saía muito beijú, cuscuz, bijajica, mané pança, além das colheitas de batata doce e milho. “Também dava muito namoro nas farinhadas”, completa Luís Farias.

A industrialização da produção de farinha e o recrudescimento da legislação sanitária para ela contribuíram para que muitos engenhos artesanais fossem fechados. Entretanto, durante as atividades da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha, percebe-se que os engenhos seguem vivos e ativos. No mapeamento realizado em Imbituba, foram identificados pelo menos 23 engenhos que continuam produzindo mandioca artesanalmente. A Rede também já mapeou engenhos em Bombinhas, Florianópolis e Garopaba, mostrando que esta cultura segue pulsante no litoral catarinense.

Ainda assim, muitos dos saberes relacionados aos engenhos estão desaparecendo. “A técnica de fazer um fuso ou uma prensa de madeira está se perdendo”, afirma Marlene Borges, também da ACORDI. Aroldo dos Reis Carvalho, que tem um engenho em Imbituba, conta que “Eu aprendi a tirar o ponto da farinha com a minha mãe. Colocava na boca e sentia se tava estralando. Mas vou repassar isso pra quem?”. Neste sentido, o levantamento sobre os bens culturais dos engenhos – suas celebrações, saberes, mestres, objetos – revela-se importante para sua salvaguarda como patrimônio cultural de Santa Catarina e do Brasil. Além disso, a sensibilização da juventude na preservação deste patrimônio é peça fundamental.

Representações de sete engenhos de farinha de Garopaba participaram da Oficina de Educação Patrimonial realizada pela Rede Catarinense de Engenhos de Farinha e Centro de Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), no dia 25 de novembro no Engenho da Vó Cicina, na Lagoa da Encantada  A ação foi feita através do Projeto Ponto de Cultura 2.0: articulação em rede, com a facilitação da educadora Giselle Miotto e da Mestra em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade Manuela Braganholo. Ao longo de um dia de muita prosa e reflexões, as famílias presentes fizeram um levantamento dos bens culturais relacionados aos engenhos de farinha da região.

A oficina é continuação do mapeamento dos engenhos de farinha artesanais de Garopaba iniciado através do edital Elisabete Anderle, que buscou identificar e mobilizar os engenhos da região para compor a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha. Nessa primeira ação,realizada ao longo de três dias no início de novembro,houve a participação de três agentes locais: Luis Fernando, da comunidade do Macacu, Maria Cristina Gomes, estudante de educação patrimonial pelo IFSC e Claudete Medeiros, do coletivo Taiá Terra. Além de mapear 28 engenhos de farinha na cidade, foi possível conhecer  um pouco da realidade destes engenhos dentro do aspecto produtivo e de intenção de manutenção dos mesmos, seja desenvolvendo atividades vinculadas ao turismo ou mesmo como forma de preservação da cultura e subsistência.

Na dia 25, além de levantar os bens culturais, a comunidade também discutiu sobre as principais dificuldades que eles enfrentam para manter os engenhos de pé e funcionando. Na visão dos engenheirxs, o fator que mais compromete a manutenção desta cultura é o fato de não haver dentro do município aspectos legais que garantam a terra para o plantio, em relação ao Plano Diretor, onde as áreas rurais ficaram reduzidas comparada com a realidade, e até mesmo a questão de impostos. Como eles mesmo colocaram:  “Sem roça, não tem mandioca, sem mandioca, não tem farinha”.

Segundo José Antônio Furtado, o Zezinho, que trabalha no engenho construído por seu pai há 69 anos e faz parte do Conselho de Agricultura do município, “Hoje é tudo lote, não tem mais terra”. A resistência que ele e os outros engenheirxs da região fazem é principalmente contra a especulação imobiliária e a mega-projetos que preveem a expropriação de terra dos agricultores e causam grandes impactos socioambientais para o território.

Luís Fernando conta que os agricultores não têm sido informados adequadamente de onde eles podem ou não plantar. Disse ainda que a fiscalização no município é inadequada e que há um tratamento diferente para aqueles com poder aquisitivo maior. Manoel João Pereira, pescador e lavrador do Capão, se pergunta o porquê de não poder plantar sua roça, enquanto aqueles que têm interesse em construir, conseguem a liberação para “vir com uma máquina e arrancar tudo”. Ele mantém o engenho do pai funcionando desde a década de 1970.

O que move a resistência destes engenhos é principalmente a manutenção da tradição e da sua cultura. Dona Santina, que é forneira, coisa rara para uma mulher no mundo dos engenhos, ama ficar no engenho, tratar o gado e manter a cultura herdada da família: “se me diz pra fazer outra coisa eu não quero”. Além da preservação da cultura, a manutenção dos engenhos pode vir a se tornar um atrativo turístico para a região. Mariana, neta da Vó Cicina, fez um curso de guia de turismo e não quer perder as raízes. Ela teve o privilégio de receber turistas no engenho da família, com direito a café colonial, e vê grande potencial na valorização do turismo de base comunitária.

Estas atividades envolvendo a comunidade local fortalecem a Rede Catarinense dos Engenhos de Farinha, para que seja possível levar estas questões ao poder público local. Elas também vêm somar à campanha #EngenhoéPatrimonio, que busca mobilizar a sociedade civil e iniciativas do terceiro setor para propor o registro dos engenhos de farinha artesanais do litoral catarinense como patrimônio cultural imaterial reconhecido pelo IPHAN.

Buscando engajar comunidades e gerações diversas no processo de Inventário Participativo dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina, a equipe da Rede Catarinense de Engenhos/Cepagro esteve na última quarta (8 de agosto) na Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, em Bombinhas, para conversar com estudantes do 2º ano do Ensino Médio sobre a aventura de levantar os bens culturais relacionados aos engenhos da região. Conceitos como bens culturais, patrimônio e inventário foram dialogados com as/os estudantes de forma descontraída e afetuosa pela  agrônoma Karina de Lorenzi e a educadora Giselle Miotto. A mini-oficina faz parte do projeto PdC 2.0: estratégias em rede, que, através de atividades e vivências de educação patrimonial, tem o objetivo de criar um dossiê sobre os engenhos de farinha do litoral catarinense, material que pode embasar o pedido do registro destes como Patrimônio Cultural junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O projeto tem apoio da Secretaria de Estado de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer (SOL).

A ideia de trabalhar com os/as adolescentes surgiu durante a primeira oficina de Inventário Participativo do projeto em Bombinhas, realizado em maio deste ano no Engenho Comunitário do Miminho, revitalizado pela Fundação Municipal de Cultura. Com orientação das professoras Maria José de Melo Mafra e Eliane Pereira (História) e Caroline Floriano (Artes), a juventude irá visitar os engenhos, conversar com mestres e mestras, levantar seus bens culturais e produzir apresentações em diversos formatos. De acordo com a professora Eliane Pereira, na disciplina de Marketing (integrante do currículo profissionalizante em Hospedagem integrado ao Ensino Médio) as turmas vêm desenvolvendo jornais, sendo que dois grupos já se interessaram pela pauta dos engenhos para suas publicações. A estudante Ariel Gonçalves, de 17 anos, propôs que seja feita uma homenagem a engenheiros e engenheiras no final do ano. “Já fizemos isso com os pescadores, poderíamos fazer com os mestres e mestras dos engenhos”, disse a jovem. A jornalista da Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas, Márcia Ferreira, também vai colaborar na iniciativa, pois já trabalha há alguns anos com o registro e produção de materiais sobre o Patrimônio Cultural Imaterial de Bombinhas.

Ao trabalho na EEB Maria Rita Flor somam-se outras ações de educação patrimonial para construção do Inventário Participativo dos engenhos, como oficinas de mapeamento e preparação de receitas, a produção de spots audiovisuais #EngenhoÉPatrimônio e as rodas de conversa animadas pelo documentário Cultura de Engenho. Haverá oficinas também em Garopaba, Imbituba e Florianópolis. Através de metodologias e linguagens diversas, a Rede vai tecendo entendimentos com as comunidades sobre a importância cultural e afetiva do Patrimônio Cultural Imaterial, que vão muito além da chancela estatal. Como disse Carla Cruz, do IPHAN, durante uma das atividades da Rede em fevereiro de 2017, “Patrimônio Cultural tem a ver com resistência”.

Na oficina Mapeando os Engenhos de Farinha, realizada no último sábado (28 de julho) no Sertão do Ribeirão, moradoras e moradores trouxeram lembranças e informações sobre a presença dos engenhos de farinha de mandioca no Sul da Ilha de Santa Catarina. A atividade integra projetos do Cepagro apoiados pelo edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura e também pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo (SOL) para a produção de um Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha e também para o Inventário Cultural dos Engenhos de Santa Catarina. Durante a oficina, foram discutidos também os desafios para a manutenção da produção artesanal de farinha em Florianópolis.

A ausência massiva das crianças nas aulas durante os meses de junho, julho e agosto – correspondentes à temporada das farinhadas – levou a professora Almerinda Catarina Scotti de Souza, ainda na década de 70, a cogitar mudanças no calendário letivo na escola do Sertão do Ribeirão, onde lecionava. “Ninguém vinha pra aula, só queriam ir fazer farinha”, recorda Almerinda, hoje presidente da Associação de Moradores da comunidade. Uma de suas estudantes era Luzia Ramos dos Santos, que ainda lembra das brincadeiras misturadas à lida no engenho do pai. “A gente começava de madrugada e ia até à noite, às vezes pegava no sono dentro dos balaios mesmo. Meu pai me levava de volta pra casa nos ombros, eu olhava pro céu e pensava que a lua caminhava com a gente”, recorda Luzia, que hoje trabalha como cozinheira escolar. Almerinda, Luzia e mais 20 pessoas do Sertão do Ribeirão, Campeche e Ribeirão da Ilha compartilharam estas e outras lembranças e conhecimentos sobre os engenhos de farinha no sul da Ilha de Santa Catarina durante a oficina Mapeando Engenhos de Farinha, realizada no último sábado no Sertão do Ribeirão. O objetivo da oficina era identificar e mapear os engenhos e roças de mandioca na região sul da Ilha, além de fazer um levantamento dos bens culturais ligados aos engenhos: o que aquelas famílias consideravam que era mais importante nos engenhos?

Luzia Ramos dos Santos e a mãe, Cecília, guardam os artefatos do tempo da produção artesanal de farinha.

Enquanto o discurso hegemônico coloca os engenhos somente como lugares de memória, a oficina identificou 5 unidades produtivas e ativas no Sertão do Ribeirão, Campeche, Rio Tavares e Ribeirão da Ilha. Além destes, 2 engenhos do Sertão do Ribeirão foram desativados recentemente, mas seguem montados. O principal obstáculo para a produção de farinha? Segundo os participantes da oficina, é a obtenção da matéria-prima: a mandioca. “A gente tem vontade, mas não tem o direito de trabalhar. Tenho engenho, mas não posso fazer roça. Me falam pra plantar num lugar, mas eu quero plantar onde eu sei que vai dar”, afirma Apolinário Vergílio Soares, agricultor do Sertão do Ribeirão e dono de um engenho desativado há 3 anos. Como sua propriedade está dentro de uma Unidade de Conservação – o Parque Municipal da Lagoa do Peri -, Apolinário não pode abrir áreas de roça para plantar mandioca, o que inviabiliza a sua produção de farinha se ele não tiver condições de trazer mandioca de fora. Outro “engenheiro” do Sertão do Ribeirão é Manoel Domingos de Souza, o Neca, que traz mandioca do Canto da Lagoa e de outros bairros para fazer farinha. “Até quando vou fazer eu não sei, enquanto tiver vontade de trabalhar acho que vai”, afirma o agricultor e mestre-forneiro. “Como vamos manter a tradição? Vou plantar mandioca onde, no mar? Comprar mandioca na Garopaba com veneno pra fazer farinha?”, questiona Manoel Jesus da Natividade, outro Neca, morador da Costeira do Ribeirão e também remanescente da produção artesanal de farinha.

Jacob Heindeinreich (às esquerda), com Daura e Manoel Domingos de Souza, guardiões da produção artesanal de farinha em Florianópolis.

Às restrições para abertura de áreas de roça – que também usavam muito as encostas de morro, hoje Áreas de Preservação Permanente -, soma-se também a falta de mão-de-obra para cultivar e processar a mandioca. Ainda assim, entre vizinhos sempre chega alguém para ajudar, como Osvaldina Maria Barcelos, que cresceu em engenhos e hoje ajuda Neca durante as farinhadas: “Quando chega o tempo de fazer farinha, é o que a gente mais gosta de fazer”, conta Dina. “Se não tiver ninguém pra ajudar, não dá pra fazer. Se vier 10 pessoas e ficar só conversando, não sai farinha. Tem que vir pra ajudar”, explica Neca. “No engenho de farinha tudo é importante. Começa pela raspagem. Raspou, tem que levar pro ralador. Do ralador pra prensa. Seca num dia, vai pra peneira e forno no outro. É uma sequência. Todos trabalham, mulher e homem”, explica Jacob Heideinreich, de 93 anos, dono de um engenho em funcionamento no Ribeirão da Ilha. Apesar de todos estes desafios, ele e o filho João seguem cultivando mandioca no próprio terreno e fazendo farinha, assim como Neca e outros engenheiros do Campeche e Rio Tavares. 

Em termos numéricos, o declínio dos engenhos de farinha é visível na Ilha de Santa Catarina. Luzia Ramos dos Santos fez um levantamento junto com sua mãe, Cecília Ramos dos Santos, de 83 anos, que mostra que em 1940 eram 22 engenhos ativos

Cecília Ramos dos Santos (ao centro) e Yolanda Heideinreich (à esquerda) compartilharam memórias e informações sobre os engenhos

só no Sertão do Ribeirão. Em 1974, quando Luzia era criança, o número havia caído para 18. Hoje, só os Necas (Domingos de Souza e Jesus da Natividade) segue fazendo farinha ali. Por outro lado, há um movimento de adquirir engenhos desativados para fazê-los funcionar novamente. Um dos mais interessados é Ataíde Silva, coordenador da Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA, no Campeche. “Queremos um parque com nossas raízes: gado, roça de mandioca e aipim e engenho, pra passar pras novas gerações”, afirma Ataíde, que identificou 2 engenhos em funcionamento no Campeche. Além disso, colocou a área da Horta Comunitária à disposição para quem quisesse fazer sua roça de mandioca ali. “No Campeche tem terra pra plantar, mas não tem plantador. É terra de areia, é tudo que o aipim e mandioca gostam”, completa.

 

A fala de Ataíde e outras mostram como a mobilização e o (re)encantamento das juventudes para com a lida dos engenhos é fundamental para a conservação deste patrimônio cultural e agroalimentar. A promoção de oficinas práticas e atividades com escolas foram apontadas pelos participantes como algumas estratégias para manter os engenhos vivos. Foi apontado também que seria importante restringir a venda separada de peças de engenho como artigos decorativos, tendência que vem crescendo em Santa Catarina. Além disso, o diálogo com o Poder Público para a preservação dos engenhos (e da produção de mandioca) no Plano de Manejo das Unidades de conservação foi outro encaminhamento considerado prioritário.

 

Enquanto isso, a produção artesanal de farinha de mandioca segue resistindo na Ilha de Santa Catarina. Nesta semana, Jacob e João, por exemplo, estão na segunda forneada da temporada, no Ribeirão da Ilha, mantendo vivos os saberes e as práticas que fazem dos engenhos patrimônio cultural de Santa Catarina.

 

 

 

 

 

O Encontro contou com apoio da Prefeitura de Angelina e também do mandato do vereador Marquito (PSOL) para viabilizar o transporte dos/as participantes

Realizado durante a já tradicional Feira da Mandioca de Imbituba, o 5º Encontro da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha aconteceu no último domingo, 22 de julho, reunindo famílias engenheiras de Florianópolis, Angelina, Palhoça, Garopaba no engenho da ACORDI (Associação Comunitária Rural de Imbituba), cuja comunidade também participou do evento. Além de desfrutar das belas paisagens, conhecer o histórico de luta da Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira e saborear o almoço da roça, as/os participantes trocaram sementes, mudas, ramas de mandioca e aipim e claro, muitos causos, experiências e saberes.

Durante o Encontro, o pessoal da Rede também viu uma prévia do vídeo da campanha #EngenhoÉPatrimônio, que reúne história e memórias de quem viveu, trabalhou e brincou nos engenhos de farinha de Santa Catarina. O filme é uma das ferramentas de mobilização de comunidades para o reconhecimento dos engenhos de farinha como Patrimônio Cultural, assim como o documentário Cultura de Engenho, apresentado na noite anterior ao Encontro. Na ocasião, também foi lançada a Fortaleza Slow Food dos Engenhos de Farinha de Mandioca Polvilhada de Santa Catarina, mais uma chancela para a importância cultural e gastronômica do patrimônio agroalimentar ligado aos Engenhos.

Seu Neim, forneiro oficinal da ACORDI, confere as variedades de mandioca, aipim e macaxeira trazidas pra troca

Mas o ponto alto do Encontro foi a troca de ramas, com 11 variedades de aipim, mandioca e macaxeira de várias localidades – até mesmo da Amazônia – circulando entre dezenas de famílias, além de sementes crioulas de milho. “A troca de ramas acho que é algo tão interessante quanto a troca de ideias. Porque diversifica, enriquece”, avalia a agricultora Catarina Gelsleuchter, que veio de Angelina a Imbituba com outras 14 pessoas para participar do Encontro. Algumas variedades, como a Mandioca Broto Roxo e a Macula, já tinham desaparecido dos Areais da Ribanceira e foram resgatadas com outras famílias agricultoras pela agrônoma-agricultora Marlene  Borges, associada da ACORDI. “A perda do território também foi responsável por uma erosão genética”, explica Marlene, referindo-se ao despejo de famílias da comunidade por empresas privadas, que com a conivência do governo do Estado, “compraram” as terras tradicionalmente ocupadas há 200 anos pelas famílias. Entre 2010 e 2016, de acordo com Marlene, as variedades de mandioca e aipim no território tradicional dos Areais caiu de 45 para 5. “Essa troca então foi muito legal, minha coleção vai aumentar. E o importante é distribuir as ramas  pra outras pessoas, pra não se perder”, afirma.

Marlene Borges, da ACORDI, fala sobre o histórico de luta e resistência dos Areais da Ribanceira

A participação das famílias engenheiras de outros municípios no maior evento da ACORDI, a Feira da Mandioca, fortalece a luta da comunidade. “Foi um encontro muito bonito, foi além das minhas expectativas. Não pensei que tantas pessoas prestigiassem a Feira da Mandioca, vi muitas pessoas interessadas”, conta Catarina ao participar pela primeira vez da Feira, que neste ano chegou a reunir cerca de 3 mil pessoas nos três dias de programação. No mês passado, a Feira da Mandioca recebeu o Prêmio Boas Práticas em Sistemas Agrícolas Tradicionais, concedido pelo  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Embrapa e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU). A premiação financeira, no valor de R$ 70 mil reais, será usada para terminar a construção do Engenho da ACORDI, que desde 2010 simboliza a luta e a resistência desta comunidade tradicional na defesa de seu território. “Mas esse valor é pequeno perto do que foi o reconhecimento nacional e inclusive do potencial que temos para fazer o registro mundial deste sistema, conforme nos disseram”, conta Marlene. “Estar no mesmo patamar de pessoas como as quebradeiras de coco, com todo seu histórico de luta, foi louvável”, completa. A ACORDI ficou em 4º lugar na premiação do BNDES/IPHAN/FAO, que também laureou outros 2 sistemas agrícolas tradicionais de Santa Catarina: a Roça de Toco (Biguaçu) e a Cadeia Produtiva do Pinhão (Planalto Serrano). Todas estas iniciativas pretendem se encontrar em agosto deste ano para planejar uma articulação das comunidades tradicionais catarinenses.

A agricultora Rosa Nascimento, de Palhoça, levou 2 variedades de aipim e 1 de mandioca para plantar na sua comunidade, as Três Barras.

Pelo lado dos Engenhos, as atividades da Rede seguem no próximo sábado, 28 de julho, com a oficina MAPEANDO ENGENHOS DE FARINHA, no Salão Comunitário do Sertão do Peri, mais uma ação contemplada no Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura.

 

 

No último dia 02 de Julho, a caravana #EngenhoéPatrimônio chegou à Garopaba, para comprovar que lá não é apenas terra de belas praias e incríveis ondas mas de ambientes rurais que guardam a arte “engenheira” e ofertam muito peixe com farinha! A mobilização para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural segue guiada pelo cheiro das farinhadas que estão a todo vapor.

A caminho de Garopaba passamos pela comunidade das Três Barras para visitar umas das famílias fundadoras do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, que foi inaugurado ali, no Engenho das Três Irmãs, em 2010. Tivemos a grata surpresa de encontrar Inácia, Maura, Rosa e João reunidos com dois fornos acesos, o da farinha e o do beiju. Em pleno  jogo da seleção brasileira contra o México na copa do mundo a família priorizava o ritual da farinhada no engenho mostrando que as referências culturais do brasileiro estão para além do futebol.

Adentrando as estradas de terra do litoral e chegando à comunidade do Macacu, avistamos um rapaz conduzindo um carro de boi que transportava a lenha que serviria de combustível para uma farinhada que também estava ocorrendo no Siriú. Era Júnior, jovem que participou do III Encontro da Rede de Engenhos, ocorrido na Costa do Macacú em 2017. Além da lenha, Júnior transportava quem passava na estrada ao “tempo dos carros de boi” que, como vimos, não podemos dar por acabado.

A ideia da perda das tradições e de que “os engenhos se acabaram”, está deixando de ser destaque na fala das famílias engenheiras. A cada ano, observa-se mais e mais engenhos sendo remontados e novamente ativados com a principal motivação da vivência familiar e da autonomia alimentar, gerando produtos saudáveis, de qualidade e sabor inigualáveis.

A dimensão patrimonial dos engenhos de farinha se impõe de forma viva e tocante quando encontramos pelo caminho engenhos antes desconhecidos com famílias inteiras reunidas na lida da roda de raspagem, como visto neste mês de Julho de 2018, na Costa do Macacu. Crianças, adultos e anciãos, cada qual com sua faca na mão, agachados no chão do Engenho, debruçados sobre um grande monte de mandiocas, arrancadas de roças dali mesmo. Estas roças são acessadas por caminhos que dão até o morro, espaços de trabalho onde se pode desfrutar também de uma paisagem cultural que agrega criação de animais e pequenas lavouras às dunas, mares e restingas características da região.

No Macacu, área rural de Garopaba, visitamos quatro engenhos, que estava em plenos mutirões familiares e/ou comunitários para o feitio artesanal da farinha, as farinhadas. Nessas oportunidades de encontro, pudemos realizar conversas sobre o andamento da proposta de Registro como patrimônio imateiral, bem como apresentar  as anuências dos detentores desse patrimônio agroalimentar para serem circuladas entre os membros das famílias, envolvendo todos neste processo de mobilização.

No centro de Garopaba, realizamos uma importante conversa com o Coordenador de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do município, Marcus Vinicius Israel, que compõe as parcerias institucionais da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. Tratamos da colaboração da Prefeitura de Garopaba à proposta de Registro dos Engenhos como patrimônio imaterial e de traçamos possibilidades de parceria em diversas ações com foco cultural como mapeamentos, intercâmbios, exibições de audiovisual, mobilizações e produção de materiais.

Outra importante parceria neste município é a professora Juliani Brignol Walotek, do IFSC, historiadora e agente cultural na elaboração do Inventário Participativo da Rede de Engenhos. Juliani vem trabalhando o tema da educação patrimonial com suas turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), de Guia de Turismo, bem como nas formações de Condutores Ambientais. Ela irá facilitar a colaboração dos alunos no inventário através de oficinas em parceria com o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha.

Para fechar o intenso dia de atividades foi exibido o documentário “Cultura de Engenho: patrimônio e resistência” no auditório do IFSC Garopaba, para as turmas da professora Juliani e professor Carlos também historiador. O documentário foi produzido pela Vagaluzes Filmes para servir de ferramenta ao processo de Registro. Após a exibição houve uma calorosa roda de conversa que se estendeu na noite trazendo emocionados depoimentos de pessoas que tem engenhos de farinha como referência cultural. Diversos temas relevantes foram debatidos, com vistas à preservação dos engenhos de farinha na região, tendo o foco no turismo cultural de base comunitária e agroturismo. A equipe do Ponto de Cultura também explicou sobre o processo dos Inventários Participativos e do Registro para pedir a colaboração dos presentes, que se mostraram muito interessados. A adesão foi grande e a prosa finalizou com a certeza de que estava apenas começando.