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Buscando engajar comunidades e gerações diversas no processo de Inventário Participativo dos Engenhos de Farinha de Santa Catarina, a equipe da Rede Catarinense de Engenhos/Cepagro esteve na última quarta (8 de agosto) na Escola de Educação Básica Maria Rita Flor, em Bombinhas, para conversar com estudantes do 2º ano do Ensino Médio sobre a aventura de levantar os bens culturais relacionados aos engenhos da região. Conceitos como bens culturais, patrimônio e inventário foram dialogados com as/os estudantes de forma descontraída e afetuosa pela  agrônoma Karina de Lorenzi e a educadora Giselle Miotto. A mini-oficina faz parte do projeto PdC 2.0: estratégias em rede, que, através de atividades e vivências de educação patrimonial, tem o objetivo de criar um dossiê sobre os engenhos de farinha do litoral catarinense, material que pode embasar o pedido do registro destes como Patrimônio Cultural junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O projeto tem apoio da Secretaria de Estado de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer (SOL).

A ideia de trabalhar com os/as adolescentes surgiu durante a primeira oficina de Inventário Participativo do projeto em Bombinhas, realizado em maio deste ano no Engenho Comunitário do Miminho, revitalizado pela Fundação Municipal de Cultura. Com orientação das professoras Maria José de Melo Mafra e Eliane Pereira (História) e Caroline Floriano (Artes), a juventude irá visitar os engenhos, conversar com mestres e mestras, levantar seus bens culturais e produzir apresentações em diversos formatos. De acordo com a professora Eliane Pereira, na disciplina de Marketing (integrante do currículo profissionalizante em Hospedagem integrado ao Ensino Médio) as turmas vêm desenvolvendo jornais, sendo que dois grupos já se interessaram pela pauta dos engenhos para suas publicações. A estudante Ariel Gonçalves, de 17 anos, propôs que seja feita uma homenagem a engenheiros e engenheiras no final do ano. “Já fizemos isso com os pescadores, poderíamos fazer com os mestres e mestras dos engenhos”, disse a jovem. A jornalista da Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas, Márcia Ferreira, também vai colaborar na iniciativa, pois já trabalha há alguns anos com o registro e produção de materiais sobre o Patrimônio Cultural Imaterial de Bombinhas.

Ao trabalho na EEB Maria Rita Flor somam-se outras ações de educação patrimonial para construção do Inventário Participativo dos engenhos, como oficinas de mapeamento e preparação de receitas, a produção de spots audiovisuais #EngenhoÉPatrimônio e as rodas de conversa animadas pelo documentário Cultura de Engenho. Haverá oficinas também em Garopaba, Imbituba e Florianópolis. Através de metodologias e linguagens diversas, a Rede vai tecendo entendimentos com as comunidades sobre a importância cultural e afetiva do Patrimônio Cultural Imaterial, que vão muito além da chancela estatal. Como disse Carla Cruz, do IPHAN, durante uma das atividades da Rede em fevereiro de 2017, “Patrimônio Cultural tem a ver com resistência”.

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Na oficina Mapeando os Engenhos de Farinha, realizada no último sábado (28 de julho) no Sertão do Ribeirão, moradoras e moradores trouxeram lembranças e informações sobre a presença dos engenhos de farinha de mandioca no Sul da Ilha de Santa Catarina. A atividade integra projetos do Cepagro apoiados pelo edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura e também pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo (SOL) para a produção de um Mapa Cultural dos Engenhos de Farinha e também para o Inventário Cultural dos Engenhos de Santa Catarina. Durante a oficina, foram discutidos também os desafios para a manutenção da produção artesanal de farinha em Florianópolis.

A ausência massiva das crianças nas aulas durante os meses de junho, julho e agosto – correspondentes à temporada das farinhadas – levou a professora Almerinda Catarina Scotti de Souza, ainda na década de 70, a cogitar mudanças no calendário letivo na escola do Sertão do Ribeirão, onde lecionava. “Ninguém vinha pra aula, só queriam ir fazer farinha”, recorda Almerinda, hoje presidente da Associação de Moradores da comunidade. Uma de suas estudantes era Luzia Ramos dos Santos, que ainda lembra das brincadeiras misturadas à lida no engenho do pai. “A gente começava de madrugada e ia até à noite, às vezes pegava no sono dentro dos balaios mesmo. Meu pai me levava de volta pra casa nos ombros, eu olhava pro céu e pensava que a lua caminhava com a gente”, recorda Luzia, que hoje trabalha como cozinheira escolar. Almerinda, Luzia e mais 20 pessoas do Sertão do Ribeirão, Campeche e Ribeirão da Ilha compartilharam estas e outras lembranças e conhecimentos sobre os engenhos de farinha no sul da Ilha de Santa Catarina durante a oficina Mapeando Engenhos de Farinha, realizada no último sábado no Sertão do Ribeirão. O objetivo da oficina era identificar e mapear os engenhos e roças de mandioca na região sul da Ilha, além de fazer um levantamento dos bens culturais ligados aos engenhos: o que aquelas famílias consideravam que era mais importante nos engenhos?

Luzia Ramos dos Santos e a mãe, Cecília, guardam os artefatos do tempo da produção artesanal de farinha.

Enquanto o discurso hegemônico coloca os engenhos somente como lugares de memória, a oficina identificou 5 unidades produtivas e ativas no Sertão do Ribeirão, Campeche, Rio Tavares e Ribeirão da Ilha. Além destes, 2 engenhos do Sertão do Ribeirão foram desativados recentemente, mas seguem montados. O principal obstáculo para a produção de farinha? Segundo os participantes da oficina, é a obtenção da matéria-prima: a mandioca. “A gente tem vontade, mas não tem o direito de trabalhar. Tenho engenho, mas não posso fazer roça. Me falam pra plantar num lugar, mas eu quero plantar onde eu sei que vai dar”, afirma Apolinário Vergílio Soares, agricultor do Sertão do Ribeirão e dono de um engenho desativado há 3 anos. Como sua propriedade está dentro de uma Unidade de Conservação – o Parque Municipal da Lagoa do Peri -, Apolinário não pode abrir áreas de roça para plantar mandioca, o que inviabiliza a sua produção de farinha se ele não tiver condições de trazer mandioca de fora. Outro “engenheiro” do Sertão do Ribeirão é Manoel Domingos de Souza, o Neca, que traz mandioca do Canto da Lagoa e de outros bairros para fazer farinha. “Até quando vou fazer eu não sei, enquanto tiver vontade de trabalhar acho que vai”, afirma o agricultor e mestre-forneiro. “Como vamos manter a tradição? Vou plantar mandioca onde, no mar? Comprar mandioca na Garopaba com veneno pra fazer farinha?”, questiona Manoel Jesus da Natividade, outro Neca, morador da Costeira do Ribeirão e também remanescente da produção artesanal de farinha.

Jacob Heindeinreich (às esquerda), com Daura e Manoel Domingos de Souza, guardiões da produção artesanal de farinha em Florianópolis.

Às restrições para abertura de áreas de roça – que também usavam muito as encostas de morro, hoje Áreas de Preservação Permanente -, soma-se também a falta de mão-de-obra para cultivar e processar a mandioca. Ainda assim, entre vizinhos sempre chega alguém para ajudar, como Osvaldina Maria Barcelos, que cresceu em engenhos e hoje ajuda Neca durante as farinhadas: “Quando chega o tempo de fazer farinha, é o que a gente mais gosta de fazer”, conta Dina. “Se não tiver ninguém pra ajudar, não dá pra fazer. Se vier 10 pessoas e ficar só conversando, não sai farinha. Tem que vir pra ajudar”, explica Neca. “No engenho de farinha tudo é importante. Começa pela raspagem. Raspou, tem que levar pro ralador. Do ralador pra prensa. Seca num dia, vai pra peneira e forno no outro. É uma sequência. Todos trabalham, mulher e homem”, explica Jacob Heideinreich, de 93 anos, dono de um engenho em funcionamento no Ribeirão da Ilha. Apesar de todos estes desafios, ele e o filho João seguem cultivando mandioca no próprio terreno e fazendo farinha, assim como Neca e outros engenheiros do Campeche e Rio Tavares. 

Em termos numéricos, o declínio dos engenhos de farinha é visível na Ilha de Santa Catarina. Luzia Ramos dos Santos fez um levantamento junto com sua mãe, Cecília Ramos dos Santos, de 83 anos, que mostra que em 1940 eram 22 engenhos ativos

Cecília Ramos dos Santos (ao centro) e Yolanda Heideinreich (à esquerda) compartilharam memórias e informações sobre os engenhos

só no Sertão do Ribeirão. Em 1974, quando Luzia era criança, o número havia caído para 18. Hoje, só os Necas (Domingos de Souza e Jesus da Natividade) segue fazendo farinha ali. Por outro lado, há um movimento de adquirir engenhos desativados para fazê-los funcionar novamente. Um dos mais interessados é Ataíde Silva, coordenador da Horta Comunitária e Pedagógica do PACUCA, no Campeche. “Queremos um parque com nossas raízes: gado, roça de mandioca e aipim e engenho, pra passar pras novas gerações”, afirma Ataíde, que identificou 2 engenhos em funcionamento no Campeche. Além disso, colocou a área da Horta Comunitária à disposição para quem quisesse fazer sua roça de mandioca ali. “No Campeche tem terra pra plantar, mas não tem plantador. É terra de areia, é tudo que o aipim e mandioca gostam”, completa.

 

A fala de Ataíde e outras mostram como a mobilização e o (re)encantamento das juventudes para com a lida dos engenhos é fundamental para a conservação deste patrimônio cultural e agroalimentar. A promoção de oficinas práticas e atividades com escolas foram apontadas pelos participantes como algumas estratégias para manter os engenhos vivos. Foi apontado também que seria importante restringir a venda separada de peças de engenho como artigos decorativos, tendência que vem crescendo em Santa Catarina. Além disso, o diálogo com o Poder Público para a preservação dos engenhos (e da produção de mandioca) no Plano de Manejo das Unidades de conservação foi outro encaminhamento considerado prioritário.

 

Enquanto isso, a produção artesanal de farinha de mandioca segue resistindo na Ilha de Santa Catarina. Nesta semana, Jacob e João, por exemplo, estão na segunda forneada da temporada, no Ribeirão da Ilha, mantendo vivos os saberes e as práticas que fazem dos engenhos patrimônio cultural de Santa Catarina.

 

 

 

 

 

O Encontro contou com apoio da Prefeitura de Angelina e também do mandato do vereador Marquito (PSOL) para viabilizar o transporte dos/as participantes

Realizado durante a já tradicional Feira da Mandioca de Imbituba, o 5º Encontro da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha aconteceu no último domingo, 22 de julho, reunindo famílias engenheiras de Florianópolis, Angelina, Palhoça, Garopaba no engenho da ACORDI (Associação Comunitária Rural de Imbituba), cuja comunidade também participou do evento. Além de desfrutar das belas paisagens, conhecer o histórico de luta da Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira e saborear o almoço da roça, as/os participantes trocaram sementes, mudas, ramas de mandioca e aipim e claro, muitos causos, experiências e saberes.

Durante o Encontro, o pessoal da Rede também viu uma prévia do vídeo da campanha #EngenhoÉPatrimônio, que reúne história e memórias de quem viveu, trabalhou e brincou nos engenhos de farinha de Santa Catarina. O filme é uma das ferramentas de mobilização de comunidades para o reconhecimento dos engenhos de farinha como Patrimônio Cultural, assim como o documentário Cultura de Engenho, apresentado na noite anterior ao Encontro. Na ocasião, também foi lançada a Fortaleza Slow Food dos Engenhos de Farinha de Mandioca Polvilhada de Santa Catarina, mais uma chancela para a importância cultural e gastronômica do patrimônio agroalimentar ligado aos Engenhos.

Seu Neim, forneiro oficinal da ACORDI, confere as variedades de mandioca, aipim e macaxeira trazidas pra troca

Mas o ponto alto do Encontro foi a troca de ramas, com 11 variedades de aipim, mandioca e macaxeira de várias localidades – até mesmo da Amazônia – circulando entre dezenas de famílias, além de sementes crioulas de milho. “A troca de ramas acho que é algo tão interessante quanto a troca de ideias. Porque diversifica, enriquece”, avalia a agricultora Catarina Gelsleuchter, que veio de Angelina a Imbituba com outras 14 pessoas para participar do Encontro. Algumas variedades, como a Mandioca Broto Roxo e a Macula, já tinham desaparecido dos Areais da Ribanceira e foram resgatadas com outras famílias agricultoras pela agrônoma-agricultora Marlene  Borges, associada da ACORDI. “A perda do território também foi responsável por uma erosão genética”, explica Marlene, referindo-se ao despejo de famílias da comunidade por empresas privadas, que com a conivência do governo do Estado, “compraram” as terras tradicionalmente ocupadas há 200 anos pelas famílias. Entre 2010 e 2016, de acordo com Marlene, as variedades de mandioca e aipim no território tradicional dos Areais caiu de 45 para 5. “Essa troca então foi muito legal, minha coleção vai aumentar. E o importante é distribuir as ramas  pra outras pessoas, pra não se perder”, afirma.

Marlene Borges, da ACORDI, fala sobre o histórico de luta e resistência dos Areais da Ribanceira

A participação das famílias engenheiras de outros municípios no maior evento da ACORDI, a Feira da Mandioca, fortalece a luta da comunidade. “Foi um encontro muito bonito, foi além das minhas expectativas. Não pensei que tantas pessoas prestigiassem a Feira da Mandioca, vi muitas pessoas interessadas”, conta Catarina ao participar pela primeira vez da Feira, que neste ano chegou a reunir cerca de 3 mil pessoas nos três dias de programação. No mês passado, a Feira da Mandioca recebeu o Prêmio Boas Práticas em Sistemas Agrícolas Tradicionais, concedido pelo  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Embrapa e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU). A premiação financeira, no valor de R$ 70 mil reais, será usada para terminar a construção do Engenho da ACORDI, que desde 2010 simboliza a luta e a resistência desta comunidade tradicional na defesa de seu território. “Mas esse valor é pequeno perto do que foi o reconhecimento nacional e inclusive do potencial que temos para fazer o registro mundial deste sistema, conforme nos disseram”, conta Marlene. “Estar no mesmo patamar de pessoas como as quebradeiras de coco, com todo seu histórico de luta, foi louvável”, completa. A ACORDI ficou em 4º lugar na premiação do BNDES/IPHAN/FAO, que também laureou outros 2 sistemas agrícolas tradicionais de Santa Catarina: a Roça de Toco (Biguaçu) e a Cadeia Produtiva do Pinhão (Planalto Serrano). Todas estas iniciativas pretendem se encontrar em agosto deste ano para planejar uma articulação das comunidades tradicionais catarinenses.

A agricultora Rosa Nascimento, de Palhoça, levou 2 variedades de aipim e 1 de mandioca para plantar na sua comunidade, as Três Barras.

Pelo lado dos Engenhos, as atividades da Rede seguem no próximo sábado, 28 de julho, com a oficina MAPEANDO ENGENHOS DE FARINHA, no Salão Comunitário do Sertão do Peri, mais uma ação contemplada no Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura.

 

 

No último dia 02 de Julho, a caravana #EngenhoéPatrimônio chegou à Garopaba, para comprovar que lá não é apenas terra de belas praias e incríveis ondas mas de ambientes rurais que guardam a arte “engenheira” e ofertam muito peixe com farinha! A mobilização para o reconhecimento dos Engenhos de Farinha como patrimônio cultural segue guiada pelo cheiro das farinhadas que estão a todo vapor.

A caminho de Garopaba passamos pela comunidade das Três Barras para visitar umas das famílias fundadoras do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, que foi inaugurado ali, no Engenho das Três Irmãs, em 2010. Tivemos a grata surpresa de encontrar Inácia, Maura, Rosa e João reunidos com dois fornos acesos, o da farinha e o do beiju. Em pleno  jogo da seleção brasileira contra o México na copa do mundo a família priorizava o ritual da farinhada no engenho mostrando que as referências culturais do brasileiro estão para além do futebol.

Adentrando as estradas de terra do litoral e chegando à comunidade do Macacu, avistamos um rapaz conduzindo um carro de boi que transportava a lenha que serviria de combustível para uma farinhada que também estava ocorrendo no Siriú. Era Júnior, jovem que participou do III Encontro da Rede de Engenhos, ocorrido na Costa do Macacú em 2017. Além da lenha, Júnior transportava quem passava na estrada ao “tempo dos carros de boi” que, como vimos, não podemos dar por acabado.

A ideia da perda das tradições e de que “os engenhos se acabaram”, está deixando de ser destaque na fala das famílias engenheiras. A cada ano, observa-se mais e mais engenhos sendo remontados e novamente ativados com a principal motivação da vivência familiar e da autonomia alimentar, gerando produtos saudáveis, de qualidade e sabor inigualáveis.

A dimensão patrimonial dos engenhos de farinha se impõe de forma viva e tocante quando encontramos pelo caminho engenhos antes desconhecidos com famílias inteiras reunidas na lida da roda de raspagem, como visto neste mês de Julho de 2018, na Costa do Macacu. Crianças, adultos e anciãos, cada qual com sua faca na mão, agachados no chão do Engenho, debruçados sobre um grande monte de mandiocas, arrancadas de roças dali mesmo. Estas roças são acessadas por caminhos que dão até o morro, espaços de trabalho onde se pode desfrutar também de uma paisagem cultural que agrega criação de animais e pequenas lavouras às dunas, mares e restingas características da região.

No Macacu, área rural de Garopaba, visitamos quatro engenhos, que estava em plenos mutirões familiares e/ou comunitários para o feitio artesanal da farinha, as farinhadas. Nessas oportunidades de encontro, pudemos realizar conversas sobre o andamento da proposta de Registro como patrimônio imateiral, bem como apresentar  as anuências dos detentores desse patrimônio agroalimentar para serem circuladas entre os membros das famílias, envolvendo todos neste processo de mobilização.

No centro de Garopaba, realizamos uma importante conversa com o Coordenador de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do município, Marcus Vinicius Israel, que compõe as parcerias institucionais da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha. Tratamos da colaboração da Prefeitura de Garopaba à proposta de Registro dos Engenhos como patrimônio imaterial e de traçamos possibilidades de parceria em diversas ações com foco cultural como mapeamentos, intercâmbios, exibições de audiovisual, mobilizações e produção de materiais.

Outra importante parceria neste município é a professora Juliani Brignol Walotek, do IFSC, historiadora e agente cultural na elaboração do Inventário Participativo da Rede de Engenhos. Juliani vem trabalhando o tema da educação patrimonial com suas turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), de Guia de Turismo, bem como nas formações de Condutores Ambientais. Ela irá facilitar a colaboração dos alunos no inventário através de oficinas em parceria com o Ponto de Cultura Engenhos de Farinha.

Para fechar o intenso dia de atividades foi exibido o documentário “Cultura de Engenho: patrimônio e resistência” no auditório do IFSC Garopaba, para as turmas da professora Juliani e professor Carlos também historiador. O documentário foi produzido pela Vagaluzes Filmes para servir de ferramenta ao processo de Registro. Após a exibição houve uma calorosa roda de conversa que se estendeu na noite trazendo emocionados depoimentos de pessoas que tem engenhos de farinha como referência cultural. Diversos temas relevantes foram debatidos, com vistas à preservação dos engenhos de farinha na região, tendo o foco no turismo cultural de base comunitária e agroturismo. A equipe do Ponto de Cultura também explicou sobre o processo dos Inventários Participativos e do Registro para pedir a colaboração dos presentes, que se mostraram muito interessados. A adesão foi grande e a prosa finalizou com a certeza de que estava apenas começando.

 

“Foi um sábado diferente”, avaliou o militar aposentado Jacó Heideinreich, de 93 anos, sobre a atividade que aconteceu no seu engenho no Ribeirão da Ilha no dia 23 de junho. Integrando o projeto Saberes, Sabores e Histórias de Engenhos, que através do edital Elisabete Anderle de apoio à Cultura tem o objetivo de produzir um livro de receitas com iguarias engenheiras, a oficina realizada no Engenho da família Heideinreich foi um espaço para compartilhar muito mais do que saberes culinários. Informações sobre ramas de mandioca, memórias, piadas e até estratégias para afastar cotias das roças circularam ao redor do forno e da prensa do engenho, que Jacó herdou do seu avô, imigrante alemão.

Participaram da atividade famílias engenheiras de Florianópolis: os Andrade (Santo Antônio de Lisboa), os amigos Ailton Barbosa e Manuel de Souza (Sertão do Ribeirão), além da jovem Karlota Scotti, também do Sertão. No menu, foram preparadas e saboreadas iguarias como a cacuanga (por Maria de Lourdes Andrade Padilha); beijú, bolo de massa, bolo de aipim ralado (pela anfitriã Yolanda Heindenreich) e bijajica (por Karlota Scotti e o ecochef Fabiano Gregório). Tudo isso acompanhando o almoço espetacular comandado pelo chef Fabiano, com tainha frita, pirão de peixe e bolinhos de feijão.

A equipe do Ponto de Cultura registrou cada etapa da preparação das receitas. O objetivo é editar um livro com elas, junto com causos e fotografias dos quitutes e seus personagens. A publicação tem lançamento previsto para o final deste ano.

 

 

 

 

O forno a lenha da casa da família Gelsleuchter, em Coqueiros, já estava aceso desde de manhã cedo para assar pão de milho e rosca de polvilho com fubá. Em volta do fogão do engenho – também a lenha -, enquanto o cozinheiro Fabiano Gregório coordenava o arroz com feijão, pirão e galinha caipira, dona Teresinha da Silva Coelho explicava do ponto do cuscuz. Feito o almoço, dona Catarina Gelsleuchter colocou alguns beijus na sua chapa nova. Depois de acertar o ponto do fogo, passou a escumadeira para um de seus 7 filhos e outros rapazes de 30 a 70 anos. Quando dona Aurina Francisco Duarte veio para fazer tapioca, o calor estava no ponto certo.

Essa e outras receitas tradicionais dos engenhos de farinha catarinenses – como o pão de farinha de mandioca na frigideira e o mingau de café – foram o convite certo para que vizinhos e parentes dos Gelsleuchter se juntassem no engenho da família no último sábado para participar da oficina do projeto Saberes, Sabores e Histórias de Engenho, realizado pelo Cepagro através do edital Elisabete Anderle de Apoio à Cultura no último sábado, 16 de junho. O objetivo principal do projeto é produzir um livro com essas e outras receitas, além de causos e fotos dos engenhos. As oficinas são os espaços para colher esses saborosos conteúdos – além de ser mais uma oportunidade de relembrar os cheiros, gostos e brincadeiras dos engenhos.

Rapaziada virando beiju.

Várias das famílias presentes tinham ou ainda têm engenhos, e vieram compartilhar receitas passadas através de gerações. “Tem uns 60 anos pelo menos que eu já faço cuscuz. Eu era criançae já ajudava minha mãe a fazer”, conta a auxiliar de cozinha Terezinha da Silva Coelho. A família dela tinha engenho na comunidade de Bethânia, também em Angelina. “Muita farinha a gente fez. Tinha ano que fazia até 200 sacos de farinha, desses de 60 kilos. Meus filhos mais velhos foram criados no engenho fazendo farinha. A gente ficava até 3 meses lá fazendo farinha. Como o engenho era longe da casa, então a gente se mudava pra lá, ficava 3 meses morando no engenho”, relembra ela enquanto confere o ponto do cuscuz.

Mestra Aurina Francisco Duarte mostrando a arte de virar tapioca no fogão a lenha

Os irmãos Irma e José Arno Hames, outros participantes da oficina, também cresceram dentro do engenho da família, que fica próximo da propriedade dos Gelsleuchter. As memórias do trabalho duro misturado às brincadeiras da infância permeiam as falas dos dois: “Era sofridinho. Tinha que levantar de madrugada, caminhar no escuro, era frio pra arrancar o aipim, tudo puxado no cavalo”, recorda Irma, hoje com 51 anos. “A gente passou muita dificuldade. Era carregar os cestos, era bem pesado. Mas a gente vencia. Fazia o serviço junto com o pai e a mãe”, concorda o irmão, Arno. Pelo que os irmãos lembram, o engenho está com a família há 52 anos, mas já foi comprado usado. Na engrenagem principal, feita de canela, a marca com o ano “1940” testemunha a idade da maquinaria, que segue ativa. Apesar das lembranças da lida difícil, há cerca de 2 anos Arno resolveu reativar o engenho da família, que ficara 18 anos parado. “O engenho ficou uns 18 anos parado. De uns 2 anos pra cá voltou a funcionar”, conta Arno. “Os outros irmãos não queríamos. Mas aí vimos que não adiantava insistir com ele, ele queria, aí apoiamos. E agora a gente gosta”, conta Irma. Todo ano os quatro irmãos se reúnem pra fazer farinha “por esporte” e também pro auto-consumo.

Acostumados com a movimentação do engenho durante as farinhadas anuais, Catarina e Celso Gelsleuchter estavam animados com a atividade. Os anfitriões da próxima oficina gastronômica serão Graziela e João Heindenreich, irmãos que mantém o engenho da família no bairro Ribeirão da Ilha, em Florianópolis. A atividade será no próximo sábado, 23 de junho.

 

*com informações do Iphan

A ACORDI recebeu na última 2ª feira, 18 de junho, em Brasília, o Prêmio por Boas Práticas em Sistemas Agrícolas Tradicionais, concedido pelo  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Embrapa e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), com o objetivo de reconhecer boas práticas presentes nos Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) no Brasil.
Foram premiadas 15 iniciativas, sendo que a Associação Comunitária Rural de Imbituba ficou em 4º lugar. Os primeiros cinco colocados receberão o valor bruto de R$ 70 mil e os demais R$ 50 mil. Foram inscritas 58 instituições de direito privado e sem fins lucrativos, localizadas em diversas regiões brasileiras. A ação que ganhou o  primeiro lugar foi a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais (AMTR), do Lago do Junco (MA); em segundo lugar, ficou a Associação dos Produtores Rurais de Vereda, de Matias Cardoso (MG); em terceiro, a Associação dos Remanescentes de Quilombo de São Pedro, de Eldorado (SP), na quarta colocação, a Associação Comunitária Rural de Imbituba, de Imbituba (SC) e em quinto lugar, será premiado o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), dos municípios baianos de Pilão Arcado, Campo Alegre de Lourdes, Canudos, Casa Nova, Remanso, Curaçá, Sento Sé, Uauá, Sobradinho e Juazeiro.

Além do prêmio em dinheiro, os vencedores recebem capacitação da Embrapa e orientação para, caso desejem, se candidatarem a receber o título de Sistema Agrícola Tradicional Globalmente Importante (GIAHS – sigla em inglês para Globally Important Agricultural Heritage Systems,). A FAO já concedeu o título de GIAHS a 36 sistemas agrícolas tradicionais do Chile, Peru, Filipinas, China, Bangladesh, Índia, Japão, Coreia do Sul, Argélia, Irã, Marrocos, Tunísia, Emirados Árabes Unidos, Egito, Quênia, Tanzânia e México.

Areais da Ribanceira: resistência da agricultura tradicional

A Comunidade Tradicional dos Areais da Ribanceira convive há várias décadas com um processo de desterritorialização, que elimina formas de uso comum da terra e da água, colocando em risco o grupo social e todo patrimônio imaterial acumulado ao longo das gerações. Um exemplo é a ação de reintegração de posse que o governo do Estado de Santa Catarina, está movendo contra a ACORDI, assim como vários pescadores da praia de Imbituba também estão sendo ameaçados por processos similares, movidos por empresa privada (IEP).

A essência da comunidade está no uso comum do seu território, que está diretamente ligado ao acesso aos recursos naturais. E, se isto for interrompido, interrompe-se também a reprodução cultural/social/religiosa/ancestral e econômica da comunidade, que é a principal responsável pela manutenção do ecossistema e da construção tradicional de um conjunto de conhecimentos, inovações e práticas que beneficiam toda sociedade.

Sistemas Agrícolas Tradicionais

Os povos e comunidades tradicionais possuem formas únicas de praticar a agricultura, que expressam saberes particulares, envolvendo desde o cultivo da terra até diversos outros processos simbólicos e produtivos, de maneira integrada, constituindo os chamados Sistemas Agrícolas Tradicionais.

Um SAT pode ser definido como um conjunto de elementos que inclui saberes, mitos, formas de organização social, práticas, produtos, técnicas/artefatos e outras manifestações associadas. Eles formam sistemas culturais que envolvem espaços, práticas alimentares e agroecossistemas manejados por povos e comunidades tradicionais e por agricultores familiares. Os SATs integram o patrimônio cultural imaterial das comunidades que os praticam.